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Entrevista com autor

Pedro Duarte



A palavra modernista – vanguarda e manifesto analisa a história cultural da época sob um olhar filosófico, tratando do Modernismo a partir de uma perspectiva que não é meramente estética. Pedro Duarte, professor de filosofia da PUC-Rio, discutiu, nesta obra, a busca pela identidade nacional na década de 1920. Explorou ideias e frustrações dos modernistas brasileiros, assim como o desejo da ruptura da tradição, e mostrou que há muito por detrás da arte daquele momento.

A palavra modernista faz parte da coleção Modernismo +90, que reúne livros sobre o Modernismo brasileiro com enfoques em suas diferentes dimensões: histórica, literária, musical, entre outras. A coleção foi criada no aniversário de 90 anos do Modernismo, conta com a colaboração de autores de diversas áreas e gerações e tem como objetivo expor a abrangência e o significado desta etapa decisiva da história cultural do país.

»Como surgiu a ideia de publicar um livro sobre o Modernismo?

Tenho interesse pela cultura brasileira e a pesquiso há muito tempo, o que é um pouco incomum na filosofia. Aliás, quando eu tinha 18 anos, antes de fazer filosofia, eu participava de um grupo de estudo para ler os clássicos de formação do Brasil, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Desde então, eu estudo os aspectos relativos à formação – ou, como dizem alguns, àdeformação histórica do Brasil.

Esse livro surgiu especificamente em uma aula do professor Eduardo Jardim (criador da coleção Modernismo +90) na PUC-Rio. Era uma disciplina sobre aspectos conceituais do Modernismo, aberta para alunos de Letras e de Filosofia. No último dia de aula, o Eduardo colocou no quadro o que ele chamou de 10 pontos incontornáveis para se estudar o Modernismo brasileiro. Uma das pessoas que fez a disciplina comigo foi a Ana Cecília, que era editora da Casa da Palavra. Ao final da aula, ela deu a ideia de escrevermos sobre cada um daqueles 10 pontos. Então a coleção Modernismo +90 foi criada.

»Como foi o processo de abordar esse tema misturando análise histórica com a filosofia?

A filosofia não se define pelo seu objeto de estudo, mas pela forma de olhar para ele, então não existe um objeto filosófico ou um não filosófico. Entretanto, o estudo da filosofia tem sido identificado mais como um estudo da história da filosofia do que como uma forma de olhar e abordar um objeto. Estudar a história da filosofia é importantíssimo, mas não é a única coisa que a filosofia pode fazer. Então, às vezes, ficamos muito tímidos para analisar outros temas que não sejam Hegel, Aristóteles, Kant ou outros grandes autores dessa tradição.

O desafio que se coloca aqui, e que eu espero ter conseguido superar no livro, é não deixar o objeto pelo qual você vai olhar filosoficamente – e que não é tradicionalmente filosófico – se transformar em uma mera ilustração de conceitos filosóficos previamente dados. Isso é algo que pode acontecer com muita facilidade, transformar o assunto do Modernismo brasileiro em um exemplo de um conceito de Nietzsche ou Hegel. Tentei, em um contato íntimo e em um mergulho muito intenso nesse material, ver o que se destacava filosoficamente. Há a ideia em relação ao Modernismo brasileiro de que a produção dos modernistas ficou aquém do que eles haviam prometido, e tive uma grata surpresa ao perceber que talvez essa crítica não leve em conta suficientemente o que se tornou a tese fundamental do meu livro: de que o Modernismo não é apenas um movimento estético, mas um movimento de pensamento.

» Em uma passagem do livro, é feita uma comparação entre o pensamento de Nietzsche e próprio movimento modernista. Como eles se relacionam?

Existe um aspecto de semelhança entre o momento cultural que a Alemanha passa na virada do século XVIII para o XIX e o momento que o Brasil vive na virada do século XIX para o século XX. É um movimento, em ambos casos, de periferia em relação à cultura ocidental. Acho que isso tornou possível, tanto para os pensadores alemães naquele momento, quanto para os pensadores brasileiros em outro momento, um outro tipo de olhar para a constituição da modernidade ocidental. Acho que Nietzsche representa um momento de aguçamento de uma perspectiva crítica em relação à formação da cultura moderna que começara antes dele com o Romantismo.

