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Entrevista com autor

Cristine Nogueira



Quem iria imaginar que um objeto aparentemente inofensivo como a mamadeira seria um dos principais vilões para a saúde dos recém-nascidos? No livro Amamentação e o desdesign da mamadeira: por uma avaliação da produção industrial, a professora de design da PUC-Rio Cristine Nogueira Nunes expõe o resultado de uma pesquisa sobre a inadequação desse objeto para a alimentação dos bebês. A alternativa, fora a amamentação, seria o uso de um pequeno copo. A autora questiona a relação entre o design, a produção industrial e o consumo e abre um debate sobre o projeto de produtos.

No lançamento do livro, Cristine fez uma palestra sobre os perigos da mamadeira e respondeu a perguntas da plateia sobre a polêmica que levanta.

» Como uma profissional que tem o design como campo de atuação, especialmente voltado à questão estética, envereda para a questão do produto em perspectiva industrial?

O que você pergunta é como eu saí de uma atividade voltada preponderantemente para preocupações estéticas para um livro dessa natureza. Eu esclareço: o design não é isso que todo mundo pensa. Inclusive, no livro, procuro fazer um esclarecimento sobre o que é o design. As pessoas recebem a informação de que o design é só o embelezamento de produtos para aumentar as vendas, mas a nossa tarefa não é essa. O que se ensina nos cursos de design não é isso. A nossa preocupação, a nossa ocupação é trazer qualidade de vida para as pessoas, nos aproveitando da estrutura industrial, da estrutura tecnológica, mas jamais nos preocupando essencialmente com estética. Estética é uma consequência – às vezes ela nem é fundamental.

Então, para mim, essa aproximação é absolutamente natural. Desde que eu conheci o design o que eu queria fazer eram produtos para facilitar a vida das pessoas, para ajudar a vida a ser mais fácil e prática. Essa carga que você apontou – de que o design é aparência, estética, para vendas – sempre me incomodou muito – e foi justo isso que me aproximou da pesquisa do doutorado.

» Nesse caminho para o social que você toma no trabalho, a mamadeira é vista como um conjunto impregnado, e até naturalizado, ao longo do tempo. A desconstrução desse processo passa pelo controle industrial, a medicina higienista e o declínio da amamentação. Qual debate você pretende levantar ao trazer essas questões?

Bom, eu não podia pegar um produto que é absolutamente consagrado e simplesmente dizer que ele era ruim; eu tinha que apresentar fortíssimos argumentos. Então, fiz praticamente um relatório. Cobri todas as áreas que eram possíveis – não só o design. Cursei matéria de Relações Internacionais e estudei no Instituto Fernandes Figueira. Entendi a questão para poder construir um discurso.

As informações sobre os problemas da mamadeira estavam todas espalhadas e o que eu fiz foi juntá-las num discurso encadeado com início, meio e fim. O meu trabalho, inclusive, foi investigativo, como o dos repórteres. Era indispensável que as pessoas percebessem que existe uma segurança total para afirmar que a mamadeira não é um produto seguro e que essa cultura deve ser quebrada.

» Um aspecto do seu trabalho foi ver a amamentação como um ato humano, básico e geracional e, para discutir o outro lado da História, a força de intervenção do capital na vida de uma sociedade. Que expectativa de desdobramentos você prevê agora?

Primeiro quero esclarecer que essa é apenas uma contribuição do design, porque a luta existe há muitos anos, mas estava muito restrita à área da saúde, dentro dos hospitais. Eu percebi que tinha um diferencial, sou ligada à indústria, ao design, então poderia contribuir ao trazer uma linguagem um pouco mais aberta para as pessoas. O que eu espero desse livro é que ele, pelo título inusitado, atraia a atenção das pessoas. A intenção dele é informar, não policiar; é dizer: a indústria não é o que ela diz ser. As mamadeiras não são o que elas dizem que são. E isso precisa ser dito.

Outro dia em sala de aula falei que tinha um blog chamado “Mamadeira nunca mais’”. Uma aluna contou que teve um filho e, quando precisou voltar a trabalhar, estava incomodada em dar mamadeira ao bebê. Então ficou sabendo sobre o blog e foi lá. O filho dela tomou leite ordenhado manualmente, no copinho, e tudo correu muito bem. É isso que interessa: tem muita gente que está bem informada hoje em dia, e nosso trabalho é em prol disso. Esse livro entra no cenário de uma batalha fortíssima, que vem de muitos lados, de muita gente que está batalhando por isso há muito tempo. Espero que ele consiga fazer uma contribuição significativa.

» Como foi o processo de procurar uma editora para publicar o livro?

Eu pensava: “Se a Editora PUC-Rio não publicar, ninguém vai publicar.” Eu sabia disso, por causa do assunto. Agradeço muito ao apoio da Editora PUC-Rio e da Editora Reflexão que, ao publicarem esse livro, me tiraram da escuridão, porque esse livro não poderia ficar escondido. E só eles podiam fazer isso por mim.Do ponto de vista acadêmico, há um avanço grande e significativo aqui. Sobretudo, porque do ponto de vista do trabalho doutoral, você traz uma novidade. Rediscutir, sob esse ângulo, o contexto do design, é um elemento importante.

Do ponto de vista acadêmico, o livro traz várias recomendações, mas duas voltadas para o curso de design: a primeira é que nós, designers, temos que, com urgência, rever nossos métodos de projeto e de ensino, porque eu dei mamadeira para a minha filha, mesmo sendo designer. Eu não poderia, como uma pessoa dessa área, ignorar os defeitos da mamadeira. É a mesma coisa que um médico receitar uma coisa qualquer para curar uma doença. A gente precisa mudar a nossa metodologia. O segundo ponto é a recomendação final do livro: o trabalho espera conseguir a introdução de uma matéria nos cursos de design de “avaliação da produção industrial”. Assim, nós, designers, teremos a tarefa de analisar os males de um produto. Isso é competência nossa.

