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Entrevista com autor

Mauro Rosso



Mauro Rosso, entrevistado do mês da seção Autores, recentemente teve seu livro Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés publicado pela Editora PUC-Rio em parceria com as Edições Loyola. A obra, que oferece o conto inédito de Machado de Assis Um para o outro e um completo histórico bibliográfico-editorial da produção contística de Machado, tem recebido ampla cobertura dos meios de comunicação neste ano em que se completa 100 anos da morte do escritor.

Rosso, pesquisador dos contos machadianos, considera como um dos principais temas machadianos a questão social feminina: “A mulher foi a protagonista na obra machadiana. E mais: o objeto dela, sua essência e leitmotiv”. O entrevistado defende o escritor daqueles que o consideram distante das questões sociais de seu tempo: “A defesa de Machado de Assis à mulher encontra pouca comparação na literatura brasileira. Ele achava que as mulheres deveriam ter direito à educação e ao amor”.

Mauro Rosso define a temática machadiana como inovadora para sua época. “Machado era avançadíssimo para o seu tempo, e, como todo autor genial, torna-se quase atemporal.” A modernidade da obra machadiana está associada, segundo Rosso, à antecipação de temas da ficção contemporânea, como o questionamento da forma narrativa do romance e o cultivo ao ceticismo do pós-modernismo.

Nesta entrevista concedida ao Projeto Comunicar e à seção Autores, Mauro Rosso fala também sobre as peculiaridades do livro Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés e oferece informações valiosas sobre temas associados à vida e à obra de Machado de Assis.

» Editora PUC-Rio: Por que, como afirma, Machado de Assis é o epicentro da literatura brasileira?

Mauro Rosso: Epicentro significa “ponto central, núcleo”, mas também cume, ápice, ou metaforicamente síntese. Essa expressão é o real significado de Machado de Assis e de sua obra para a Literatura Brasileira, pois constituem um verdadeiro feixe de tendências estéticas e sociológicas da literatura pós-romântica e uma síntese da evolução da literatura nacional, o eixo de um equilíbrio dinâmico da própria língua literária brasileira. Machado atuou e viveu da segunda metade do século XIX até início no século XX. Portanto, atravessou o Romantismo e o Realismo, escrevendo obras de alta qualidade. No Romantismo, usou e subverteu elementos estilísticos, estéticos, dramáticos e temáticos românticos. Por isso, ninguém foi tão criativo quanto ele nesse período. No Realismo, foi crítico e revolucionário. Solapou os elementos desse realismo, na criação de verdadeiras obras-primas. Fez, como ninguém, uma síntese entre a obra ficcional e o pano de fundo histórico em que vivia.

» Editora PUC-Rio: Quem é Machado de Assis para a cultura brasileira?

Mauro Rosso: Um autor que adquiriu estatura universal em termos literários numa sociedade e num meio cultural-artístico defasados em termos de progresso, escravocrata e de rígidos padrões sociais e morais, como o Brasil do século XIX. Machado produziu obra grandiosa em termos quantitativos e qualitativos em diversos campos da arte (romance, conto, crônica, teatro, poesia, crítica e ensaio). Foi um “multi-criador”. Nenhum outro autor foi tão bem-sucedido ao retratar a sociedade do século XIX, os costumes sociais e a natureza humana, por meio da sutileza crítico-irônica de sua linguagem e das geniais arquiteturas narrativa, temática e tramática de sua ficção, Em nenhum outro momento, com nenhum outro autor, deu-se um processo tão claro de evolução gradativa, consistente, como ocorreu com Machado. Ele buscou, da forma mais inteligente possível, acompanhar a lenta evolução da sociedade patriarcal brasileira tanto na ficção quanto na não-ficção. Colocou elementos de contestação e questionamento desses valores sociais nas entrelinhas. Machado foi o exemplo mais bem acabado do conceito de “ideias fora do lugar”, de Roberto Schwarz: um autor tão avançado para sua época e, ao mesmo tempo, tão atual e tão universal.» Editora PUC-Rio: Como aparecia o questionamento em Machado?

