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Entrevista com autor

Terezinha Féres-Carneiro



De acordo com os dados do Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira é da ordem de 177.479.747 habitantes. Destes, as mulheres ainda são a maioria: para cada 100 há 96,93 homens. Embora predominantes na população, elas ainda precisam vencer algumas barreiras. Conforme demonstra a Síntese dos Indicadores Sociais de 2001, feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o sexo feminino - embora tenha conquistado, gradativamente, a emancipação financeira - tem rendimentos inferiores ao masculino. Mesmo que tenham a mesma formação escolar, "71,3% das mulheres que trabalham recebem até dois salários-mínimos, contra 55,1% dos homens" (http://www1.ibge.gov.br).

No entanto, as mulheres chegaram ao mercado de trabalho e não dependem, economicamente, dos maridos. Na população ocupada, o percentual feminino passou de 38,8%, em 1992, para 40,3%, em 1999. Mesmo em condições desfavoráveis, muitas já são responsáveis pelo sustento da família. O número de domicílios sob a responsabilidade feminina saltou de 18,1%, em 1991, para 24,9%, em 1999 - concentrados nas regiões Sudeste (46,4%) e Nordeste (28,5%).

A constituição atual da família brasileira tem refletido esses dados apurados pelo Censo de 2000 do IBGE. Terezinha Féres-Carneiro - professora e pesquisadora do Departamento de Psicologia da PUC-Rio - estuda as relações familiares e conjugais há mais de 30 anos. Nossa entrevistada acredita que hoje existem mais famílias monoparentais, em decorrência de produções independentes, ou da separação. Na opinião dela, a mulher, atualmente, quando está insatisfeita, demanda a separação porque não depende mais economicamente do marido.

Terezinha Féres-Carneiro é organizadora do livro Família e casal: arranjos e demandas contemporâneas, mais novo lançamento da parceria Editora PUC-Rio/ Edições Loyola. A experiência acumulada em sala de aula, com a prática da pesquisa, e enquanto psicoterapeuta de família e casal, a possibilita fazer uma análise realista sobre a relação entre pais e filhos na atualidade. Ela reconhece que vivemos um período de transição, onde as relações parentais precisam ser repensadas, assim como também o comportamento entre os sexos: "As mulheres ainda estão muito sobrecarregadas, e são poucos os homens que dividem os afazeres domésticos", conta.Nossa entrevistada comenta sobre o livro Família e casal: arranjos e demandas contemporâneas, observa algumas das transformações ocorridas na família brasileira e esbanja simpatia para tratar de outros assuntos sobre as relações entre "pais e filhos" e "homem e mulher".

» Editora PUC-Rio: Como surgiu seu interesse pela psicoterapia de casal?

Terezinha Féres-Carneiro: O meu percurso tem a ver com o desenvolvimento da psicoterapia de família e casal. Ela chegou ao Brasil enquanto prática terapêutica no início da década de 1970, tendo surgido nos Estados Unidos em meados da década de 1950, fazendo um contraponto com a psicanálise, ou seja, propondo trabalhar com as relações, com o interacional. Concebendo a família como um grupo com um equilíbrio próprio, a abordagem sistêmica se direciona, inicialmente, sobretudo para a queixa e os sintomas apresentados pelos seus membros. Mais tarde um pouco, desenvolvem-se as abordagens psicanalíticas de família e casal, nas quais a história da família e a dimensão intra-psíquica ocupam papel relevante. Um pouco depois, surgem os trabalhos de alguns autores que propõem a articulação das diferentes abordagens no estudo da família e do casal.Considero que meu percurso, de uma certa maneira, acompanha o desenvolvimento da própria área. Desde o final do meu Curso de Graduação, no início da década de 1970, quando a Terapia de Família acabava de chegar ao Brasil, eu já me interessava pela pesquisa e pela clínica de família e casal. Em 1972, concluí o Curso de Especilização em Arte-Diagnóstico Familiar e em Psicoterapia de Família. Minhas primeiras investigações foram desenvolvidas nas abordagens sistêmicas, e tanto minha dissertação de Mestrado, concluída em 1975, quanto minha tese de Doutorado, defendida em 1981, refletem tais influências. Ao longo da década de 1980, comecei a me interessar pelas abordagens psicanalíticas de família e casal, e, no ano de 1988, realizei meu pós-doutorado, trabalhando com o psicanalista de família e casal, Dr. Jean Lemaire na Universidade de Paris V e no Hospital de Versailles. Na minha volta ao Brasil, comecei a desenvolver trabalhos onde discuto a possibilidade de articular os desenvolvimentos teóricos das abordagens sistêmicas e das abordagens psicanalíticas na clínica da família e do casal, onde se faz necessária uma tríplice chave de leitura, passando pelo intrapsíquico, pelo interacional e pelo social.

