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Entrevista com autor

Maria Clara Bingemer



Pode-se dizer que Maria Clara Lucchetti Bingemer é uma mulher simpática e carismática. Mais do que isso: é dona de uma vitalidade impressionante! Há quase dez anos à frente da direção do Centro Loyola de Fé e Cultura da PUC-Rio, ela também acumula a função de professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, se dedica à pesquisa e produção acadêmica, participa de diversos grupos de evangelização e também assina uma coluna quinzenal no Jornal do Brasil.

Carioca, casada, mãe de três filhos, Maria Clara viu sua vida profissional seguir um percurso diferente do que inicialmente imaginara. Formada em Comunicação Social pela PUC-Rio, sentiu que sua profissão não estaria desvinculada de sua vida religiosa. Ao ser convidada pelo Padre Alfredo Novak (atualmente bispo de Paranaguá, PR) para trabalhar na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na ocasião sediada no Rio de Janeiro, percebeu a necessidade de também se graduar em Teologia. Concluiu o curso pela PUC-Rio, no final da década de 1970, e continuou a se especializar na área. Fez pós-graduação e obteve seu doutoramento em Teologia, na Universidade Gregoriana (Roma), em 1989. Desde então, dedica-se ao ensino da disciplina na PUC-Rio. [Para obter outras informações sobre a entrevistada, acesse sua homepage oficial: http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape].

Maria Clara Bingemer publica textos, artigos e livros sobre diversos temas que não se distanciam de sua missão evangelizadora. Constantemente solicitada pela imprensa, recentemente ela esteve no programa Olhar 2003 (TVE) para comentar o episódio de 11 de setembro de 2001. Isto porque Maria Clara é organizadora do livro Violência e Religião: Cristianismo, Islamismo e Judaísmo - três religiões em confronto e diálogo - publicado pela Editora PUC-Rio/ Edições Loyola, já em sua segunda edição - no qual se discute as raízes da violência nestas religiões monoteístas. Ao analisar sua presença nos textos sagrados e nas suas tradições, o livro em questão, entre outros assuntos, desmistifica a errônea associação entre Islamismo e violência.Maria Clara Bingemer - que também é co-organizadora de duas outras publicações da parceria Editora PUC-Rio/ Edições Loyola: Pecados e Virtudes - nos presenteia com uma análise acerca desta onda de terrorismo que assola o mundo e com uma reflexão sobre o papel da Igreja Católica na contemporaneidade. Comenta seus projetos futuros e ainda revela quais são os maiores pecados e virtudes dos brasileiros.

» Editora PUC-Rio: O livro Violência e Religião, também organizado pela senhora, já chegou à segunda edição. Tendo 11 de setembro de 2001 como um marco recente na história mundial, como a senhora analisa esta onda de terrorismo relacionado ao Islamismo?

Maria Clara L. Bingemer: Creio que há uma confusão aí. O terrorismo não é só islâmico, mas é também cristão (no caso dos Estados Unidos) e pode ser também não ligado a nenhuma religião em particular. Escandaliza ver, nos acontecimentos de 11 de setembro, essa superposição errônea que se faz entre islamismo e terrorismo e/ou fundamentalismo. É injusto com uma religião e com todo um povo.

» Editora PUC-Rio: Qual a sua percepção dos conflitos mais duradouros como o caso Israel-Palestina e a intervenção norte-americana no Iraque? A diversidade cultural pode ser um agravante?

Maria Clara L. Bingemer: Creio que sim, a diversidade cultural pode ser um agravante, mas o maior agravante, a meu ver, é a política externa dos Estados Unidos, superpotência que decidiu tomar conta do mundo inteiro e decretar o que é certo e errado em cada país. Já no caso Israel-Palestina, é outra coisa. São irmãos de raça e de sangue brigando há muitíssimo tempo por uma causa que a meu ver não tem solução. Espero que cheguem a essa conclusão e sentem na mesa para conversar, apesar disso se revelar difícil hoje, com os líderes que têm.

» Editora PUC-Rio: É possível imaginar uma consciência cristã em um mundo tão desgastado em relação ao comportamento humano? E mais: quais são os principais preconceitos que as três religiões (Islamismo, Judaísmo e Cristianismo) enfrentam e tentam desmontar?

