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Entrevista com autor

Arthur Ituassu



A Editora PUC-Rio, em parceria com a Editora Apicuri, lança o livro do professor Arthur Ituassu (Comunicação Social, PUC-Rio), O Brasil depois da Guerra Fria – como a democracia mudou o país na virada do século. Trata-se de uma análise do cenário político nacional e internacional no pós-1989 e seus efeitos no Brasil.

Em entrevista ao site da Editora PUC-Rio, Ituassu nos mostra que tópicos que surgiram nessa época, durante a redemocratização, permanecem até hoje como pauta política em nosso país. O autor ainda revela o quão influente a comunicação pode ser ao exercer o principal papel de mediador entre a sociedade e a política.

» Qual a importância dessa discussão, sobre o Brasil no pós-Guerra Fria, para o momento em que o país vive?

Arthur Ituassu: A meu ver tem uma importância fundamental. Uma das teses do livro é que o que nós somos hoje, como país, os temas que discutimos, as prioridades que estabelecemos, têm origem na segunda metade da década de 1980, quando há o processo de redemocratização e o desmembramento dessa estrutura internacional que é a Guerra Fria, com a derrocada dos regimes comunistas, o boom tecnológico industrial e os novos sistemas produtivos. Somam-se todas essas mudanças a um momento de crise sem precedentes na história do Brasil, cujo principal marco é a hiperinflação. O grande paradigma ligado ao desenvolvimentismo dos anos 1950 está esfacelado, numa crise gigantesca. O que é e o que deve ser o Estado brasileiro, como deve ser sua relação com a economia e a política internacionais - tudo isso é rediscutido nesse momento. Para mim, isso configura um tipo de tradição do que a gente é hoje. Se pegarmos a pauta política atual, discutimos basicamente os mesmos temas. Há uma continuidade histórica. No livro, digo que, ao olhar para essa época, o único risco é o de encontrar a nós mesmos.

» O colunista da Folha de S. Paulo, Moisés Naim, diz que há pouca produção literária que explora o tema do seu livro. Por que existe esse déficit se é um período tão decisivo na nossa história recente?

Arthur Ituassu: Bom, existe aí uma especificidade das Relações Internacionais. Normalmente, quando pensamos no fim da Guerra Fria, estudamos o que aconteceu no Leste Europeu, o que aconteceu na União Soviética. Mas há certa dificuldade de perceber que esse é um ambiente estrutural que gera impactos para todo mundo, ou seja, a mudança estrutural gera impactos para todo mundo. Foi um pouco essa a ideia inicial da pesquisa, perceber de que forma o Brasil dialogava com esse processo do fim da Guerra Fria. E aí, percebe-se que o diálogo é constante. Há propostas de reformas que estão intimamente ligadas às transformações que estão ocorrendo naquele momento no ambiente internacional. Está tudo interligado. Quando se pensa o futuro do país dentro de um contexto internacional especifico, não dá para sair dele. E a estrutura da Guerra Fria era muito rígida, o que possibilitava uma série de coisas. Por exemplo, ela possibilitou ao Brasil desrespeitar os acordos de comércio internacional durante 50 anos, praticamente. Por quê? Porque não tinha sanções. Você não vai colocar sanções em cima do Brasil porque você arrisca perder um aliado na Guerra Fria. Isso tudo está dentro de um contexto. À medida que essa estrutura rígida se dissolve, você começa a ter outras pressões políticas em cima do país. Não à toa, aparecem temas que simplesmente não eram abordados. Exemplo: a questão da propriedade intelectual, que vai durar até hoje, a questão do meio ambiente, a questão da proliferação nuclear. Várias questões do ambiente político ganham impulso com a despolarização internacional.

» A História, a política e a comunicação são temas do seu livro. Qual deles prevalece na obra?

Arthur Ituassu: Comunicação e política. O que, num certo sentido, reflete a minha carreira, a minha tradição de trabalhar com esses dois lados, tanto como jornalista quanto como pesquisador. Essa tentativa de encontrar uma área comum entre essas duas esferas do pensamento acadêmico. O mais interessante é que é uma área que se consolidou no Brasil a partir daquele momento também, com o presidente Collor e a participação da Rede Globo, tanto em sua eleição quanto em seu impeachment. Chegou-se a dizer, num certo momento, que a mídia fazia e desfazia os presidentes no Brasil. Já se sabe que é muito mais complexo do que isso, mas essa relação entre comunicação e política é uma relação muito cara, muito especial para mim. A política é o que chamamos de realidade mediada. Como a política nacional chega até você, cidadão? Chega através dos meios de comunicação. É pela comunicação que entendemos a política. É por ela que percebemos os debates políticos, a pauta política. Quais são os temas que estão, e não estão, presentes na mediação? Como os temas estão sendo interpretados no ambiente midiático? Essa interpretação influencia não só o que a gente pensa, mas como a gente pensa. Como nós vemos a política.

» O tema do seu doutorado em Relações Internacionais foi justamente o ano 1989, o Brasil e a comunicação. Este livro é uma continuação dessa pesquisa? Um aprimoramento?

Arthur Ituassu: Poderíamos dizer que é uma continuidade e um aprimoramento. O livro tem origem nessa pesquisa. Mas nós podemos dizer, e essa é uma sugestão interessante, que é um aprimoramento. O doutorado foi defendido em 2008, o livro está sendo publicado em 2013. Tem um espaço de amadurecimento da relação comunicação-política, e isso só vai realmente aparecer como tema de pesquisa depois da tese. Mas num certo sentido foi quase um caminho natural, esse da junção entre a comunicação e a política, tanto em função da minha atuação jornalística, quanto decorrente da minha formação, em comunicação e em relações internacionais.

» Você se graduou em Comunicação Social. Quando e de onde veio a vontade de se enveredar pelas Relações Internacionais?

Arthur Ituassu: Eu tinha um interesse pessoal nas questões políticas internacionais e uma vontade de trabalhar na área de jornalismo internacional. Havia também o pensamento de que eu queria me especializar academicamente. Então busquei o mestrado do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, em 1998. Logo depois do mestrado, eu já comecei a trabalhar na editoria internacional do Jornal do Brasil, onde eu fui redator, editor assistente e editor. E aí ficou muito claro que havia realmente um ganho nessa especialização que eu poderia levar para a minha profissão como jornalista. Foi essa a intenção.

» Quais são seus projetos acadêmicos atuais?

Arthur Ituassu: Hoje, estou mergulhado nas possiblidades que a internet oferece de abrigar instituições virtuais que possam lidar com os déficits dos regimes democráticos contemporâneos. Dentre eles, está questão da representatividade política. A desvinculação entre o cidadão e o representante, que basicamente se encontram à época de eleição; a apatia da cidadania; o desinteresse; e uma imagem muito ruim da política. Esses desafios da democracia representativa deram origem a uma gama de pesquisadores, no qual me incluo, que tem tentado argumentar que a comunicação pode ser uma boa saída para essa crise. Propõe-se que a internet permite aproximação do representante com o representado, cobrança maior, melhor informação política e menor dependência da lógica comercial dos meios de massa tradicionais. Há toda uma literatura apontando para a importância das ferramentas virtuais para o enriquecimento do regime democrático. Acabamos de fundar em Salvador o Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital, do qual faço parte, que vai discutir como essa nova área pode trazer contribuições para a democracia brasileira.

 


Publicado em: 26/08/2015





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