» Editora PUC-Rio: Como surgiu a idéia de organizar o livro Família e Casal: arranjos e demandas contemporâneas?

Terezinha Féres-Carneiro: Este é o quarto livro publicado pelo Grupo de Trabalho "Casal e Família: Estudos Psicossociais e Psicoterapia", pertencente à Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), que congrega pesquisadores de todos os Programas de Pós-Graduação em Psicologia do Brasil, reunidos em grupos temáticos. Os grupos temáticos existem há aproximadamente dez anos e os encontros dessa associação são bianuais. No VI Simpósio, realizado em 1996, publicamos nossa primeira coletânea, Relação Amorosa, Casamento, Separação e Terapia de Casal - editada pela própria ANPEPP. Outros dois livros foram publicados pela Editora Nau: Casal e Família: da tradição a transformação (1999) e Casamento e Família: do social à clínica (2001). A idéia de se organizar Família e Casal: arranjos e demandas contemporâneas é dar continuidade à publicação dos trabalhos discutidos no GT, já que há um intercâmbio de idéias muito rico entre os pesquisadores. Nosso grupo conta com a participação de 16 professores de 12 universidades brasileiras, que desenvolvem pesquisas sobre família e casal, e que se reúnem para discutir os dados dessas pesquisas. Após a discussão desses trabalhos no Simpósio bianual, eles são organizados por mim visando à publicação de um livro.

» Editora PUC-Rio: A que conclusões os pesquisadores/autores chegaram quanto às características e à formação da família brasileira, tendo em vista os estudos psicanalíticos sobre o assunto?

Terezinha Féres-Carneiro: Não poderíamos dizer que chegamos a uma conclusão no livro como um todo porque ele apresenta um panorama muito amplo. Família e Casal: arranjos e demandas contemporâneas abrange uma boa parte da produção dos pesquisadores brasileiros nessa área. Basta ver o sumário do livro para compreender que trabalhamos com temas diversos sobre família e casal, e em diferentes abordagens. Os artigos de Adriana Wagner (PUC-RS) e Maria Consuêlo Passos (PUC-SP/UNIMARCO) abordam as novas configurações familiares. Lídia Levy (PUC-Rio) trata da discussão sobre o poder judiciário e a função paterna, porque muitas mães vêem nos juízes uma figura de autoridade familiar. Outro artigo interessante é o de Maria Lucia Rocha-Coutinho (UFRJ), que versa sobre a carreira das mulheres e sua função de esposa. Temos dois estudos, desenvolvidos pelas professoras da UnB, Gláucia Diniz e Vera Coelho, sobre a meia-idade e seus dilemas. Cristina Brito (UNICAP) apresenta um artigo sobre a auto-percepção dos avós precoces, enquanto Bernardo Jablonski (PUC-Rio) faz considerações sobre casamento e separação nas famílias da classe média no Rio de Janeiro. Os artigos de Julia Bucher (UNIFOR) e Maria de Fátima Araújo (Unesp) apresentam estudos interessantes sobre a violência familiar e conjugal. Já o trabalho de Pierre Benghozi (Universidade Paris V), no qual eu colaborei, aborda a questão da violência e da agressividade na adolescência. O artigo de minha autoria apresenta a discussão de casos clínicos focalizando o tema da manutenção e da ruptura do casamento ao longo da terapia de casal. O livro tem ainda outros artigos interessantes: um sobre a psicoterapia psicanalítica com casais e famílias, de Isabel Cristina Gomes (USP); outro sobre a influência da conjugalidade na individualidade dos cônjuges, escrito por Andrea Seixas Magalhães (PUC-Rio); um trabalho sobre o sofrimento psíquico entre as gerações, de Maria do Carmo de Almeida Prado (UERJ), e por fim, o texto de Teresa Cristina Carreteiro(UFF), que analisa com o acontecimento é uma categoria individual, familiar, social e histórica.

» Editora PUC-Rio: Qual foi a maior transformação ocorrida na família brasileira, nessas últimas décadas? A entrada da mulher no mercado de trabalho?