Maria Clara L. Bingemer: Claro. Mais do que nunca, a consciência cristã tem que estar muito alerta e se manifestar sempre que necessário, e até se antecipar às solicitações que lhe são feitas. Para isso, creio que se deve, sim, desmontar alguns preconceitos importantes que as três religiões enfrentam, entre eles, por exemplo, o que liga islamismo e terrorismo; o que lê e interpreta anacronicamente atuações da Igreja no passado com os olhos de hoje; enfim, o que conserva visões antiquadas e que não correspondem ao judaísmo tal como ele se configura hoje e não separa sionismo de judaísmo.

» Editora PUC-Rio: Recentemente, publicamos o Atlas da Filiação Religiosa e Indicadores Sociais no Brasil -- organizado pelos pesquisadores Cesar Romero Jacob, Dora Rodrigues Hees, Philippe Waniez e Violette Brustlein. Uma das principais novidades trazidas neste estudo é o crescimento das igrejas evangélicas no país e a diminuição crescente do número de fiéis da Igreja Católica. Na sua opinião, a que se devem essas mudanças na geografia das religiões brasileiras?

Maria Clara L. Bingemer: Sobre isso publiquei em 1993 um livrinho, Alteridade e Vulnerabilidade, pelas Edições Loyola, que me parece que pode ajudar a aprofundar essa questão, que é complexa e delicada, por isso difícil de analisar em um parágrafo. Creio que houve um peso excessivo institucional e burocrático das Igrejas históricas - inclusive a Católica - que desencorajaram os fiéis e os fizeram ir buscar outras igrejas mais "leves" (em todos os sentidos do termo), e mais democráticas, e, sobretudo menos exigentes. Mas também creio que essas novas Igrejas investiram mais no trabalho com a afetividade dos fiéis. Por isso seu sucesso em um mundo onde a afetividade está em alta e a carência das pessoas esmagadas pela modernidade é impressionantemente espessa.

» Editora PUC-Rio: Como analisa o sincretismo brasileiro?

Maria Clara L. Bingemer: Há especialistas para analisá-lo. Eu não o sou, por isso apenas constato a existência do sincretismo. Em todo caso, ele configura o campo religioso brasileiro de maneira bem própria e original e isso deve entrar, sem dúvida, em consideração quando a pastoral da Igreja prepara suas estratégias e planejamentos.

» Editora PUC-Rio: Quais são as funções que um bacharel em Teologia pode desempenhar? Onde ele trabalha e qual é a importância deste profissional para o mundo de hoje?

Maria Clara L. Bingemer: Um bacharel em teologia tem diante de si como campo de trabalho fundamentalmente o campo do ensino religioso nos colégios confessionais. Além disso, pode também trabalhar como agente pastoral especializado, assessorando paróquias, dioceses, os mesmos colégios e até mesmo outras áreas. Por exemplo, quando um cineasta quer fazer um filme sobre um tema religioso, chama e pede a assessoria de um profissional em teologia, etc.

» Editora PUC-Rio: Tendo como inspiração os livros Pecados e Virtudes, ambos organizados pela senhora, quais seriam, na sua opinião, o maior pecado e a maior virtude do Brasil contemporâneo?

Maria Clara L. Bingemer: Eu diria que o maior pecado do brasileiro é a inveja. E a maior virtude a solidariedade, a alegria, a cordialidade, o gostar de gente.

» Editora PUC-Rio: A senhora acha que é possível fazermos avaliações do governo do Presidente Lula? Quais são suas expectativas para o Brasil dos próximos anos?

Maria Clara L. Bingemer: Tenho esperanças mais que expectativas. E elas são grandes. Acho que ainda é muito cedo para avaliar o governo Lula. Demos-lhe pelo menos um ano. Acho que menos é muito pouco para uma tarefa dessa envergadura.

» Editora PUC-Rio: Quais são os seus próximos projetos?

Maria Clara L. Bingemer: Estou fechando uma pesquisa de dez anos sobre a violência no pensamento da filósofa francesa Simone Weil, que espero fazer virar livro até o ano que vem. Fora isso, há várias publicações do Centro Loyola que ainda estão por fechar. Fora uma bela parceria que surgiu agora com o Instituto Cravo Albim de realizar uma série de seminários: "Olhares amorosos sobre o Rio". Além disso, como sou coordenadora do Apostolado Intelectual da Rede Apostólica Inaciana da Província jesuíta Brasil Centro-Leste, tenho que puxar a reflexão e o trabalho de uma rede de intelectuais de vários pontos do país. É um lindo desafio, mas um grande trabalho também.


Publicado em: 01/09/2015





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