» Atualmente há o pensamento de que nem tudo que a indústria faz é perfeito. A replicação de objetos começou em meados do século passado, e ninguém questionava esta forma de produção, pois seria uma forma de democratizar os objetos. Aparentemente foi um engano que todos cometeram. Hoje, não se fala mais em design industrial; fala-se em design de produto. Percebeu-se que não dava certo?

Quanto ao fato de ninguém questionar um produto, temos a fantasia de que ele é um objeto puro. O produto industrial é todo perfeito, ele não tem arestas, é todo lisinho. E, se vem com um defeito, nós trocamos. Temos a impressão de que o objeto não tem história e que só vai começar a ter a partir do momento em que for nosso, quando vamos ressignificá-lo. Mas a imensa quantidade de recalls, que vêm acontecendo cada vez mais, em todos os tipos de produto, desde brinquedos a leites artificiais e automóveis, comprova que o projeto não é perfeito. Só que estamos dependentes desses produtos de tal maneira, que não conseguimos imaginar a vida sem eles. Eu não estou criticando ninguém, porque eu não estou me eximindo disso. É uma situação muito grave. A visão que temos da indústria é uma ilusão.

» Qual foi a situação que fez com que alguém inventasse a mamadeira? Os objetos são inventados por alguma necessidade, e na sua pesquisa talvez você tenha encontrado.

As mulheres sempre tiveram necessidade, e sempre terão, de ter meios alternativos de alimentar seus filhos em algum momento. Então, existem registros desde a era pré-cristã de diversos modelos. Há diversas imagens num site britânico chamado “Baby bottle museum”. Na Inglaterra vitoriana (da Revolução Industrial) se fez a primeira mamadeira industrial, cujo nome era “Mom’s Darling” – a querida da mamãe. Ela era um recipiente de vidro tapado com uma rolha, pela qual atravessava um canudo muito fino de metal, e o bebê mamava ali. Nessa fase, de cada dez crianças, só duas sobreviviam a partir dos dois anos de idade. As outras morriam porque esse cano era impossível de lavar.

Hoje, existem dois modelos que localizei na minha seleção das mamadeiras que usam o canudo muito fino como tecnologia para evitar o acúmulo de bolhas. Uma é a Doctor Brown’s, muito recomendada, e a outra é a Tommee Tippee, dinamarquesa. As pessoas usam escovinhas finíssimas para limpar, mas se você for ler nas recomendações, parece polícia: “Cuidado! Você tem que lavar perfeitamente!” – só que ninguém lê essas instruções, e está todo mundo usando.As mulheres precisam ter uma alternativa para isso. Agora, pegar um produto que faz mal, como a mamadeira, e dizer que é melhor que o peito – como muitas dizem – é maldade. Isso é crime. Se você ler as pesquisas, vai descobrir que o copo é a maneira certa. Lá na África, quando a Nestlé entrou, anos atrás, e começou a desmamar todos aqueles bebês, o pessoal dava na xícara e na colher. Eles é que tinham a tecnologia de ponta.

» Você acha que, quando a mãe dá a mamadeira, ela tem a ilusão de que substitui o peito porque é semelhante de uma maneira que o copo não é? E, por isso, ela fica mais tranquila?

Se ela for informada – e essa informação é fácil de transmitir –, irá preferir o copo. Agora, quando falamos sobre o copo, muitas pessoas perguntam se não pode ter uma tampinha, porque vaza e suja a roupa da criança. Esse é o desafio para o designer e para a indústria. Vamos projetar copinhos que sejam confiáveis, que sejam ergonômicos, que evitem ao máximo isso. Não vai ser como a mamadeira, que impede que vaze. Mas mamadeira também causa diarreia, e o copinho não vai causar. A mamadeira precisa ser esterilizada, e lavada com escovinhas, enquanto o copinho é uma superfície limpa, mais simples. Realmente, é um problema de mudança de cultura.

» O que vemos no livro é a concretização de um processo. Ao longo desse processo, você levantou uma série de reflexões, investigou e tomou uma série de atitudes como designer (e como pesquisadora) que devem, de alguma forma, ter refletido na sua forma de ensinar também. Na sua experiência de ensino, desde que começou esse trabalho, você consegue sentir um reflexo nos alunos?

Desde que comecei a fazer a pesquisa, tenho tido a sorte de ensinar uma disciplina chamada “Teoria do Design”. Nessa disciplina, falo sobre tudo isso que aprendi fazendo a tese, alertando os alunos. Falo de economia, de política, do perigo da indústria. Tenho o privilégio de dar essa aula e sinto que é um conteúdo realmente difícil, mas transformador; é um alerta. Felizmente, na PUC, têm surgido trabalhos ligados ao tema, como o aplicativo “aleitamento”, feito na disciplina Projeto III, e os sutiãs voltados para as mulheres que estão amamentando, feito por alunos de Projeto VI. Existem projetos e eu tenho a alegria de vê-los, e de poder acompanhar um pouquinho do que está acontecendo. Eu gostaria de poder, futuramente, vir a discutir essa história, vir a implantar uma disciplina sobre isso. Acho que seria importantíssimo, é uma lacuna que temos que reparar.

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*A entrevista acima fez parte de uma mesa-redonda realizada no lançamento de Amamentação e o desdesign da mamadeira. A gravação deste debate foi gentilmente cedida à Editora PUC-Rio pela Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio.

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Publicado em: 26/08/2015





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