Terezinha Féres-Carneiro: Essas mudanças sociais trouxeram conseqüências para a constituição da família. O que em geral ocorre é que as mulheres são muito mais questionadoras, querem conversar e modificar as relações, enquanto os homens estão mais acomodados nas relações conjugais e familiares. Então, essa mulher que está insatisfeita, e que não depende economicamente do marido, tem muito mais tranqüilidade para pedir a separação. Em muitos casos, os homens não estão satisfeitos, mas nem por isso querem a separação. Então, o que vemos, é que a mulher demanda muito mais a separação do que o homem. Essa é uma mudança! Hoje temos também um número maior de famílias monoparentais, em geral chefiadas por mulheres, em decorrência de produções independentes ou de separações. Atualmente, temos visto também mais famílias homossexuais. Na Primeira Vara de Família do Rio de Janeiro já houve a habilitação de adoção para um homossexual. Os homossexuais podem adotar crianças individualmente, mas não podem fazê-lo enquanto casal, na medida em que a união homossexual ainda não é legalizada no Brasil. Em alguns estados brasileiros isso já vem acontecendo. São mudanças nas famílias contemporâneas que nossos antepassados não poderiam imaginar.

» Editora PUC-Rio: A família, tendo em vista a perspectiva judaico-cristã, ainda pode ser considerada a principal referência do ser humano?

Terezinha Féres-Carneiro: Não temos como negar a importância da família no desenvolvimento do indivíduo. Mesmo com todas essas configurações de família - de primeiro casamento, separada, recasada, monoparental, homossexual - ela nunca deixará de ser a referência mais importante para o indivíduo, sobretudo se considerarmos que os pais são os principais modelos identificatórios para os filhos. Assim, ninguém consegue escapar da família que tem. Por mais que os filhos questionem o procedimento dos pais em relação a eles, o que observamos é que acabam repetindo seus pais quando vão constituir suas próprias famílias. Então, a família continua sendo esse lugar onde as pessoas se identificam, aprendem sobre a vida, se relacionam e se desenvolvem. Por mais que se questione se a família está viva ou está morta, conclui-se que ela está cada vez mais viva, cada vez mais importante. Então poderíamos perguntar: por que, então as pessoas se separam tanto? Separam-se tanto porque têm expectativas muito elevadas em relação ao casamento e às relações familiares. Mas se observarmos bem, a maioria das pessoas que se separam caminham para o recasamento.

» Editora PUC-Rio: Tendo em vista notícias constantes de filhos que planejam e executam o assassinato dos pais [vide o caso dos Richthofen], o que levaria um filho a matar um pai e vice-versa? O aumento dessa onda de violência tem alguma relação com a composição da família moderna (mãe que trabalha fora, pais separados, etc)?

Terezinha Féres-Carneiro: Não dá para generalizar, pois cada caso merece um estudo. Mas a violência que ocorre na família foi gerada na própria família. Dificilmente em uma família onde os pais puderam ser as figuras suficientemente boas, com as quais os filhos se identificaram - onde o cuidado, o amor, a compreensão, e os sentimentos positivos prevaleceram na troca afetiva entre pais e filhos - ocorre algo tão trágico. No caso em que filhos planejam o assassinato dos pais, acredito que alguma coisa de muito destrutiva deveria ocorrer na relação entre os membros da família. Os distúrbios individuais atingem as pessoas, mas esta violência tem a ver também com o modo como a família se estrutura e interage, sobretudo com o modo como os pais desempenham o papel de educadores, de modelos de identificação. Para entender casos como os dos Richthofen, não podemos tomar somente o comportamento da filha. Com isto, não estou querendo dizer que vítimas e agressores têm a mesma responsabilidade e a mesma culpa, mas que é importante considerar as relações familiares no seu conjunto. Mas queria ressaltar, mais uma vez, cada caso precisa ser analisado na sua singularidade. A família precisa promover mais afeto, compreensão e amor, para prevenir a agressão e a violência.

» Editora PUC-Rio: Quais são as maiores dificuldades para se educar os filhos? Quais são as maiores queixas feitas pelos pais?

Terezinha Féres-Carneiro: Talvez a maior dificuldade apresentada hoje pelos pais esteja relacionada à dificuldade que têm de serem autoridade para os filhos. Entre o arcaico e o moderno, os pais ficaram meio perdidos nessa função de autoridade, de educadores, daqueles que precisam colocar limites para os filhos. Muitas vezes eles confundem autoridade com autoritarismo. E para não serem autoritários, deixam de ser autoridade. Uma coisa, por exemplo, é o que uma criança de três anos decide a respeito dela: se está com fome ou não está. Outra coisa é essa mesma criança decidir se vai estudar nesta ou naquela escola. Isso não é coisa para criança resolver! E por aí vai. O que uma criança de dez anos pode uma de três não pode. O que uma de 15 anos pode uma de dez não pode. É como se os pais estivessem perdidos por medo de serem ultrapassados e autoritários. Então, eles deixam de ser autoridade. Mas crianças e adolescentes precisam de autoridade para se desenvolverem, para crescerem e para se constituírem.

