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Entrevista com autor

Álvaro Caldas



História e memória são duas palavras que se confundem, de acordo com o que se propaga pelo senso comum. Entretanto, o historiador francês Pierre Nora, em seu livro História: novos objetos (Francisco Alves, 1979), afirmou que a "necessidade de memória é a necessidade de História". É como um resgate dessa memória histórica que Álvaro Caldas, professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, jornalista e ex-militante político durante os anos de chumbo, percebe as manifestações acerca dos 40 anos de ditadura militar, dos quais participou ativamente.

Álvaro Caldas é autor de Balé da utopia (Objetiva, 1993); Cabeça de Peixe (Garamond, 2002) e de Tirando o Capuz (Codecri, 1981) - escrito há 23 anos, cuja quinta edição foi relançada neste ano pela Garamond - livro no qual relata a experiência política de sua geração após o golpe de 1964 e o enfrentamento com a ditadura brasileira nos anos subsequentes. Caldas também é o organizador de Deu no Jornal, publicado em 2003 pela parceria entre a Editora PUC-Rio e as Edições Loyola, obra que apresenta a dinâmica da prática jornalística nos diferentes meios.

Nesta entrevista, ele comenta sua opção pelo jornalismo, conta sua experiência como militante político na década de 1960, discute a ética na imprensa, a formação profissional e a obrigatoriedade do diploma, entre outros assuntos.

» Editora PUC-Rio: Por que optou pelo jornalismo?

Álvaro Caldas: Essa história é longa. Para começar não sou carioca, sou goiano. Optei pelo jornalismo no início da década de 1960, atraído pelo sonho de trabalhar num grande jornal. Decidi correr os riscos e vim para o Rio de Janeiro, em busca de uma formação num centro maior, de importância nacional. Fiz o curso na antiga Faculdade Nacional de Filosofia. A descoberta do jornalismo se deu simultaneamente ao início da atividade política, que passava por um momento de grande efervescência. Juntos, esses dois fatos mudaram a minha vida e foram as duas coisas mais apaixonantes da minha juventude. Ainda na faculdade, estagiei no O Globo, e paralelamente trabalhava nos jornais da faculdade e da União Nacional dos Estudantes (UNE). Foi uma época de grandes transformações, minha geração estava completamente apaixonada pela ideia da revolução social. Não fugi à regra. Em alguns momentos, isso colidiu com o exercício do jornalismo, que exige uma certa independência e neutralidade. Mas aos 20 anos as emoções são muito fortes, indomáveis, e todos nos envolvemos naquele processo de luta. Vivemos, antes de 31 de março de 1964, um clima de grande agitação e criatividade. O Brasil parecia mudar em todos os campos com as reformas sociais, a explosão do cinema novo, a inovação do teatro popular e demais expressões artísticas. O golpe militar impôs um corte abrupto a esse rio caudaloso, um silêncio doloroso e inesperado. Com o fechamento do regime, comecei a me envolver com o processo de discussões para a deflagração da luta armada, única saída que víamos para combater a ditadura, uma forma de contestação radical que empregava a violência. Mas não me afastei da profissão. Enquanto pude, também fui construindo minha carreira jornalística. Em pouco tempo, não foi difícil para O Globo perceber que meu posicionamento político era contrário ao do jornal, que deu apoio ao golpe e à ditadura, e acabei demitido. Depois fui para o Jornal do Brasil - uma verdadeira escola, o principal jornal do país naquela época. Sentíamos orgulho em trabalhar no JB. Fiz carreira, cheguei a repórter especial, e já era um jornalista reconhecido quando fui preso, em fevereiro de 1970. Mas também havia me tornado um militante, membro de uma organização, o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), autointitulada revolucionária. Fiquei dois anos e meio preso e depois que fui posto em liberdade. Ainda muito visado, retomei com dificuldades minha atividade profissional no Jornal dos Sports.

» Editora PUC-Rio: Pode-se dizer que a juventude atual que ingressa nos cursos de jornalismo está desmobilizada politicamente devido ao fim das utopias?

Álvaro Caldas: Acho covardia comparar as décadas de 1960 e 1970 com o que se vive hoje. O mundo passou por uma reviravolta incrível. Aqueles foram anos marcantes, de engajamento, de certezas, não havia espaço para dúvidas. Muitos da minha geração morreram, foram presos, torturados, exilados, pagamos um alto preço por nossa opção. Participávamos de tudo, éramos jovens politizados, líamos muito, e tínhamos a ambição de consertar o mundo, de alcançar uma maior justiça e igualdade social. Algo parecido com o que está expresso no verso do poeta Carlos Drummond de Andrade: "Tenho duas mãos e o sentimento do mundo". Estivemos no olho do furacão, no meio de um processo histórico tumultuado. Acho mesmo que houve algo místico, apesar de todo o marxismo que estudávamos, naquela dedicação plena, quixotesca, que nos levou a enfrentar a ditadura em pequenos grupos armados, com a esperança de que o povo nos seguisse. Mas a sociedade ficou distante, alheia ao que ocorria nos subterrâneos.

