consulta avançada
Brasão da PUC-Rio

Entrevista com autor

Adair Rocha



O Santa Marta foi a primeira comunidade da cidade do Rio de Janeiro a ter uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) instalada. Mas antes desses holofotes da mídia em direção ao morro, o professor do Departamento de Comunicação Social Adair Rocha já estudava a questão de construção da cidadania em comunidades, e mais especificamente no Santa Marta.

O estudo de Rocha no Santa Marta, que deu origem ao livro Cidade Cerzida – A costura da cidadania no morro Santa Marta, é relançado pela Editora PUC-Rio, em parceria com a Pallas, com a inclusão de um novo capítulo dedicado à implantação da UPP no morro. O conteúdo dele é fruto da recente pesquisa de pós-doutoramento do autor.

Desde os anos 1970 Rocha realiza trabalhos em comunidades. Para ele, a ausência de uma política pública eficiente é a real causa da partição da cidade. Ele não considera o tráfico de drogas organizado um poder paralelo. "Não é poder paralelo porque ele é uma expressão direta do poder econômico e está ali estabelecendo uma relação de compra e venda. E aí, é claro que vai usar moradores como o próprio poder público usa", explica.Conversamos com o autor sobre a relação favela-asfalto, os desafios na busca da cidadania nas comunidades e como acontece o embate entre moradores e poder público.

» Como surgiu a oportunidade de ter a comunidade do Santa Marta como objeto de pesquisa?

Estou ligado ao Santa Marta desde os anos 1970. Inicialmente, ainda sob a ditadura militar, me interessava a diversidade de organização do seu movimento social. Eu tinha uma relação direta com as comunidades eclesiais de base e com a teologia da libertação. E o Santa Marta era um dos lugares onde esse trabalho produzia sementes. Naquele momento havia ainda uma forma de organização interna, que era dos donos do morro. Não era o tráfico (que ainda não existia na época), mas policiais civis que mantinham uma espécie de propriedade para trabalhar com a coisa pública no local. Houve algumas maneiras de eu me aproximar da comunidade. Como eu era folião de reis em Minas Gerais, um dos modos foi a folia de reis. A outra forma de aproximação foi buscar essa tradição de organização, por um lado com a teologia da libertação, e por outro na organização político/partidária, no momento de surgimento do PT. Fomos então criando uma relação que se transformou numa relação de amizade. Naquela época, o grupo ECO começou a fazer um jornalzinho interno. Ali começou o questionamento das formas centralizadas e autoritárias, próprias da ditadura. Em 1985 sistematizei o trabalho de pesquisa sobre a folia de reis, da relação entre o saber e o poder. O título foi: "Na reza: se conta a história e se canta a luta – Um estudo sobre a folia de Reis no Morro de Santa Marta". Continuei essa interação com o grupo e iniciei outra pesquisa que culminou na tese de doutorado, origem deste livro.

» Como foi acompanhar a guerra do tráfico e as disputas políticas entre o poder público e o poder local?

Na verdade, essa era mais uma das questões que estavam ali presentes, e vinculava-se à ausência de políticas públicas. Quanto mais ausentes eram as políticas, tanto mais o poder econômico estava ali estabelecido através do tráfico. É interessante observar isso. E a minha visão difere da de muitas pessoas, e até de teóricos. Eu não trato o tráfico como poder paralelo em momento algum. Não é poder paralelo porque ele é uma expressão direta do poder econômico e está ali estabelecendo uma relação de compra e venda. E aí, é claro que vai usar moradores como o próprio poder público usa. Há inclusive alguns mitos que sou obrigado a desfazer durante o meu trabalho. Os traficantes são moradores da comunidade e, como tenho uma relação cotidiana nesses locais, acabo conhecido. Portanto, nunca tive problema com os meus trabalhos na favela. Ao contrário, sempre me respeitaram e me tiveram como uma figura que está ali contribuindo para o desenvolvimento do lugar.

» Como está a questão da cidadania na comunidade?

Das comunidades a que tenho acesso, o Santa Marta é a que mais faz reflexão crítica em relação às instituições. Veja só: os intelectuais que fazem pesquisas na favela não entram lá, fazem o trabalho, saem e pronto, acabou. Existe um questionamento sobre a forma como esse estudo contribuirá diretamente para a formação coletiva. Os indivíduos pesquisados são sujeitos do processo, e não somente objetos de pesquisa. Eles criam o ambiente onde se inicia o debate sobre o espaço físico da comunidade e acabam levando propostas extremamente desenvolvidas para discutir com prefeitos, secretários e os mais diferentes grupos do poder público. Existe também uma colônia de férias dos moradores, já com anos de experiência. Nela há a preocupação de se ter o máximo de visão do conjunto da cidade, para que desde criança já se crie essa noção. Por isso, o Santa Marta é um lugar onde o processo de formação da cidadania é especialmente evidente. Os moradores organizados, seja no grupo ECO, na folia de reis ou na própria associação de moradores, têm uma forte formação de consciência do que significa a cidade e o lugar deles nela.