Mauro Rosso: Ele sempre cultivou a dúvida como instrumento de reflexão, e evitava o maniqueísmo de personagens por não aflorar os questionamentos. Uma das expressões de sua evolução literária foi a narração. O narrador machadiano muda. Existem as expressões cunhadas no estudo machadiano do narrador confiável e do narrador não-confiável. O narrador não-confiável sobressai a partir da segunda fase machadiana, iniciada em 1880. Esse tipo de narrador coloca dúvidas sobre as coisas. Nesse particular, costuma-se conferir importância desmesurada àquela grande questão do romance Dom Casmurro: Capitu traiu ou não traiu? – o que é absolutamente descartável e desprezível. Bentinho é o narrador da história. É o narrador em primeira pessoa machadiano, pós-1880, que é um narrador não-confiável. Machado adotou-o em muitos dos textos ficcionais desse período – justo os mais importantes e impactantes – ao contrário do narrador confiável de antes, que se expressa pelo chamado narrador em terceira pessoa.

» Editora PUC-Rio: Como era a relação do leitor com essas dúvidas?

Mauro Rosso: Machado ao longo de sua ficção levantava e cultuava todas essas dúvidas. Praticava quase que permanentemente esse exercício, e as colocava no leitor. Então, ao mesmo tempo em que Machado moldava trama e protagonistas, também moldava narradores e, consequentemente, leitores. Esse culto ao questionamento passou para o leitor, que começou a ler, ou pelo menos deveria ler – o que é válido para o leitor de hoje também – as histórias de Machado de forma diferente. E nisso está plenamente demonstrada a genialidade de um autor. Na evolução literária de Machado, alteram-se formas e ritmos narrativos – condimentados de ironia e humor, e adquirem um tom mais coloquial e de certa forma intimista. Transformações dos protagonistas que se manifestam também no narrador e, na voz narrativa, na criação de um “novo” leitor: o leitor-modelo, em contraponto ao leitor-empírico. Machado construiu em seu texto, e por meio dele, um novo “leitor-modelo” – conforme conceituação de “leitor-modelo” e “leitor-empírico”, de Umberto Eco. Machado formou seus leitores recorrendo a estratégias narrativas e estilísticas que, como poucos, tinha e sabia usar. Entre essas estratégias, digressões, fragmentações narrativas, retardamentos de fatos anunciados ou prometidos ao leitor, metamorfoses de vozes narrativas, de forma e de linguagem. Machado fez o leitor oscilar em “grave” – que espera algo mais do que um “puro romance”, que deseja reflexões de caráter mais realista – e “frívolo” – que espera impactos e emoções no texto ou na obra, um tipo romântico; na obra machadiana, o leitor empírico é o “frívolo”, e o leitor-modelo é o “grave”. Na medida da evolução literária machadiana, o leitor empírico/frívolo vai cedendo espaço ao leitor-modelo (inclusive um novo, criado por Machado)/grave. Ao mesmo tempo em que Machado camufla as diferenças existentes entre injunções ficcionais e reais, incentiva o leitor a acreditar no fictício, no embuste/artimanha, e o induz a ilusões interpretativas, simplesmente fomentando um narrador de pouca, ou nenhuma, confiabilidade, uma espécie de “narrador volúvel” que habita e conduz muitos de seus contos. E o leitor situa-se como um “espelho” desse narrador.

» Editora PUC-Rio: A questão social feminina é importante tema machadiano. Ao defender uma vida afetiva para a mulher oprimida da época, Machado aponta a infidelidade como caminho para essa vida?