» Editora PUC-Rio: E hoje, 40 anos depois?

Álvaro Caldas: Considero importante registrarmos esses fatos com o tom de memória, para que não se esqueça. Não são 40 anos para se comemorar, mas um momento que deve ser aproveitado para avaliação e discussão, passar a História pelo crivo do tempo, examinar o seu legado. Meu primeiro livro, Tirando o Capuz, trata justamente dessa fase caracterizada pelo confronto e a violência. Ele está sendo relançado em quinta edição. É um livro que reconstitui a trajetória política da minha geração a partir da militância estudantil e da luta armada, passando pela tortura e pelo cárcere. É o primeiro que traz um relato detalhado da prática da tortura, e as pessoas até hoje ainda não têm dimensão do que ela representou enquanto política de Estado. Lá estão a oficina de tortura e os torturadores que estiveram no Quartel do 1O. Batalhão de Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita (Tijuca - RJ). Narrado na primeira pessoa, mas de uma forma distanciada, o livro traça um painel da época como se fosse uma grande reportagem. Discute e reconhece os erros da esquerda armada. Segundo os críticos, seu maior diferencial em relação a outros depoimentos publicados ao final da ditadura é a exposição de um relato perturbador sobre o horror da tortura. Como não fui exilado, tive também a possibilidade de acompanhar de perto o desenvolvimento da situação no Brasil.

» Editora PUC-Rio: O Jornal do Brasil e O Globo tinham linhas editoriais diferentes, certo?

Álvaro Caldas: Eram linhas marcantemente distintas. O Globo incentivou e apoiou o golpe e só veio a adquirir a força econômica que tem hoje por ter se mantido ao lado da ditadura. O JB e o Estado de S. Paulo tentaram diversas formas de resistência, buscando escapar dos braços da censura, enquanto a Folha de S. Paulo e O Globo se identificaram claramente com o regime. Hoje esse assunto virou um tabu, as empresas jornalísticas e mesmo os jornalistas preferem não tocar nele, tanto que foi apenas superficialmente levantado nessa passagem dos 40 anos. Trata-se de um bom tema para estudo acadêmico, o papel da imprensa durante o regime militar.

» Editora PUC-Rio: Que características um bom jornalista deve ter e que conselhos daria a um jornalista principiante?

Álvaro Caldas: A atividade vem passando por grandes mudanças. O ritual do trabalho burocratizou-se, as empresas formaram conglomerados multimídia. A velocidade exigida para a transmissão da informação aliada a uma tecnologia sofisticada tende a nivelar por baixo. O grande repórter desaparece e surge o provedor de conteúdo em seu lugar. Não quero traçar um quadro pessimista, e incentivo o jovem a acreditar e a lutar por sua profissão. O jornal sempre precisará de bons repórteres, que saibam apurar e escrever com talento. É inegável que a Redação já teve muito mais charme, hoje perdeu boa parte de sua "aura", diante da preponderância do industrial, do comercial. O jornalismo tem uma mística sagrada, que é a da independência e da liberdade. Por mais que cada empresa tenha um dono que preze por seus interesses, ele não tem coragem de chegar à redação para exigir que um repórter escreva a favor ou contra alguma coisa. Um chefe de reportagem jamais terá coragem de pedir para você redigir algo de acordo com determinado ponto de vista. Isso o desmoralizaria. O jornalista possui um direito historicamente conquistado que é o de relatar os fatos verdadeiros, incomodem ou não. Temos que brigar sempre por essa independência, para nos fazer respeitar. Por isso, é importante dar ao futuro profissional uma boa formação; sair da faculdade sabendo literatura, história, conhecendo a realidade. É inadmissível que um foca recém-formado seja incapaz de formular uma pergunta, articular os fatos para realizar seu trabalho, como muitos que vemos por aí.

» Editora PUC-Rio: Então aquela história de que um repórter perguntou aos seus superiores se era para escrever contra ou a favor de Jesus Cristo é lenda?