Aproximo Nietzsche dos modernistas em dois momentos do livro. Num primeiro momento, aproximo Nietzsche de Mário de Andrade e Oswald de Andrade, por serem pensadores modernos, porém críticos da própria Modernidade. Ou seja, estão incluídos em um projeto de modernização da cultura ocidental, mas em desacordo com o que o progresso de desenvolvimento da época moderna estaria propondo hegemonicamente. Nietzsche, sobretudo na Segunda Consideração Intempestiva, que foi um dos seus primeiros textos, condena a ideia de que a cultura moderna se tornou basicamente um acúmulo de conhecimentos e uma reprodução deles, não tendo mais a capacidade de simplesmente criar um estilo, mas simplesmente de criar algo novo e singular culturalmente. Isso tem uma enorme afinidade com os modernistas brasileiros. Ou seja, a ideia de perpetuação repetitiva de certos códigos na formação cultural moderna sendo criticada em nome da criação de algo diferente.

A segunda aproximação que faço tem a ver com a forma de expressão dos manifestos, o estilo que envolvia uma forma provocativa e muitas vezes sucinta, e que lida ao mesmo tempo com uma prosa poética e com uma prosa reflexiva. É um tipo de texto muito específico e que deve muito ao estilo de escrita de Nietzsche; uma ideia de não distanciamento, por exemplo, do lugar de enunciação da fala em relação ao texto. Tanto o texto do manifesto quanto a escrita de Nietzsche têm a exposição de uma primeira pessoa – às vezes do plural – no próprio enunciado, o que é uma tentativa de forjar uma aproximação entre autor e leitor, diferentemente da escrita tradicional.

» O que os nomes do Modernismo, como Mário e Oswald de Andrade, defendiam e “atacavam”?

Eles tinham ataques específicos à poesia parnasiana, a uma pintura mais naturalista, figurativa e acadêmica, sobretudo. Mas esses ataques pontuais refletiam na verdade uma crítica muito mais substancial e genérica à tradição. Era uma crítica a qualquer norma ou molde que pudesse colocar obstáculos a uma criação individual, mais singular. Acho que isso é o fundamental. Porém, ao fazer esse ataque, é como se os modernistas tivessem imediatamente percebido que essa tradição não era sequer uma tradição nossa, mas importada. Tudo era extremamente “afrancesado” e “aportuguesado” naquele momento. Inicialmente, a crítica fundamental foi contra essa importação irrefletida de uma tradição a ser perpetuada no Brasil. Entretanto, é muito importante frisar que essa briga inicial foi, em grande parte, vencida pelos modernistas. Hoje isso é muito claro para nós; nossos heróis não são Olavo Bilac e Raimundo Correia, pelo contrário, eles costumam ser motivo de chacota. Mário de Andrade e Oswald de Andrade são heróis culturais do Brasil, e isso aconteceu relativamente rápido, pois na década de 1930, Mário de Andrade já era uma figura absolutamente central no país.

Em um segundo momento, entretanto, a crítica que era voltada à tradição estrangeira se transformou em uma crítica à si mesma. Os modernistas perceberam que haviam estabelecido uma ideia de rompimento com a tradição de fora, mas uma tradição própria do país não estava sendo criada a partir disso. E, por isso, creio que Mário de Andrade e Oswald de Andrade foram muito rápidos em perceber o destino do movimento modernista e dizerem que “O sinal de alarme já tocou, nós brigamos e rompemos. Continuar rompendo, rompendo e rompendo é inútil. Nós temos que construir agora”.

O movimento modernista tem esse apelo crítico imediato, mas ele rapidamente percebe um certo sucesso dessa crítica e, por isso, uma exigência de transformação interna. Então, aparece algo muito relevante nesses personagens centrais do Modernismo e que talvez seja a melhor herança da época moderna: o espírito autocrítico. Parece que Mario de Andrade e Oswald de Andrade não cessam de criticar aquilo mesmo que eles conquistaram, em um movimento constante de insatisfação às vezes muito dolorido, mas em um exercício de autocrítica saudável que impossibilita o apego monopolizador das suas conquistas.

» No livro, você explica que o manifesto modernista tinha como um de seus objetivos criar a identidade brasileira, respondendo à pergunta “Quem somos nós?”. O que mudou na brasilidade após esse movimento?

