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Entrevista com Waldecir Gonzaga

Nesta entrevista, Waldecir Gonzaga, autor do livro Compêndio do Cânon Bíblico, fala sobre a formação e a escolha dos livros que seriam adotados pela Igreja após a morte de Jesus Cristo. O autor também discute se passos já foram dados em prol de uma regra de fé comum às comunidades cristãs e se há possibilidade de a Escritura Sagrada sofrer alguma reviravolta no Cânon.

Waldecir Gonzaga é doutor e mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Possui um pós-doutorado na Faje/BH, com pesquisa sobre o Cânon Bíblico, e atualmente é diretor do Departamento de Teologia da PUC-Rio.

» Existem diversos “cânones” ou regras de fé na comunidade cristã. O senhor pode explicar um pouco sobre o conceito de um “cânon bíblico”?

Waldecir: A escolha do título do livro já revela tudo: não se trata de uma obra que contenha discussões acerca do Cânon em termos de atualidade. A ideia foi oferecer tudo o que foi produzido pela Igreja desde o final do século I e no início do II. Depois desse período, os Padres Ocidentais e Orientais determinaram quais escritos deveriam entrar na relação de Listas dos livros a serem lidos pela Igreja.

Por que isso? Bem, com a morte de Cristo, já existia o Antigo Testamento. Com o desenrolar da Igreja, surgem novos textos escritos pelos Apóstolos, como os evangelhos de Mateus, João, Lucas e Marcos, e também as cartas escritas por Tiago, Pedro, Judas e, mais uma vez, João. A questão toda é: com o desenrolar do Cristianismo e a morte dos Apóstolos, não há mais a quê ou a quem se referir em uma questão de fé.

A partir de então, surge um número muito grande de textos considerados, hoje, Apócrifos (em outras palavras, extrabíblicos). Muito maior, inclusive, do que a quantidade de livros Canônicos. 

Nesse sentido, o que os Padres Ocidentais e Orientais definiram como canônico e não canônico? O que eles definiram como duvidoso? E o que eles definiram como herético? A divisão foi feita para que nós pudéssemos conhecer os cânones de cada um e, também, oferecer os cânones e as listas dos livros, segundo os Concílios e Sídonos.    

O cânone consolidou-se até o momento da Reforma Protestante, quando foram colocados em xeque os livros deuterocanônicos (ou seja, aqueles que foram aceitos em um segundo momento) do Antigo e do Novo Testamento. Os protocanônicos (aqueles que foram aceitos primeiramente) não foram questionados. Assim, a discussão sobre o Cânon da Sagrada Escritura foi reaberta. Pouco mais de cem anos depois do mundo protestante na Linha Luterana, os fiéis retomaram os livros do Antigo Testamento e, até hoje, a Igreja Protestante possui os mesmos 27 livros que católicos e ortodoxos.

» Há muita dificuldade quando se tenta estabelecer uma unidade ecumênica entre as igrejas cristãs? O livro ajuda a aproximar o diálogo entre elas?

Waldecir: Já existem, hoje em dia, traduções ecumênicas. No Brasil, por exemplo, existe a TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia. Ali, nós temos todos os livros protocanônicos e deuterocanônicos do Antigo e do Novo Testamento. Vou dar um exemplo: se a Bíblia Ortodoxa possui 151 Salmos, ao invés dos 150 católicos, a TEB vai reunir 151 Salmos ao todo, pois se trata de uma Bíblia comum entre católicos, ortodoxos e protestantes.

Existem outras traduções publicadas no Brasil, comuns a católicos e protestantes, para serem oferecidas às comunidades cristãs. Neste sentido, muitos passos já foram dados para que cheguemos a ter um Cânon Comum, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento.

O livro ajuda? Eu defendo que ajuda e muito! Afinal, o mais interessante é que as tradições religiosas dentro do Cristianismo conheçam aquilo que era canônico no início, para que depois acompanhem a sua evolução e a comparem com o estado atual. E o mais importante: que as tradições do Cristianismo se respeitem e respeitem o que cada uma entende como seu Livro Sagrado. E, em comum acordo, que todas trabalhem para o bem comum.
 

