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Entrevista com autor

Alicia Bonamino



Na década de 1990, o Brasil conseguiu colocar cerca de 97% das suas crianças nas escolas públicas (são mais de 30 milhões de crianças, praticamente a população da Argentina). Como esse trabalho educacional está sendo avaliado? Avaliação da educação básica, recentemente publicado pela parceria Editora PUC-Rio/Edições Loyola, é o primeiro livro que sistematiza experiências estaduais brasileiras de avaliações na área de educação, mapeia soluções encontradas, impasses existentes e discute alternativas.

Segundo seus organizadores, as descrições e balanços oferecidos nesta obra não estavam facilmente disponíveis para os leitores interessados no tema. Até existiam algumas publicações sobre o assunto, mas geralmente eram produzidas por organismos internacionais ou resultados de pesquisas financiadas por eles. A obra foi lançada recentemente durante o II Colóquio Luso-brasileiro sobre questões curriculares, ocorrido na UERJ, e no XII Endipe (Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino), em Curitiba, na PUC-PR.

Para falar do trabalho realizado pelos organizadores dessa obra - quando sistematizam e discutem as diferentes experiências de avaliação no estados - entrevistamos Alicia Bonamino, que, juntamente com Nícia Bessa e Creso Franco (todos professores e pesquisadores da PUC-Rio), foi responsável por reunir os textos produzidos por diferentes gestores na área de educação, apresentados em seminário que deu origem ao livro, e que se realizou no campus da PUC-Rio, em abril de 2002.

Além de comentar sobre a importância de Avaliação da educação básica, Alicia Bonamino opina sobre o sistema de educação brasileiro, as políticas governamentais na área de educação (entre elas, o sistema de cotas) e ainda apresenta seus próximos projetos.

» Editora PUC-Rio: Como surgiu a ideia de organizar o livro Avaliação da Educação Básica: pesquisa e gestão?

Alicia Bonamino: Em 1997, houve um edital do Ministério da Educação e Cultura (MEC) para apoiar projetos de pesquisa na área de avaliação em educação. Naquela época, o INEP/MEC estava implementando três sistemas de avaliação - o SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e o Provão (Exame Nacional de Cursos) e despertando para a necessidade de formar pesquisadores na área de avaliação. Com o apoio do INEP/MEC, continuamos nossas pesquisas e criamos o LAED (Laboratório de Avaliação em Educação), junto com o Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio e começamos a utilizar os dados coletados por projetos governamentais de avaliação da educação básica para investigarmos práticas educativas e medidas de políticas educacionais promotoras de equidade socioeconômica, de gênero e racial. Era a primeira vez que o Brasil apresentava evidências sobre o funcionamento de seus sistemas educacionais. Com relação especificamente à relação entre o SAEB e as redes públicas do ensino básico, o objetivo do MEC nos anos 1990 era o de criar e disseminar uma cultura de avaliação. Pretendia-se também apresentar um diagnóstico de seus problemas educacionais e escolares. O livro Avaliação da Educação Básica pretendeu recolher algumas das experiências que se desenvolveram nos estados a partir da disseminação dessa cultura.

» Editora PUC-Rio: E quais conclusões vocês chegaram a partir desse diagnóstico?

Alicia Bonamino: O SAEB faz um acompanhamento periódico das habilidades dos alunos em determinadas séries do Ensino Fundamental e Médio, permitindo acompanhar a evolução da qualidade de ensino oferecido em nossas escolas de educação fundamental e média. O mesmo acontece com as avaliações que foram sendo implementadas pelos estados, a partir da década de 1990. O que foi sendo percebido, e o professor Creso Franco dedica um capítulo do livro a essa questão, é que essas avaliações tinham limitações. Na medida em que não acompanhavam o aprendizado dos mesmos alunos estavam limitadas na sua capacidade de informar à escola e aos gestores da educação básica que políticas e práticas contribuíam na promoção do aprendizado dos alunos. Por isso, o professor Creso Franco defende, no livro, a necessidade de complementar as avaliações já existentes na educação com um estudo longitudinal que acompanhe uma amostra dos mesmos alunos ao longo do tempo para investigar os fatores escolares promotores de eficácia e de equidade.

» Editora PUC-Rio: Por que São Paulo e Rio de Janeiro não fizeram parte do diagnóstico contido no livro A Avaliação da Educação Básica?

Alicia Bonamino: São Paulo não respondeu ao nosso convite para participar do seminário. No caso do Rio de Janeiro, a avaliação que estava sendo conduzida à época no estado tinha um desenho diferente do SAEB e dos outros sistemas estaduais que participaram da pesquisa.

» Editora PUC-Rio: Como você avalia o atual sistema de educação básica no Brasil?

