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Entrevista com autor

Leonardo Name



Geografia, arquitetura, comunicação, história, antropologia, psicologia, sociologia. A cada capítulo (ou take), fica mais difícil para o leitor encontrar uma área que não seja mencionada em Geografia pop: o cinema e o outro. O livro é resultado da pesquisa de mestrado e doutorado em Geografia de Leonardo Name, formado originalmente em Arquitetura com especialização em Sociologia Urbana (UFRJ). Essa bagagem acadêmica foi usada pelo professor do departamento de Geografia da PUC-Rio para analisar a visão eurocêntrica presente nas representações geográficas que constituem a cultura pop, especialmente o cinema.

» O que caracteriza a geografia pop?

O que chamo de geografia pop é essa geografia emulada, emitida por objetos da cultura de massa. Em um documentário do Discovery Channel, conseguimos classificar com muita clareza, "Sim, isso é geografia. Eles estão falando dos índios da floresta, dos vulcões.” Mas há produtos em que não nos damos conta do pensamento geográfico – ainda que, com todas as deturpações possíveis, narram geografia. O cinema, junto com várias outras coisas que chamo de geografia pop – novelas, videogames, narrativas de viagem, os livros turísticos – eles não falam de geografia; eles são geografia. São narrativas sobre o espaço, suas diferenças espaciais, e da interação sociedade-natureza o tempo inteiro.

O importante é entender que esses objetos da cultura de massa, por um lado, constroem espaço-tempo; por outro, enquanto objetos, circulam pelo mundo inteiro. Esse objeto tem uma narrativa, mas, independentemente da narrativa, ele também está circulando. Então, são duas tarefas geográficas: a difusão dessas ideias e o conteúdo espacial dessas ideias. E isso é geografia.

» Por que você decidiu falar de cinema a partir da geografia?

A resposta mais sincera é que eu gosto de cinema, e queria fazer alguma coisa que eu gostasse, e me divertisse. Eu acho que a contribuição da geografia é justamente que o cinema constrói novos espaço-temporalidades. O filme é uma narrativa espaço-temporal de diferenças entre lugares e povos. Em que medida os geógrafos repetiram padrões de discurso como esses no passado? Sabemos que a antropologia fez isso. A geografia também fez, ao descrever, mensurar e qualificar os lugares a partir de um ponto de vista posicionado, de conquistador, de ocidental, de o que quer que seja. Só que o cinema é muito característico no espaço-tempo que recria: diferente de uma pintura ou uma fotografia, que "congelam", o cinema tem uma realidade por conta do espaço que vem com o tempo. O que resume o meu trabalho ao longo desses anos é a análise de discurso. No caso, estou analisando discursos que não parecem geográficos, mas são. E em que medida a geografia alimenta esses discursos, ou pode ser alimentada por eles; em que medida, pelo menos, são discursos que caminham em paralelo.

» Qual é a importância de tempo e espaço nessa análise de discurso?

Você pode fazer uma análise “presentista” – mas tem que entender que aquele personagem também foi construído no tempo, que ele não está restrito ao King Kong, àquele filme. E que aquele filme, com aquele personagem King Kong, vai continuar viajando no tempo, porque o filme se reproduz. O filme não é um quadro num museu. Você vai continuar reproduzindo o filme ao longo do tempo e essa representação continuará a exercer um significado – que pode mudar, porque o mundo muda. A gente consegue, hoje, entender que King Kong é um filme racista. As pessoas da época não entendiam necessariamente. Mas a representação ainda está lá, exercendo o poder que uma representação tem, de dar uma leitura da realidade. Então, tempo e espaço são muito importantes para entender o trabalho. Há uma reprodução na difusão espacial; há uma representação que se difunde tanto no espaço quanto no tempo. Porque o filme é eterno, nesse sentido.

» Uma dessas formas de representação mencionadas no livro é o personagem geográfico. O que difere esse personagem de um personagem comum?

O personagem geográfico no cinema é o personagem que comenta sobre as relações do espaço através de sua espacialidade. No caso do King Kong, estamos falando da posição desse nativo dominado, de uma ilha que é apresentada de forma muito específica: um espaço inferiorizado, colocado como feroz... O King Kong trata das representações de natureza, como um todo, ao passo que o Indiana Jones é a figura do conquistador móvel que viaja pelo mundo em um o projeto civilizatório. E que legitima a violência desse processo. Então, é essa a ideia – o personagem que traz consigo espacialidades, práticas espaciais muito específicas.