» Há critérios para a escolha dos Cânons? Por que as demais Igrejas possuem Livros Sagrados tão diferenciados?

Waldecir: Sim, há critérios. A Igreja precisava decidir quais livros ela aceitaria na Lista das obras consideradas inspiradas, em outras palavras, aquelas que continham a fé da Igreja. Os critérios importantes foram quatro:

Primeiro, era necessário ter autoridade apostólica. Ou seja, deveria ter sido escrito por um Apóstolo. Seja dos 12, seja do Apóstolo Paulo.

Em segundo lugar, que se mantivesse uma regra de fé. Por exemplo, um livro que falasse muito mais de Maria ou dos Apóstolos do que do próprio Cristo, obviamente, não seria considerado um livro canônico. Afinal, o Salvador é Cristo. Portanto, não se deve ter uma superexaltação de nenhuma outra figura.

Terceiro, era necessário ter antiguidade. Se a maioria dos Apóstolos morreu no século I e o primeiro critério era a Apostolicidade, os escritos a partir do século II e III já não poderiam mais ser incluídos no Cânon.

E o quarto critério era o uso e a adaptabilidade na vida litúrgica e na vida catequética da Igreja. Se o texto lido alimentava ou não a vida de fé na comunidade, seja a vida pessoal, seja a comunitária.
 

» Nós estamos livres de outra reviravolta no Cânon da Sagrada Escritura?

Waldecir: Não. Qualquer ser humano pode ter alguma ideia de que é preciso aumentar ou diminuir o Cânon – tirar livros ou acrescentar. Nos últimos dois séculos, nós tivemos três significativas descobertas de livros da Sagrada Escritura, por exemplo.

No final do século XIX, em 1896, na Guenizá do Cairo, foram descobertos muitos manuscritos do mundo judaico. Já no século XX, foram descobertos manuscritos da comunidade cristã gnóstica, também próximo ao Cairo, em Nag Hammadi. Dois anos mais tarde, foi descoberta a comunidade kuham. E ali foram encontrados inumeráveis manuscritos do mundo judaico novamente.

Agora, nenhuma dessas descobertas criou um problema com a questão do Cânon, uma vez que esses livros confirmaram aqueles que já existiam. Poderíamos descobrir algum manuscrito no mundo? Sim, a qualquer dia e qualquer hora. E seria uma alegria muito grande.

O mundo cristão possui o maior número de literatura do mundo antigo conservada. Nenhuma outra corrente religiosa ou filosófica tem tantos manuscritos conservados. Há, hoje, um número muito grande de textos extrabíblicos dos padres da igreja dentro da Patologia Migne Grega, da Patologia Migne Latina e da Patologia Migne Siríaca. São aproximadamente 400 volumes. Em 2018, consegui uma coleção da grega e da latina para a PUC-Rio. Todos publicados pelo migne francês, no século XIX. Isso tem um valor incalculável, seja afetivo, financeiro ou histórico.

» Nesse sentido, o senhor diria que o Compêndio suprimiu uma defasagem acadêmica que existia no Brasil?

Waldecir: Exato! E essa deficiência não é só do Brasil. É claro, no nosso país ela é muito maior, já que não temos a produção literária na língua portuguesa e não é todo mundo que vai ler em inglês, francês, alemão, italiano ou espanhol… A defasagem residia no fato de que nós não tínhamos no mundo, até então, uma obra como esta aqui: que reúne todos os textos originais com sua tradução.  

Para encontrar esses textos, realizei várias visitas à Europa, à Biblioteca da FAJE em Belo Horizonte, à Biblioteca dos Franciscanos em Petropólis, à Biblioteca dos Monges aqui do Rio de Janeiro e à própria PUC-Rio. Essas são bibliotecas com manuscritos da questão monástica. Esses monges têm manuscritos e textos publicados no início do período da prensa de Gutenberg. Isso é de um valor incalculável! E eu acredito que, buscando, encontrarei ainda mais.


Publicado em: 17/09/2019





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