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Entrevista com autor

Andréia Clapp



A professora e pesquisadora do Departamento de Serviço Social, Andréia Clapp, lança o livro Ação Afirmativa na PUC-Rio: a inserção de alunos pobres e negros. O livro trata da trajetória das políticas de ação afirmativa no ensino superior, com destaque para aquelas destinadas à inclusão de estudantes negros e pobres. Andréia Clapp usa como objeto de estudo o programa da PUC-Rio de Pré-vestibular para Negros e Carentes (PVNC), cujo sucesso antecipa em 15 anos o surgimento do PROUNI.

Em entrevista para a seção Autores do site da Editora PUC-Rio, Andréia Clapp conta as dificuldades que os primeiros alunos do projeto de pré-vestibular tiveram quando ingressaram na faculdade. A autora relata a emoção de ver esses alunos trabalhando nas áreas em que se formaram e destaca também o preconceito racial que ainda ocorre nos dias atuais.

» Qual foi a sua motivação para escrever o livro?

A origem desse livro é minha tese de doutorado do Departamento de Serviço Social. O que me motivou de verdade foi o fato de ser professora de um departamento e ter vivido a implementação dessa política na PUC-Rio. Quer dizer, nós estávamos presenciando a política, mas na verdade não tínhamos a dimensão de como ela nasceu e de como se constituía. Acho que a motivação nasceu desse desejo de entender melhor e construir essa história, montar um quebra cabeça para entender a gênese da política.

» Seu trabalho é, em boa parte, voltado para a política de Ação Afirmativa. O que te fez ir para esse caminho?

Como assistente social, tenho um carinho especial com o trabalho comunitário. Ao mesmo tempo, achava curioso o fato de termos um número bem reduzido de negros, de indígenas e de estudantes oriundos de classe popular dentro das universidades brasileiras E isso me chamava a atenção, pois essas pessoas não tinham um lugar dentro das universidades. Trabalhar com serviço social me faz ficar atenta a esses grupos que não conseguem ter uma igualdade de oportunidade.

» E o que você acha desse programa de inclusão social hoje na PUC?

Eu acho um máximo! Na verdade, o que eu pude levantar na pesquisa de doutorado é que ele nasceu numa parceria entre o movimento social e a universidade. Quer dizer, o que é diferente na ação afirmativa da PUC é que vai nascer exatamente de uma ação do movimento social, que era o pré-vestibular para negros e carentes. O interessante é que surge de um movimento social e a universidade responde a essa demanda. Então, é uma parceria que surge.

» O que você acha que ainda falta nesse programa?

A ação afirmativa deixou de ser só uma ação para virar, hoje, uma política pública. Existe o PROUNI nas universidades privadas e reserva de vagas nas públicas. Então, é preciso ter uma maior visibilidade dessas políticas para que se possa ampliar o estudo e a discussão sobre o tema. Temos que discutir a perspectiva de acesso à universidade, mas também a de permanência. Não basta o estudante estar nas universidades públicas e privadas se ele não tem condição de se manter ali. Diante dessa política, a universidade, tanto o corpo docente quanto o administrativo, tem que se repensar enquanto instituição, políticas de acesso e de permanência.

» Como você vê a relação do aluno que passou por esse projeto do pré-vestibular com o aluno que não precisou entrar pelo programa?

Os ex-alunos que entrevistei foram os primeiros a ingressar na PUC-Rio. Eles entraram na universidade por volta da década de 1990, entre 1996 e 1997. É um perfil diferente dos alunos atuais do programa. Foram os primeiros. Chamarei esses de bolsistas militantes. Era um aluno 100% bolsista e que lutava por uma causa. Eles alteraram o nosso conhecimento em relação a eles, pois a universidade deixa de somente analisar questões da favela para poder ouvir de fato o próprio aluno. Isso altera completamente a dinâmica do ensino. Esse aluno passará a falar na universidade sobre determinados eventos culturais como o jongo, por exemplo. Isso quer dizer que deixamos de estar somente no lugar de estudiosos e passamos a ter essa troca de experiências com essas pessoas. A riqueza está aí. Essa proximidade nos enriquece. Há vários mundos no Rio de Janeiro, no Brasil. E ação afirmativa é isso: possibilitar a troca de experiências entre esses vários mundos. É uma oportunidade de aprender com eles e de permitir a mobilidade social. É um direito social.