Álvaro Caldas: Não, é verdade, mas a questão está mal formulada, porque não se trata de fazer uma reportagem e sim um editorial - espaço para veiculação da opinião da empresa jornalística. A pergunta não foi feita pelo repórter, mas sim pelo editorialista. Neste caso quem apita é o dono do jornal. Ele se reúne com um grupo de editorialistas e juntos vão escolher os temas do editorial do dia seguinte, definindo a linha que será observada. Mas não é possível fazer o mesmo com as notícias.

» Editora PUC-Rio: Quais são os limites entre a ética jornalística e o chamado jornalismo investigativo, tendo em vista o uso "indiscriminado" de gravadores, grampos e câmeras ocultas?

Álvaro Caldas: Ainda não sabemos onde isso vai dar. Todo jornalismo se propõe a investigar, e uma das qualidades que caracteriza um bom repórter é este sexto sentido, aliado a uma boa dose de ceticismo. Ele não sabe, não crê, e são suas dúvidas que vão levá-lo a ter sucesso na apuração. Há alguns anos esse jornalismo "investigativo" ganhou uma conotação maior, com risco de virar um vale-tudo. O que constitui um problema sério, e muitas vezes fere a ética. Em outros casos, defendo o uso de gravadores. Se o repórter está conversando com uma pessoa que sabe que é bandida, que faz de tudo para enganar e mentir, é necessário gravar. Atualmente o Sindicato e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) têm promovido discussões sobre o uso das câmeras indiscretas, gravadores e afins. O trabalho jornalístico é muito valioso para a sociedade, por isso ele precisa respeitar certos limites. O jornalista não deve se transformar num mocinho todo-poderoso, acima da lei, e sobretudo não pode perder a humildade - característica fundamental de um bom repórter.

» Editora PUC-Rio: O que acha da obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

Álvaro Caldas: No momento, a exigência do diploma não está valendo. De um ano para cá vivemos numa gangorra, com medidas judiciais ora liberando ora exigindo. Primeiro a Carla Richter - juíza da 16ª Vara da Justiça Federal, em São Paulo - a pedido dos donos das empresas jornalísticas - suspendeu em todo o país a obrigatoriedade do diploma. Depois a decisão caiu, por meio de um recurso da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), órgão que representa a categoria profissional. Trata-se mesmo de uma questão polêmica, inclusive nas redações. Defendo o diploma, mas não com exclusividade. O jornalismo é uma profissão muito diversificada, que necessita de talentos e conhecimentos variados para sua execução, e que não pode se limitar apenas aos diplomados. Para escrever sobre culinária, história ou ciência, não é preciso ser formado em jornalismo. Pessoas que têm algum conhecimento especializado também escrevem para jornal e dão uma importante contribuição. Mas que fique claro que não são jornalistas, e sim pessoas que escrevem para jornal. Agora fazer o jornal é coisa bem diferente. Há uma arte e uma sabedoria em todo o processo, da pauta à edição. O profissional que vai apurar, entrevistar, conduzir e escrever um texto precisa de uma técnica, é necessário que tenha uma formação acadêmica especializada.

» Editora PUC-Rio: O que é necessário para ser um bom jornalista: talento ou vocação?

Álvaro Caldas: As duas coisas são necessárias, mas não só para o jornalismo. Para desempenhar qualquer atividade é preciso ter um pouco de dom, mas este talento pode ser treinado. Um pianista treina oito, dez horas por dia. E a mesma coisa se aplica a um jornalista. Para fazer um bom texto jornalístico segue-se uma técnica, exige-se um certo discernimento, uma visão apropriada. Não basta ser poeta ou escritor. Mas as redações costumam contribuir para a formação de bons escritores.

» Editora PUC-Rio: Como surgiu a ideia de se fazer o livro Deu no Jornal?

Álvaro Caldas: Surgiu a partir de uma conversa com o professor Fernando Sá, da necessidade de fornecer aos estudantes e focas na profissão um texto básico de orientação, feito por especialistas, por pessoas do ramo. Com a vantagem de que são todos professores, e que, portanto, dispõem também de um tempo de meditação, de reflexão crítica sobre o que se passa no mundo real das redações. É um livro que ajuda na formação dos alunos, e pelo que sei, tem tido uma aceitação satisfatória tanto na PUC-Rio como em outras faculdades, Brasil afora. O livro cobre toda a variada gama da mídia impressa, até a chegada da Internet e do jornalismo online, e se constitui num valioso instrumento, técnico e teórico, para que os jovens profissionais possam enfrentar o mercado.

» Editora PUC-Rio: Qual seria o diferencial dele em relação aos outros livros que abordam o jornalismo?

