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Entrevista com autor

Entrevista com Leandro Garcia Rodrigues



Nesta entrevista, Leandro Garcia Rodrigues, organizador da obra Correspondência Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima fala sobre a importância da correspondência entre esses dois grandes nomes da literatura brasileira, os assuntos predominantes nas cartas e como foi o seu trabalho de pesquisa para a confecção dessa obra assim como os desafios encontrados ao lidar com um discurso epistolar.

» Mário de Andrade, durante a sua vida, trocou cartas com muitas pessoas. O que a troca com Alceu Amoroso Lima traz de especial? Por que fazer dessa troca o seu objeto de estudo?

Leandro: De fato, Mário é considerado um dos maiores epistológrafos do Brasil, fez da sua correspondência não apenas uma estratégia de comunicação e troca de notícias, mas “pensou” através/nas suas cartas, usou-as como verdadeiro laboratório de criação, de pensamento e de estilística. Mário usava a sua correspondência para investigar o seu destinatário, a literatura modernista então em construção e o próprio movimento modernista, largamente problematizado na sua correspondência.
Neste caso da sua correspondência com Alceu Amoroso Lima, esta pesquisa é fruto do meu primeiro Pós-Doutorado em Estudos Literários, concluído na PUC-Rio, em 2010. Particularmente, eu pesquiso a obra e o pensamento de Alceu desde o doutorado, também defendido na PUC-Rio, em 2009. Alceu, assim como Mário, também usou e abusou do gênero epistolar. Seu arquivo de correspondência passiva (as que ele recebeu ao longo da vida) é composto de aproximadamente 32.450 cartas! Destas, a parcela trocada com Mário é significativa, pois o autor de Macunaíma se abriu com Alceu sobre temas como religião, catolicismo, fé, Igreja Católica, crises existencial e religiosa, dentre outros assuntos mais ontológicos. Ou seja, foi com Alceu que Mário verdadeiramente debateu tais assuntos, pois com outros dos seus interlocutores, Mário apenas tocou de leve nestes assuntos; com Alceu, ao contrário, ele analisou a fundo e tentou (se) entender.

» Qual era o tom da correspondência entre Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima? Quais eram os embates e as afinidades entre os dois e como eles se mostravam a partir das cartas?

Leandro: No início desta correspondência, ainda nos anos 1920, o tom desta troca epistolar se pautava muito pelo respeito e admiração de Mário por Alceu. Afinal, desde 1919, Alceu exercia o papel de crítico literário em diversos periódicos do Rio de Janeiro, então capital federal. Mário tinha clareza que Alceu era o principal crítico literário do nosso Modernismo, pois acompanhava e analisava a produção literária do país, não apenas do Rio e de São Paulo, como era comum a outros críticos. Houve um sintomático período no qual não se corresponderam, na década de 1930, época marcada pela ditadura do Estado Novo, que afetou Mário diretamente. Ao contrário, Alceu foi afinado ideologicamente com o regime de Vargas, tendo exercido importantes cargos como reitor da antiga Universidade do Distrito Federal, no Rio. No início dos anos 1940, ambos voltaram a se corresponder, porém é um outro Mário de Andrade: depressivo, em profunda crise existencial, revoltado com algumas questões da vida. É neste período que se dá o maior embate ideológico entre ambos, pois Mário ataca Alceu fulminantemente, como uma forma de atacar a própria Igreja Católica e os católicos. Mário destila o seu fel e não pensa nas consequências, ataca Alceu diretamente. Todavia, este não reagiu na mesma intensidade para com o amigo paulista, ao contrário, respondeu Mário com docilidade e sempre com um grande respeito, afirmando sempre que o nosso maior dom era a liberdade, inclusive, liberdade para não se crer em Deus.

» Havia então assuntos predominantes nas conversas? Quais?

Leandro: Sim: literatura modernista, vida literária, lançamento de livros, a crítica/interpretação de Macunaíma, religião, catolicismo, fé, Igreja Católica, fanatismo religioso.