» Editora PUC-Rio: Como a senhora avalia o acúmulo de funções desempenhadas pelas mulheres (profissão, filhos, maridos, trabalhos domésticos) e os casos de inversão dos papéis tradicionais entre marido e mulher (homens que cuidam da casa e mulheres que sustentam a família)?

Terezinha Féres-Carneiro: Atualmente, os papéis masculinos e femininos já são tomados com menos rigidez do que no passado. No entanto, ainda permanece um preconceito em relação ao que é feminino e ao que é masculino: o homem como provedor e a mulher como educadora dos filhos, como a responsável por questões domésticas. Hoje, os homens que trabalham em casa, participam mais da vida dos filhos e da vida doméstica. A inversão desses papéis está mais flexível, embora ainda encontremos resistência. Mas o preconceito não é só masculino! As próprias mulheres quando ganham mais do que o marido, não dizem. Escondem porque encaram o fato como uma desqualificação do homem. Por outro lado, por mais que os homens desempenhem tarefas domésticas, entendem isso como uma concessão às mulheres. Nos casos estudados no consultório, encontramos muito isso: "eu ajudo muito, eu faço isso para ela". É como se as atribuições domésticas permanecessem femininas e como se os homens assumissem algumas dessas tarefas como concessão às mulheres. As mulheres ainda estão muito sobrecarregadas.

» Editora PUC-Rio: Parafraseando um artigo do livro, "afinal, o que quer um casal?" como a senhora avalia os casamentos/ relacionamentos atuais? A princípio, pode-se afirmar que não são mais tão duradouros como os de nossos avós. Por quê?

Terezinha Féres-Carneiro: Ainda existe toda uma idéia muito romântica em torno do casamento, e isso contribui para a separação. Talvez os casamentos se desfaçam tanto por causa dessa exacerbada idealização, que acaba frustrando os cônjuges. Eles se separam e vão para um outro casamento onde também acabam frustrados, porque precisam contextualizá-lo na realidade contemporânea, na realidade emocional dos cônjuges, e do cotidiano profissional. Cada vez mais, trabalhamos mais horas e isso tem repercussão na vida familiar e na vida do casal.

» Editora PUC-Rio: As pessoas, de uma maneira geral, têm sido mais acometidas por estresse e depressão. Podemos afirmar que essas são as duas doenças da modernidade? Até que ponto isso influencia nas relações humanas?

Terezinha Féres-Carneiro: Sem dúvida! O que acontece com o sujeito interfere nas suas relações. Esse estresse da vida moderna, essa dupla jornada de trabalho da mulher, por exemplo, faz com que ela esteja menos disponível internamente para cuidar, organizar e providenciar. Isso acontece com os homens também. Homens e mulheres acabam ficando menos disponíveis. Não há estado emocional que atinja o sujeito, que não tenha repercussão na vida familiar. Se tivéssemos sujeitos menos estressados e deprimidos, teríamos uma família menos estressada e deprimida, podendo contribuir para o melhor desenvolvimento dos indivíduos.

» Editora PUC-Rio: Que papel atribui ao seu livro? Que "missão" espera que ele possa cumprir?

Terezinha Féres-Carneiro: Esperamos que ele possa ser muito útil para pesquisadores e profissionais que trabalham com a família e o casal, assim como para os estudantes interessados nesta área. Temos uma expectativa de que ele possa colaborar para o trabalho realizado por psicólogos, sociólogos, antropólogos, educadores e, sobretudo, por terapeutas de família e casal.

» Editora PUC-Rio: Quais são os seus próximos projetos?

Terezinha Féres-Carneiro: Nosso Grupo de Trabalho - "Casal e Família: Estudos Psicossociais e Psicoterapia" - permanece com seus encontros bianuais. Em maio de 2004 estaremos reunidos no Espírito Santo, durante o X Simpósio de Pesquisa e Pós-Graduação da ANPEPP, onde discutiremos nossas pesquisas concluídas e em andamento, e estaremos, sem dúvida, planejando a publicação do quinto livro produzido pelo GT.

 


Publicado em: 02/09/2015





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