Álvaro Caldas: Existem bons livros sobre jornalismo. Relatos de experiências pessoais, relatos de grandes reportagens, as empresas editam seus manuais de redação. Mas há um aspecto em Deu no Jornal que o torna inovador. Não pretendemos inventar nada, mas o livro possui uma concepção original. Seus autores, experientes profissionais e professores, pretendem contar em seus ensaios a história de como são feitos o jornal e a revista, com os ingredientes da simplicidade, da profundidade, do ceticismo e da paixão, valores que sempre caracterizaram o bom jornalismo. Que, claro, não pode prescindir da ética, especialmente nesses tempos turvados pela globalização, em que tudo é permitido, desde que o mercado sancione.

» Editora PUC-Rio: Dizemos que a imprensa é o quarto poder. Como você analisa o papel dela nos dias atuais? Quais foram as principais mudanças na imprensa nesses últimos tempos?

Álvaro Caldas: Continua poderosa, faz e desfaz reputações, derruba governos. Mas menos democrática, mais arrogante e manipuladora. Dois grandes processos contribuíram para as mudanças. O primeiro está ligado à questão da alta tecnologia que os meios de comunicação adquiriram, seguida da formação de poderosos grupos de comunicação multimídia. Depois, o aparecimento do on-line transformou a maneira de lidar com a informação e de fazer jornal. Hoje, a tecnologia tornou tudo mais prático e, sobretudo rápido, pois se edita um jornal com grande facilidade. Ainda há pouco tempo, coisa de 15 anos, o processo era vagaroso e artesanal, o fechamento dos jornais acontecia à meia-noite. Os profissionais saíam para continuar falando sobre jornal no bar e só voltavam no dia seguinte depois do meio-dia. Fase do romantismo e da boemia. Atualmente o jornal fecha às 19h e no dia seguinte cedinho as atividades estão recomeçando. As matérias ficaram cada vez mais ralas e superficiais, porque as equipes são menores, dispõem de menos tempo para trabalhar. Se havia 40 repórteres na "Geral" de uma redação, agora são somente 20, trabalho dobrado. Essa correria tirou a grandeza do jornal. Não há tempo para se aprofundar na elaboração, destacar um repórter para trabalhar "full time" numa reportagem. Por outro lado, o on-line permite acesso a tudo o que está acontecendo em tempo real. Quem assistiu ao noticiário noturno na TV, percebe que há apenas uma complementação da informação. Os jornais precisam repensar sua atividade, e voltar a discutir as grandes questões em profundidade. É isso o que os leitores esperam. Hoje estamos correndo o risco de ficar apenas com um grande jornal de circulação nacional no Rio de Janeiro - o que é uma lástima se compararmos com quatro décadas atrás, quando havia uma dezena deles. Para se manter economicamente, uma grande empresa jornalística tem que dispor de Internet, TV, rádio, jornal impresso e revista. E mesmo assim, estão todas endividadas, algumas em precária situação. Esse processo vai transformando os repórteres em "provedores de conteúdo", obrigados a produzir textos rapidamente para mídias diferentes, sem condições de aprofundar o assunto. Vejo isso com tristeza. Os profissionais precisam reagir, enfrentar o desafio de preservar os valores do bom jornalismo.

» Editora PUC-Rio: Quais são seus próximos projetos?

Álvaro Caldas: Ainda estou muito agitado com o relançamento do Tirando o capuz, que me fez deparar novamente com fantasmas que considerava sepultados. A releitura do texto e os novos relatos me trouxeram uma grande perturbação. Esta quinta edição traz duas histórias novas, surgidas dele mesmo, de seus personagens. Tantos anos depois, filhos de militares acusados de envolvimento com a tortura vieram me procurar em busca da verdadeira história dos pais. Um deles, filho de um tenente expulso do Exército na época, encontrou uma informação sobre o pai num site de buscas na Internet. O rapaz ficou arrepiado ao verificar que o pai estava citado no Capuz. Ele começou a desvendar o misterioso passado do pai durante a ditadura e o livro ganhou um novo capítulo. A outra história ainda é mais curiosa, porque trata da reabilitação de um oficial da Marinha citado como torturador no livro e fora dele. Na verdade não era, seu nome foi usado por outro oficial. Para este ano estou na expectativa da adaptação para o cinema do Balé da utopia (Objetiva, 1993) - uma ficção também ambientada nos anos de chumbo. São três personagens fechados numa cabine de trem, vendo o mundo sonhado desmoronar à sua volta. Os direitos de filmagem foram comprados pela produtora de Luis Carlos Barreto. Projetos são os de sempre, aulas e escrever. Ainda é cedo para saber o que está em gestação. Não preciso mais fazer uma ou mais reportagens por dia.

 


Publicado em: 26/08/2015





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