» Além de assistir aos filmes, como foi feita a pesquisa para o livro?

Metodologicamente, fiz uma mistura de uma literatura que poderíamos chamar, forçando um pouco a barra, de pós-colonial, com geografia cultural. Ela desemboca numa pesquisa sobre a espacialidade dos filmes na temporalidade das representações, e como é que isso se traduz em termos de paisagem e lugar no cinema. Junto com isso, havia a preocupação de pegar conceitos da geografia como paisagem e lugar para validar esse trabalho sobre cinema, dentro da geografia. Pesquiso sobre esses dois conceitos-chave da geografia e como eles podem ser tratados no cinema. Tenho uma atração por narrativas de lugares distantes, que são muito pautadas por uma eurocentralidade.

» O que seria a literatura pós-colonial?

Obras que falam sobre esse mundo que ainda tem resquícios de colonialidade e poder, tanto no cinema quanto na geografia – e fora da geografia, e sobre a relação de hegemonia e subalternidade que é propícia da colonização. Alguns autores defendem que ainda estamos sob a influência ainda de dois momentos históricos muito específicos – a chegada à América e o imperialismo do século XIX. Eles identificam discursos de uma construção que naturaliza uma subalternidade da natureza e dos Trópicos e práticas de poder servem de base para o que os autores chamam de “colonialidade do poder” – que mistura dominação cultural, espacial, territorial, racial.

» Além desses autores há muitas referências a autores que seriam, tradicionalmente, da área de Comunicação. De onde vem essa influência?

Freud explica: sou filho de jornalistas e vim parar na geografia, apesar de ter feito arquitetura. Me apaixonei pela geografia e, se depender de mim, não saio dela. A influência da Comunicação é muito mais de uma cultura pop em mim do que, exatamente, um desejo acadêmico em torno dessa área. Acho importante que a ciência se debruce sobre esses objetos midiáticos – e essa é a tarefa que venho fazendo há bastante tempo, porque acho que existe uma lacuna, não só na geografia, mas também nas outras ciências, que partem do pressuposto que existem objetos “sérios” e válidos e objetos que não são.

Pense no texto do Walter Benjamin, “A era da reprodutibilidade técnica”: é nisso que estou interessado. Nas coisas que se reproduzem e se repetem. E isso, minimamente, é geografia, porque há uma difusão vertical e horizontal desses objetos e da perpetuação delas no tempo e no espaço. Então, as coisas que se reproduzem são tarefas da geografia analisar. Há uma espacialidade inerente nesse movimento.

» Há também uma presença forte da antropologia, na importância do encontro entre culturas, lugares e grupos de pessoas.

Meu professor de Teoria Cultural no doutorado em Geografia era antropólogo. Talvez história da ciência tenha sido organizada na minha cabeça a partir da aula desse professor: eu entendi a cadeia de disputas ideológicas e do processo de continuidade da ciência pela antropologia. E ele, como antropólogo, estava falando sempre daqueles autores que iam a campo, que faziam etnografia, os problemas de tradução... Leio alguma coisa de antropologia até hoje, mas não foi uma escolha metodológica. Como estou falando da ideia de encontro, a ideia de tempo volta a ser importante. Há encontros que realmente aconteceram – os encontros que os filmes representam são encontros de toda ordem que realmente aconteceram. Os conquistadores, os antropólogos, os zoólogos e os geógrafos que iam a campo conhecer esse “outro” que está no título.

» Um dos conceitos usados para falar sobre esses encontros de povos é a “zona de contato”. De que maneira o cinema é uma zona de contato?

A zona de contato é a área onde duas culturas se encontram e se chocam. É como uma boneca russa: o filme está narrando uma zona de contato quando o King Kong encontra com a equipe de cineastas. Mas a tela de cinema é uma zona de contato da plateia com aquele universo retratado. Temos uma situação que é meio de imersão e meio de alteridade com a tela de cinema: é uma alteridade representando zonas de contato. E isso é o mais interessante: uma parte do trabalho é entender essa superfície da tela como sendo um encontro de culturas. A tela virou uma zona de contato onde culturas se chocam e se enfrentam.

Foto: Gabriela DoriaProjeto Comunicar------------------------------------------------------------------------------------------

 


Publicado em: 31/08/2015





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