Mauro Rosso: A mulher foi a protagonista na obra machadiana. E mais: o objeto dela, sua essência e leitmotiv. Por outro lado, Machado escrevia sobre mulheres e para mulheres ao publicar para periódicos femininos. Na ficção de Machado, realmente há uma profusão de mulheres que poderíamos classificar de infiéis. Mas não no sentido literal. De uma forma muito sutil, sem nenhum tipo de intenção contestadora, Machado apresentava a mulher como oprimida, principalmente no casamento. Por se viver em uma sociedade patriarcal, o homem impunha à mulher uma posição secundária. A forma de a mulher se rebelar contra isso era usar da dissimulação. Esse conceito e citação constante de “traição” na obra de Machado estão representados em Capitu, estigmatizada como a personificação da infiel e adúltera, o que é, reitero, uma tolice dramatúrgica. O conto Uma partida, de 1892, presente em Contos de Machado de Assis, é perfeitamente emblemático da situação da mulher brasileira naquela sociedade conservadora. A protagonista tem o perfil psicológico e comportamental comum às mulheres casadas, em busca de carinho e proteção, no universo patriarcal, senhorial e machista da ficção machadiana; explica o porquê de essa atitude de dissimulação que soe caracterizar as personagens femininas machadianas: a dissimulação é uma forma de compensação, ou defesa à atitude masculina de dominação e distanciamento. Porém, há de se esclarecer que a mulher, como protagonista machadiana, foi sofrendo mutações ao longo do tempo – como todos os demais elementos machadianos. Em 36 anos de produção, Machado se recicla e tenta “redimir” as mulheres, que deixam de ser figuras sensuais impulsionadas pelo desejo – como Capitu, Virgilia, Sofia, Guiomar, Valéria, Marcela – ou fugazes, ambiciosas e dissimuladas, para virar mulheres probas, que podem ser amadas e admiradas – como Fidelia e Carmo. O mais importante a observar é que, intencionada ou não, a infidelidade feminina é sempre contraposta e redimida pelo amor – o grande e central tema da ficção machadiana; todos os sentimentos impuros, proibidos e reprováveis são no final por ele regenerados.

» Editora PUC-Rio: Mesmo após 100 anos da sua morte, o escritor ainda suscita debates acerca de seus temas e estilo. Por que Machado de Assis continua tão atual?

Mauro Rosso: Machado era avançadíssimo para seu tempo, e, como todo autor genial, torna-se quase atemporal. A notável modernidade de sua obra está na antecipação de muitos temas e elementos da ficção contemporânea, que não eram típicos até aquela época na literatura nacional, como o aprofundamento psicológico, o questionamento da forma narrativa do romance, e o cultivo ao ceticismo típico do denominado pós-modernismo. No conto Teoria do medalhão, por exemplo, temos o culto à imagem pessoal e à exposição massiva como temas; em O Alienista, os conceitos e teses da psiquiatria moderna; a crítica ao racionalismo científico e à razão em A causa secreta e O lapso; a crítica sarcástica à ambição de poder em Na arca; a sátira às distorções eleitorais em “A sereníssima república”; a crítica à ciência alienada da humanidade em O conto alexandrino; a crítica às elites tecnocráticas e prevalência da tecnocracia, que é discussão atualíssima. Tudo com muito humor, ironia e sátira, utilizando inclusive as chamadas “arte de transições” e circularidade, elementos presentes e atuantes, por exemplo, em Sergio Porto, Otto Lara Resende, um tanto de Drummond, Luis Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor.

» Editora PUC-Rio: Dessa forma, é possível considerar que Machado foi ativo politicamente em seu tempo?

Mauro Rosso: Foi dada a ele a fama de ser alienado politicamente. Ledo engano! Chega a ser deplorável a pecha a ele imputada de alheamento às questões de seu tempo, seu “aburguesamento”, a ridícula “denegação das origens” conferida à sua obra, a ausência de um “herói negro” em sua ficção – como se isso fosse um certificado de consciência política. Machado tinha opiniões e posições políticas – pode ser considerado como um monarquista liberal, debruçando-se com seu olhar acurado e satírico sobre as mazelas provocadas e advindas dos tempos novos da República. Além do mais, como funcionário público, no Ministério da Agricultura, Machado esmerou-se em todas as atitudes em prol dos escravos, fazendo cumprir rigorosamente a legislação pertinente à Lei do Ventre Livre, de 1871.

» Editora PUC-Rio: Por que, dentro do universo machadiano, pesquisar os contos?

Mauro Rosso: Machado ficou mais lido e estudado como romancista. Mas foi um excepcional contista, comparável aos grandes da narrativa curta de sua época, como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, Anton Tchekhov, e mesmo de depois de seu tempo. E, além disso, foi no conto, mais do que nos romances e nas crônicas, que Machado colocou aqueles elementos de subversão de padrões morais. Até porque, o conto – a requerer concisão, síntese, linguagem mais coloquial – permitiram uma forma de expressão bastante adequada à verve ficcional machadiana: compenetração na psicologia da sociedade brasileira do século XIX. O conto propiciava-lhe também um vasto campo para experimentações que moldam e instrumentalizam sua evolução literária. Machado fez no conto coisas “do arco da velha”, em termos de criação ficcional, e isso é preciso que todos saibam. Pode-se perfeitamente afirmar ser Machado o verdadeiro criador do conto brasileiro. Tenho por intuito contribuir para que leiam os contos machadianos sob outra ótica. Os contos de Machado carecem não apenas de edições adequadas, mas também, e principalmente, de estudos condizentes com sua relevância literária.