» Como conseguimos entender a personalidade deles a partir de suas correspondências? Tanto pela troca de ideias quanto pela forma de escrita? É sabido que Mário de Andrade costumava “abrasileirar” sua escrita, por exemplo.

Leandro: Este projeto de Mário – de abrasileiramento da linguagem – ele não o discutiu muito com Alceu, apenas tocou em alguns aspectos, mas muito superficialmente. Foi na correspondência de Mário com Manuel Bandeira que este assunto foi fartamente discutido. Entendemos as suas personalidades por uma forte razão: eles “pensavam” na correspondência, exploraram este gênero de escrita – a carta – como uma espécie de ensaio, ou seja, são cartas ensaísticas, “pensamentadas”, para usar uma expressão inventada pelo próprio Mário.

» Para quem estuda as obras de Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima, como essa correspondência se mostra importante?

Leandro: Acho de suma importância, pois é apenas nesta correspondência que Mário discute tão a fundo os seus dramas religiosos e de fé, é apenas com Alceu que ele aprofunda estes assuntos. Tenho certeza que esta correspondência ajudará na compreensão desta dimensão biográfica de Mário de Andrade. Quanto a Alceu, fica explícita a sua liderança intelectual nas décadas de 20 a 40, período temporal desta correspondência, sempre aberto àqueles que estavam contrários às suas ideias, num profundo respeito pelas diferenças. Na minha opinião, Alceu soube, como poucos, fazer a difícil harmonia entre os contrários.

» Como foi o processo de pesquisa para essa obra?

Leandro: Foi complexo e demorado – três anos! Como já disse, a motivação inicial foi o meu primeiro Pós-Doutorado, em Estudos Literários, concluído na PUC-Rio, em 2010. Todavia, só entreguei o livro às editoras em 2012, tamanha a complexidade desta pesquisa.

As cartas (originais) de Mário a Alceu estão todas no Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, em Petrópolis (RJ), instituição que salvaguarda o arquivo pessoal deste. Já as cartas de Alceu a Mário estão no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, em São Paulo, entidade que salvaguarda o arquivo do autor de Macunaíma. A maioria destes documentos está manuscrita, com poucas cartas datilografadas. Fiz a transcrição (interpretação) e posterior digitação de tudo, etapa mais complicada da pesquisa, pois compreender a caligrafia deles, especialmente de Alceu, é uma tarefa hercúlea. Depois, procedeu-se a pesquisa para as notas explicativas de rodapé, no sentido de explicar e contextualizar todo o conteúdo epistolar. Após esta etapa, que durou mais de um ano, foi o momento de escrever um longo ensaio introdutório explicando a correspondência como um todo, bem como contextualizando este conjunto epistolar na obra e no pensamento de cada um – Mário e Alceu – e demonstrando como podemos utilizá-las para melhor compreender a obra de cada um.

» Quais foram as especificidades encontradas por você ao lidar com um discurso epistolar?

Leandro: Há 15 anos pesquiso a Epistolografia, ciência literária que pesquisa e problematiza cartas/correspondências, especialmente na perspectiva de Alceu Amoroso Lima. Já organizei as correspondências deste com Carlos Drummond de Andrade, Frei Betto, Leonardo Boff, Paulo Francis e agora com Mário de Andrade. Neste momento, acabei de finalizar a correspondência de Alceu com Murilo Mendes, com publicação prevista para o final de 2019. Penso que cada correspondência que organizo é a possibilidade de se compreender, um pouco mais, o complexo processo da literatura brasileira, tendo sempre Alceu Amoroso Lima como figura central, pois este atravessou quase todo o século XX (morreu em 1983) produzindo uma vasta obra bibliográfica que consta de 136 livros publicados. Sua correspondência, que aos poucos eu estou publicando, comprova que a carta é parte definitiva da obra e do pensamento dos autores daquela geração modernista. Afirmo ser impossível compreender a obra destes grandes autores ignorando a sua correspondência.


Publicado em: 18/12/2018





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