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Entrevista com Leonardo Villa-Forte

Nesta entrevista, Leonardo Villa-Forte, autor de Escrever sem escrever: literatura por apropriação no século XXI (Editora PUC-Rio/Relicário Edições), fala sobre o “mashup literário”, uma nova forma de estruturar a escrita, através da montagem e da apropriação de textos de outros autores, retirados de seu contexto original. “Uma espécie de copiar e colar incessantemente”, segundo o escritor. Mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, Villa-Forte também relata um pouco das influências da remixagem em seu próprio processo criativo.

» O livro fala sobre uma nova forma de produção literária, baseada na montagem, que é a “literatura por apropriação”. Do que ela trata?

Leonardo: A literatura por apropriação se baseia em criar textos a partir de textos preexistentes. Por exemplo: anos atrás, eu abri um blog — o MixLit — em que eu me apossava de textos de outros livros para construir contos. Não adicionava nada, apenas selecionava trechos de livros e construía as narrativas assim. Eu me impunha essa restrição e recriava a partir dela.

É apropriação nesse sentido, de tomar, de se apossar daquilo que não é originalmente seu. E quando digo “apossar”, digo materialmente, não apenas uma questão de influência. Uma das teses centrais do livro é se distanciar daquilo que Barthes chamou de “tecido de citações”, que passa pela influência, pelo inconsciente. Todos nós somos um tecido de citações, por termos coisas das quais gostamos e que nos atravessam, portanto, escrevemos a partir delas. Esse tipo de processo acontece de maneira inconsciente. Você acaba se assemelhando ao estilo de algum autor que você gosta, por exemplo. 

As obras das quais eu falo — por isso, o subtítulo do livro é “Literatura e apropriação no século XXI” — são centradas em publicações dos últimos vinte anos e que não são feitas a partir de citações inconscientes. São bastante conscientes e se apropriam do texto como matéria, não como influência de algo do qual se gosta. Não foi Angélica Freitas quem criou os poemas com auxílio do Google, que ela chama de “Googlagens”. Não foi ela quem escreveu os versos, ela pegou esses versos na internet e os rearranjou. E não se trata de influência, mas de outra coisa.

» Como se dá o processo de criação dessa “montagem”? Os autores geralmente já sabem quais textos vão utilizar quando pensam em um tema, ou é algo mais intuitivo e aleatório?

Leonardo: Geralmente os autores já têm em mente a proposta, não exatamente o que eles vão usar. Existem graus diferentes. Nesse livro, eu comento várias obras, mas me atenho à seis, e cada uma tem um modus operandi.

Três são brasileiras, que são “Delírio de damasco”, da Verônica Stigger; os poemas com auxílio do Google da Angélica Freitas; o meu MixLit; e também comento um pouco o “Sessão”, do Roy David Frankel, que é um livro de poesias feito com os votos da sessão do impeachment da Dilma.
E três são de autorias norte-americanas, como o Kenneth Goldsmith, que tem a trilogia americana de transcrições de boletins de trânsito, metereológicos e de partidas de beisebol; a Jen Bervin, que trabalha a partir de releituras de poemas de Shakespeare; e o Jonathan Safran Foer, que trabalha com um recorte de um livro do Bruno Schulz.

O que está consciente, geralmente, é a proposta. Por exemplo, definir primeiramente que você só vai trabalhar com poemas e fragmentos de Shakespeare. Porém, a definição das as palavras que vão ficar na sua nova seleção é algo que acontece quando se entra em contato com o texto mesmo, enquanto essa leitura-ação está acontecendo. É uma zona em que leitor e autor se indistinguem, pois o autor acaba se fazendo por meio da própria leitura.

Cada obra dessas tem o seu grau de intervenção autoral. O Kenneth Goldsmith já define desde o início o que vai ser. Digamos que ele vá publicar um livro a partir da transcrição de boletins de meteorológicos um final de semana específico, retirado de alguma rádio de Nova York; depois de selecionado o material, o autor sabe que, do início ao final, o trabalho dele como escritor copista será transcrever aquilo.