» Como está hoje a relação favela-asfalto? Existe ainda o medo no asfalto de uma "invasão" por parte do morro?

Sou mais duro. Coloco exatamente o inverso: o grande problema do asfalto será o dia que a favela resolver não descer. O medo que se tem, na verdade, vem de uma visão tradicional de guerra, como se eles fossem descer armados. Entretanto, a cidade é absolutamente cerzida. Ela é feita do conjunto dos seus moradores. E no caso dos moradores das favelas e periferias, são eles que assumem os papéis estruturantes da relação laboral nos mais diferentes espaços. Ou seja, qualquer terrorismo que coloque a favela como fonte de uma guerra está errado. No fundo, é um tremendo preconceito que não quer ser explicitado como tal. É como se os moradores do asfalto fossem civilizados, e os da favela não. O poder público, os meios de comunicação e o mercado tratam as favelas como algo a ser civilizado. A civilização da favela é que permitiria o acesso dos moradores às coisas básicas, já que ninguém vai negar que todos têm os mesmos direitos. Mas na hora de oferecer acesso de fato a esses direitos, serviços etc., há uma relativização do discurso. Se não há acesso, os direitos "dançam". É brincadeira falar de direitos sem acesso de fato.

» No texto de apresentação do livro, você põe uma questão ao leitor: "Qual o desafio para a retomada do território urbano localizado na favela?". A criação das UPP's seria um primeiro passo na direção de responder a essa pergunta?

Assim como a relação favela-asfalto, a relação das comunidades com o Estado também é mal trabalhada. A má condução das políticas públicas para o conjunto da cidade faz surgir vários conflitos, que passam a ser tratados pelas autoridades como se fossem problemas localizados. O poder público tem buscado reverter essa situação. Uma das formas é através da UPP. Um dos pontos mais importantes dessa nova polícia é o fato de a UPP surgir como política de segurança. Ela faz com que a discussão da segurança não seja uma discussão da favela, e sim uma discussão da cidade. A partir daí, o debate é o seguinte: que polícia é essa, qual o papel dela e o seu lugar na segurança, já que não haveria mais saída se reduzíssemos o conceito de segurança à presença de polícia. Segurança é uma questão de cidadania: como o cidadão se sente seguro no lugar em que ele está e que tipo de acesso aos direitos e às necessidades básicas ele têm e, dentro disso, qual o papel da polícia para que o cidadão também se sinta seguro. Entretanto, o conjunto de moradores não deve somente opinar sobre o tipo de política a ser implementado, como também definir o caminho a ser trilhado. Só é política pública quando você tem a intervenção e a participação do conjunto da sociedade. Se vier apenas do Estado, será tão somente uma política governamental. Não pode ser algo de cima para baixo.

» O que a expressão "Cidade Cerzida" representa hoje para essas comunidades?

Esse nome Cidade Cerzida é fruto da única forma que é possível de se compreender a cidade, que é pensá-la em seu conjunto. Ao mesmo tempo, busca uma reflexão em torno de outra publicação dos anos 1990: o livro Cidade partida, de Zuenir Ventura. Enquanto fotografia de uma chacina, a ideia de uma cidade partida certamente está bem colocada. Porém, grande parte dos meios de comunicação começou a usar o livro como uma forma de conceituação antropológica, sociológica ou política. Algo que está completamente equivocado. Se for falar da partição da cidade, tem que falar do ponto de vista da estrutura econômica da sociedade que marginaliza os diferentes setores. Mas do ponto de vista da existência da cidade, não há partição de jeito nenhum, por maior que seja a quantidade de conflitos. Conflitos que inclusive são frutos dessa interação, já que quem consome droga não mora na favela, mora no asfalto.

» Quais são as suas expectativas de mudança na vida dessas comunidades e na visão lançada pela sociedade sobre esses locais?

A esperança está na busca por avançar a questão da cidadania no país. Quais fundamentos de políticas públicas você terá para que os moradores dos mais diferentes espaços discutam questões que cerzirão ainda mais essa sociedade? A discussão será o principal método para que no momento seguinte de percepção da cidadania seja acompanhado de uma concepção de cidade. Enfim, a relação entre cidade e cidadania é congênita. Se a favela ainda estiver com carências, significa que a cidade é que está com carências, e não apenas a favela.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

*Foto: Monalisa Marques Disponível em: http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/Texto/Cultura/A-favela-por-si-em-filmes-produzidos-na-PUC-Rio-11896.html#.Vd3CHZef8ugAcesso em Agosto de 2015


Publicado em: 26/08/2015





Editora PUC-Rio
Endereço: Rua Marquês de S. Vicente, n° 225 - Praça Alceu Amoroso Lima, casa V (Casa Agência/Editora)
Gávea - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 22.453-900
Telefones:
55 (21) 3527-1838/1760

Endereço eletrônico:
edpucrio@puc-rio.br
Site desenvolvido pelo RDC