» Editora PUC-Rio: Como encontrou o conto inédito Um para o outro?

Mauro Rosso: Todo pesquisador tinha conhecimento da existência desse conto, devidamente registrado na bibliografia machadiana, mas talvez nem todos fossem tão “acossados” por esse desafio de descobri-lo, como eu. O conto fora originalmente publicado em 10 capítulos e apenas três haviam “sobrevivido”; os demais foram dados como perdidos. Exigiu um verdadeiro processo investigativo, no melhor “estilo Holmes”, na busca dessas partes faltantes. Durante seis anos percorri inúmeros acervos públicos e particulares, recolhendo informações, depoimentos e até mesmo especulações, até descobrir três dos sete capítulos faltantes com um neto de Estefania Martins Rodrigues, que fora melhor amiga de Carolina Xavier, mulher de Machado. Os outros quatro, no meio de documentos e papéis, no acervo pessoal de José Galante de Souza, há cerca de três anos em processo de organização da Fundação Casa de Rui Barbosa.

» Editora PUC-Rio: O que esse conto representa na obra de Machado?

Mauro Rosso: Abriga uma história com todos os ingredientes do gênero: amor, namoro, coqueteria, casamento, ciúme; no melhor estilo romântico, os sentimentos afetivos se alternam e oscilam de um personagem para outro e entre personagens que os idealizam em outros. Não é um conto menor, ainda que não se insira na galeria dos grandes contos machadianos; abriga peculiaridades muito significativas por sugerir as primeiras incursões mais intensas de Machado no terreno do subconsciente, que exploraria em sua ficção pós-1880 – pioneiramente na literatura brasileira e antecipador de Freud, o que faz dos textos machadianos antecessores da própria obra freudiana. Um para o outro tem, por outro viés, uma dupla importância histórica: pelo resgate à sua condição de desaparecido e pelo marcante fato de ser de 1879, ano que se coloca no ápice do período de inflexão dentro do processo de evolução literária de Machado.

» Editora PUC-Rio: Além de Um para o outro e mais três contos, o livro é composto por um outro bloco: os raisonnés. Qual a sua importância?

Mauro Rosso: O termo raisonné é tomado emprestado do universo das artes plásticas, a caracterizar os catálogos dos artistas. São constituídos em matrizes, que indicam as diversas edições de contos machadianos desde as respectivas publicações originais e as coletâneas seqüentes em que se inseriram, inclusive com a menção de incompletudes e equívocos que infelizmente caracterizam boa parte das edições de contos machadianos até aqui realizadas. Mas o livro contém outros dois blocos, que reputo da maior importância: o biográfico-bibliográfico de Machado, uma breve cronologia de vida e obra que se constitui na mais completa até já publicada. E o estudo crítico, que oferece muitos elementos e pontos indutores de reflexão referentes ao conto machadiano, buscando sobretudo a indicação de novas lentes pelas quais devem ser lidos.

» Quais são seus próximos projetos?

Mauro Rosso: No universo machadiano, tenho já pronta uma edição crítica de Queda que as mulheres têm para os tolos, que foi o primeiro livro publicado de Machado, em 1861 e preparo a coletânea dos “versiprosa” machadianos na Gazeta de Holanda, uma série de 48 crônicas em forma de versos publicadas originalmente na Gazeta de Notícias entre 1886 e 1888, e nunca republicadas em volume isolado. Intento ainda publicar o que seria um segundo volume das crônicas machadianas tratando de economia e finanças; somente uma parte delas foi incorporada a uma coletânea em que colaborei com o economista Gustavo Franco, publicada em 2007. E concluo também uma edição comentada de Contos efêmeros, de Arthur Azevedo. Trabalho também em uma coletânea sobre Lima Barreto – que além dos contos, apresentará duas peças teatrais que poucos sabem que Lima Barreto escreveu – e em um livro abrigando os escritos políticos de Euclides da Cunha.

 


Publicado em: 01/09/2015





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