O movimento modernista no que ele tem de melhor foi fruto do fracasso da tentativa de achar uma identidade nacional. O que o Modernismo trouxe de muito singular para o pensamento da cultura brasileira foi a impossibilidade da definição da sua identidade fixa ou essencial. É quase uma ideia de desidentidade. Esse é um dos aspectos que achei que devia ser destacado no cunho filosófico do movimento modernista. Desde o romantismo, a questão da identidade nacional já era quase uma obsessão. Sempre se pensou “o que é a nação?”, como se nessa pergunta só estivesse em jogo a nação, nunca se pensava o que significava o “é” nessa pergunta, o ser. Ou seja, os modernistas pensaram não apenas no nacional, mas na identidade. E ao pensar o que significa identidade, eles abriram a possibilidade de pensar a nação de uma outra maneira. Ao pensar que identidade não é uma essência fixa, pura e imutável, tornou-se possível pensar a nação de um outro modo.

A nossa relação com o Modernismo da década de 1920 é inevitavelmente marcada por isso. Pode ser óbvio, mas às vezes as pessoas se esquecem; não tem como, em 2015, pensarmos na década de 1920 sem passarmos pela década de 1970, queiramos ou não. Inevitavelmente nosso olhar é influenciado pelo pensamento de Caetano Veloso, por exemplo, e a força e o significado do movimento modernista, sem dúvida nenhuma, estão intercalados com os desdobramentos deste período. Dito isso, o Modernismo como projeto de formação do Brasil é algo que acabou. Para os modernistas, aquilo era um projeto de futuro; para nós já é um passado. O Brasil se formou. Às vezes achamos que essa formação do Brasil só aconteceria quando tudo desse certo no país. Mas o Brasil se formou do jeito dele, desajeitado, com coisas incríveis e com coisas horrorosas.

» Segundo o livro, a Semana de Arte Moderna de 1922 foi a primeira expressão coletiva de vanguarda da cultura brasileira e gerou motivação para saber o que se passava na Europa. Ao mesmo tempo que o Modernismo buscava construir a identidade brasileira, usava influências estrangeiras. Na sua opinião, esse seria um dos motivos para o brasileiro dos tempos atuais valorizar tanto a cultura internacional?

De uma maneira bem esquemática, a questão da formação do Brasil até o Modernismo era dividida em dois polos. Um era de extrema valorização de tudo que vinha de fora, que resultava muitas vezes em uma realização mimética. Disso, surgiram coisas que achamos até belas, mas que têm algo de muito pobre nesse gesto: o Teatro Municipal, o projeto de grandes avenidas etc.

O outro polo, no entanto, era uma busca por uma essência própria, fixa, do que seria nosso – e de mais ninguém – e que, às vezes, caía na caricatura do índio. O que o modernismo cria de relevante é a ideia de que a constituição do Brasil é necessariamente atravessada por uma exterioridade, mas esse atravessamento não poderia ser uma cópia ingênua, e sim um processo crítico de reflexão. O que de alguma maneira está presente na ideia do que é a antropofagia. A metáfora da antropofagia tem que ser levada mais a sério: “devorar o outro” não é canibalismo, é algo mais específico. Na antropofagia, devorar o outro consiste em pegar as melhores qualidades das outras culturas e fazer um processo digestivo, no qual se joga fora o que não “serve”.

Embora a preocupação dos modernistas, principalmente de Oswald de Andrade e seu Manifesto Antropófago, seja evidentemente com a cultura brasileira, o que eles acabam descobrindo é mais do que isso. Na frustração da impossibilidade de determinar a identidade cultural do Brasil, Oswald de Andrade acabou encontrando uma pista para o fato de que o próprio país não tem uma identidade cultural fixa, e de que talvez nenhum tenha. O início do Manifesto Antropófago diz que a antropofagia é a única lei do homem, e ele começa dizendo que somente a antropofagia nos une. Mas ele não diz que o “nós” significa “brasileiros”. E como ele diz que é a única lei do mundo, nada me impede de dizer que ele está querendo dizer “nada impede de dizer que são os homens em geral aqui em jogo”. Talvez toda cultura possa ter seu significado de pureza de desmistificado.

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Foto:Marcela Henriques /Portal Digital -----------------------------------------------------------------------------------------


Publicado em: 13/07/2015





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