É uma proposta mais fechada, menos aberta às intempéries do caminho, do que a da Angélica ou a minha, no caso. No meu MixLit, pode ser que um texto não se encaixe com o outro. Em casos como esse, eu preciso reformular a ordem dos textos. Já a do Goldsmith, o autor se identifica mais como processador, como uma máquina que tem o seu start e o seu off.
 


» Como o fato de um texto ser “reutilizado” é visto na comunidade literária? Os direitos de autoria são um problema quando você vai buscar esses textos?

Leonardo: Cada caso é um caso. De modo geral, a comunidade literária não é muito rígida em termos de direitos autorais ou de cobranças, já que não circula muito dinheiro por ela, diferente de como é o caso da comunidade musical. Se alguém pega um texto meu e o usa, no final das contas, essa pessoa está ajudando meu trabalho a circular mais. Eu não ganhei muito dinheiro com meus livros de ficção, por exemplo, então se alguém usá-los, eu não vou dizer “ah, você tá se aproveitando do meu talento”. Eu ficaria grato, na verdade. Mas bom, talvez no caso de um autor bestseller seja diferente. Cabe a ele ter o bom senso. Não é tão difícil perceber o que é uma proposta artística de reutlização interessante de uma gaiatice ou charlatonismo.

» Para você, o que há de mais fascinante nessa nova forma de arte?

Leonardo: O que eu acho mais fascinante, primeiro, é que essas apropriações dependem muito do seu olhar pro mundo. Do que você acha interessante e de como você olha para essas coisas, de como você chega nelas. Por exemplo, eu posso fazer um MixLit juntando Machado de Assis com Milan Kundera, dois autores de que gosto muito, e tentar ver qual é o tipo de conversa possível entre eles. Ver como a frase de um pode ser continuada pelo outro.

No final das contas, eu acho que é sobre o que te importa. Se você pensar na obra do Goldsmith, por que um cara pega um boletim de trânsito e o publica em um livro? Uma atitude completamente louca, despropositada... “Ninguém vai ler aquilo!”. No entanto, existe algo ali que está sendo dito. Algo sobre nosso contexto urbano, sobre o desejo de intervenção na comunidade — de participar do discurso da comunidade! Se a gente pensar melhor, o trânsito é a experiência comum dos centros urbanos, então trancresvê-lo torna-se uma espécie de apontamento: “Ó, olha pra isso aqui!”. Ao mesmo tempo em que o que te importa pode ser o banal. O que te importa pode ser aquilo que parece não importar. A caixa de comentários em um site. Os anúncios publicitários que invadem a transmissão de uma partida esportiva.

Quando você desloca um texto de uma fonte e de seu contexto original, você acaba tirando a função que ela tinha e trazendo-a para um novo olhar estético e analítico. Quando estamos no carro, ouvindo uma rádio de trânsito, a gente está se orientando pela função do momento, que é informar. Só que você não vai ler um livro para se informar. É como tirar as nuvens e os excessos e olhar a coisa com atenção. Nesse caso seria olhar mesmo, não necessariamente ler, pois o texto não é convidativo, apesar de ser organizado e divido em capítulos.

É um texto para refletir um contexto. E, no fundo, “contexto é conteúdo”, como mencionado no “Pierre Menard”, do Borges, quando ele se propõe a escrever outro Dom Quixote. A ideia de escrever um Dom Quixote do século XX é diferente de um Dom Quixtote do século XVI, com Cervantes. Depois de quatro séculos, um novo contexto de história foi gerado e há muito mais eventos que você pode associar ao texto do Menard do que no original.

O que me interessa é essa ideia de que o contexto é conteúdo e, principalmente, de que o consumo é também uma forma de produção. Dentro da cultura de consumo, selecionar é consumir. Você passa no mercado e, de dez marcas de sopa, você vai escolher apenas uma. No caso, até cria-se uma infelicidade por estar deixando nove marcas na prateleira, mas, a abundância faz com que o ato de seleção seja importante por si só. É pessoal: tudo o que eu escolho ressaltar — o que eu escolho consumir — já traz em si um gesto de alguém.

Essa ideia de que ouvir já é falar, e de que ler já é escrever, me interessa bastante.


Publicado em: 18/06/2019





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