» Qual é a maior dificuldade que esse aluno tem na universidade?

Segundo as entrevistas, os impactos e as dificuldades eram muitos. Eles apontam, por exemplo, o próprio espaço físico, o aluno e a dinâmica da universidade, pois os serviços são caros. As principais dificuldades foram essas da questão do fator econômico e a distância entre a casa do aluno e a universidade. Muitos alunos moram longe e levam até quatro horas para chegar. E como fazer para conciliar a faculdade e o trabalho? A PUC não estava preparada para receber esse aluno. As instituições de ensino superior estão preparadas para lidar com outro perfil de estudante. Então, é um processo de aprendizagem e mudança.

» A PUC trabalha ainda além da inclusão com outros aspectos da vida do aluno? Por exemplo, ela oferece subsídios para ele se manter na faculdade?

No começo do programa os alunos tinham mais dificuldades de se manter na faculdade, mas a PUC avançou muito nessa questão da permanência. Hoje, temos o Fundo Emergencial de Solidariedade da PUC-Rio (FESP) e há melhores condições de se manter na faculdade devido ao grande número de apoio. Essa questão da permanência é importante. Muitos alunos quando entram aqui vivem um momento muito difícil. Eles ainda não têm o benefício da permanência, ainda estão tateando, tudo é muito novo... Hoje a facilidade é maior, mas ainda se tem muito para fazer e avançar.

» E como é a vida depois da universidade?

Fiquei muito impressionada porque em todas as entrevistas os alunos disseram que saem da universidade e se empregam. E mais: se empregam nas carreiras que escolheram. Isso é bem animador! Eles destacaram a importância da PUC na vida deles. E isso é muito importante para a PUC!

» Você acha que a desigualdade social tem a ver com a racial?

Sim. O racial é um aspecto da desigualdade social. A desigualdade racial no Brasil ainda é muito grande, nosso país ainda é muito racista e preconceituoso. Mesmo tendo pessoas dizendo que não, ainda se tem sim a desigualdade racial nas relações pessoais.

» A PUC trabalha ainda além da inclusão com outros aspectos da vida do aluno? Por exemplo, ela oferece subsídios para ele se manter na faculdade?

No começo do programa os alunos tinham mais dificuldades de se manter na faculdade, mas a PUC avançou muito nessa questão da permanência. Hoje, temos o Fundo Emergencial de Solidariedade da PUC-Rio (FESP) e há melhores condições de se manter na faculdade devido ao grande número de apoio. Essa questão da permanência é importante. Muitos alunos quando entram aqui vivem um momento muito difícil. Eles ainda não têm o benefício da permanência, ainda estão tateando, tudo é muito novo... Hoje a facilidade é maior, mas ainda se tem muito para fazer e avançar.

» E como é a vida depois da universidade?» Você acha que a desigualdade social tem a ver com a racial?

Sim. O racial é um aspecto da desigualdade social. A desigualdade racial no Brasil ainda é muito grande, nosso país ainda é muito racista e preconceituoso. Mesmo tendo pessoas dizendo que não, ainda se tem sim a desigualdade racial nas relações pessoais.

» O que diferencia o projeto da PUC do de outras faculdades?

Um diferencial é que a PUC já vem implementando o projeto. Ela tem uma trajetória, uma vivência, que as políticas de outras universidades não têm. O próprio Frei David disse que o laboratório do PROUNI nasce na PUC. Isso é um ganho da PUC. Hoje estamos numa política pública, ela deixa de ser uma questão apenas da universidade para se transformar numa política pública, de governo federal. Ela hoje já tem outro corpo, outras regras, e que merece um outro estudo.


Publicado em: 26/08/2015





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