Alicia Bonamino: Podemos afirmar que a principal mudança nesse sistema foi a universalização do ensino. Na década de 1990, conseguimos colocar quase todas as crianças - cerca de 97% - nas escolas públicas. Isso é um feito importantíssimo, pois até o início daquela década havia um grande percentual de crianças que deveriam estar frequentando a escola, mas estavam fora dela. Hoje temos mais de 30 milhões de crianças que vão para a escola todos os dias. É praticamente a população da Argentina! Essa universalização justifica a existência de sistemas de avaliação bem consolidados, que permitem conhecer como a escola está funcionando. Os responsáveis pela educação básica (secretários, diretores, professores) precisam ter informações que os auxiliem na formulação de políticas e nas suas práticas pedagógicas. Por exemplo, para combater a repetência, algumas redes de ensino fundamental, municipais e estaduais, organizaram suas escolas em ciclos, evitando assim a repetência e uma de suas consequências mais diretas, a evasão. São longos ciclos de escolarização em que não há repetência entre os anos escolares.

» Editora PUC-Rio: Foi possível manter um nível de aprendizado escolar com esse sistema de ciclos?

Alicia Bonamino: Isso é o que a avaliação pode nos mostrar, por exemplo. Usamos o termo avaliação com um sentido próximo ao de pesquisa, porque nos permite, por exemplo, comparar resultados da educação no tempo e o impacto das políticas educacionais diferenciadas, como a organização da educação em séries e em ciclos. Também as avaliações podem nos ajudar a conhecer melhor o ensino médio, que tem crescido muito e de forma desordenada. Essa é uma questão que precisa ser estudada com atenção. O ensino fundamental é o que tem mais preocupado os gestores, secretários e autoridades de educação, mas ainda são poucas as pesquisas sobre o ensino médio.

» Editora PUC-Rio: Seria correto afirmar que o Brasil ainda está aprendendo a valorizar o estudo e romper com um certo determinismo social? Não falta um intercâmbio maior da escola com a universidade?

Alicia Bonamino: Entendo que as políticas de avaliação implementadas nos anos 1990 expressem essa compreensão se considerarmos que essas avaliações procuram entender como as escolas colaboram para a aprendizagem escolar dos alunos, ou seja, o quanto elas são capazes de oferecer condições de escolarização que diminuam o impacto da origem socioeconômica ou racial do aluno. Este é um tema de pesquisa que vem se fazendo presente na Universidade e para o qual as avaliações nacionais e estaduais da educação colaboram fornecendo dados.

» Editora PUC-Rio: O que pensam sobre a discussão acerca do sistema de cotas no Brasil? São a favor ou contrários a essa decisão?

Alicia Bonamino: Esta é uma questão importante que precisa ser debatida. A política de cotas coloca luz sobre a discriminação racial e este tema está sendo discutido na educação, principalmente em relação ao ensino superior. O debate abre uma perspectiva positiva.

» Editora PUC-Rio: Como vocês avaliam as diferenças regionais relacionadas à Educação? O ensino nas regiões Norte e Nordeste ainda está atrás do Centro-Sul?

Alicia Bonamino: Para o Brasil como um todo, o SAEB 2003 traz algumas informações importantes. Por exemplo, que o desempenho em leitura dos estudantes da 4ª série do ensino fundamental teve uma pequena melhoria e que nas demais séries avaliadas, 8ª série do ensino fundamental e 3ª série do ensino médio, e na disciplina de matemática, a média de desempenho dos alunos mantém-se estável. Esse resultado é particularmente importante com relação ao Ensino Médio, porque significa que o aumento das matrículas apesar de sua intensidade não está significando uma perda de qualidade do ensino.

» Editora PUC-Rio: Considerando a não intervenção do Estado na vida do cidadão, a partir da lógica do Estado Mínimo, como fica a responsabilidade do governo em relação à Educação?

Alicia Bonamino: Será que alguma vez o nosso Estado foi máximo? Apesar da crise, nós conseguimos colocar todas as crianças na escola. Nesse nível, o Estado se fez presente. Entretanto, não conseguimos avançar em uma política orgânica que contemple as necessárias articulações entre os diferentes níveis de ensino.

» Editora PUC-Rio: Quais são seus próximos projetos?

Alicia Bonamino: Iniciamos este ano um estudo longitudinal de painel, coordenado pelo professor Creso Franco, que obteve apoio do PRONEX - o programa de financiamento a núcleos de excelência acadêmica do Ministério da Ciência e Tecnologia - e da Fundação Ford em 2003. O projeto acompanha os mesmos alunos ao longo do tempo. Para realizar esta pesquisa proposta pelo professor Creso, seis centros universitários com tradição em avaliação da educação se associaram (o Laboratório de Avaliação da Educação da PUC-Rio, o Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais da UFMG, o LOED, da UNICAMP, o IPES da Bahia, ligado à UFBA; o Centro de Avaliação da Educação da UFJF e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul). A pesquisa focaliza o início do Ensino Fundamental e trabalhará com uma amostra de escolas dos grandes centros urbanos brasileiros. O objetivo desta pesquisa é fornecer evidências para os educadores e os gestores de políticas educacionais sobre o que pode melhorar a escola. Este ano começamos a preparar os testes de Leitura e Matemática e em 2005 estaremos começando a pesquisa nas escolas e divulgando os primeiros resultados.

 


Publicado em: 26/08/2015





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