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Entrevista com autor

Beatriz Gang Mizrahi



Recentemente, Beatriz Gang Mizrahi concluiu o mestrado em Psicologia, cuja dissertação originou o livro A relação pais e filhos hoje - a parentalidade e as transformações no mundo do trabalho, publicado pela Editora PUC-Rio/ Edições Loyola. A obra trata dos impasses que o mundo globalizado traz para a família no que toca o relacionamento com os filhos e como o aumento das exigências no mundo do trabalho se traduz em grandes expectativas de performance educacional sobre as crianças.

A sobrecarga dos pais tem forte influência no atual modelo de educação infantil. Eles se dedicam cada vez mais ao trabalho na medida em que não contam com as garantias e a segurança de antes, numa árdua tentativa de conquistar ou manter suas posições. Mas como conjugar a vida profissional e uma relação viva e afetiva com os filhos?

Nesta entrevista à Editora PUC-Rio, a autora - doutoranda do Departamento de Psicologia da PUC-Rio - revela como a instabilidade na esfera produtiva invade a relação pais e filhos, comenta a elaboração de sua pesquisa e antecipa seus futuros projetos.

» Editora PUC-Rio: Qual é a sua linha de pesquisa atualmente? Que questões lhe motivaram?

Beatriz Gang Mizrahi: Terminei uma especialização em saúde mental infanto-juvenil, com uma questão que me intrigava: as crianças, em idade cada vez mais precoce, têm entrado na creche - um fato relativamente novo em se tratando da classe média. A creche, embora seja potencialmente um espaço rico de troca de experiências, onde cada família poderia não se sentir tão solitária diante da tarefa de cuidar das crianças, não chega em geral a exercer esse papel de comunidade.

Os pais são, muitas vezes, colocados numa posição passiva diante da figura do professor, do educador. A proposta que então me ocorreu foi a de aproveitar o espaço da creche para estabelecer uma maior comunicação entre as pessoas, um momento onde pudessem pensar juntas na educação de seus filhos, ao invés de simplesmente acatar a posição dos especialistas. Através de grupos de reflexão em algumas escolas, apresentávamos certos temas, por exemplo, o consumismo na infância, mas estes eram apenas pretextos para que os pais pudessem trocar as suas experiências. Desenvolvemos, simultaneamente, um trabalho também com os educadores. Elaboramos um curso sobre desenvolvimento infantil, oferecendo um espaço também para que os educadores pudessem compartilhar as suas experiências, diante de um olhar nosso, ou seja de gente de fora da instituição, o que complementaria o olhar deles que também é muito importante. Quando elaborei o projeto de mestrado, levei em consideração o tema do trabalho porque ele era muito recorrente na fala dos pais e dos educadores. Muitos pais procuravam a creche em meio à intensa demanda de trabalho. Vários deles esperavam que essa instituição estimulasse a autonomia infantil, que já devesse preparar a criança desde muito pequena para as experiências difíceis que enfrentaria um dia no mercado de trabalho. Cheguei agora ao doutorado, e estudo a questão da cultura dentro do pensamento de Winnicott - psicanalista que permite uma crítica às exigências atuais de uma autonomia absoluta, na medida em que pensa a "independência" como uma experiência relativa, que pressupõe paradoxalmente o bom suporte ambiental.

» Editora PUC-Rio: Qual seria o diferencial do livro "A relação pais e filhos hoje - a parentalidade e as transformações no mundo do trabalho"?

Beatriz Gang Mizrahi: O mundo do trabalho, desde a modernidade concebeu a família nuclear como se o seu funcionamento estivesse dissociado dos outros campos coletivos de interação. Na medida em que foi colocada para a família toda a responsabilidade sobre os filhos, ela foi invadida por um espaço público desvalorizado, ocupado pela impessoalidade do mercado. Esse mundo público reduzido ao econômico, impõe à família o que ela tem que fazer com a criança para formar um futuro trabalhador e consumidor. É aí que entra o especialista, os serviços, o consumo, regulando o exercício da parentalidade. Parece então que o diferencial do livro A relação pais e filhos hoje está na proposição de uma dimensão criativa dessa parentalidade, que não pode ser pensada universalmente. Para isso, é preciso recolocar a parentalidade no diálogo com a esfera pública: que mundo queremos para nossos filhos e para nós? Ao invés de essa resposta ser dada de fora, a partir das exigências do mercado.

» Editora PUC-Rio: Como espera que o livro possa contribuir para pensar as atuais relações familiares?

Beatriz Gang Mizrahi: Talvez seja interessante considerarmos que a parentalidade pode ser uma experiência mais ampla, que diz respeito ao cuidado a um outro também no campo social e à satisfação que isso nos traz. Para assumirmos de forma singular e criativa o papel de cuidadores é preciso compartilhar essa experiência no espaço público. A riqueza da esfera íntima pressupõe que exista um espaço social também rico de trocas afetivas, o que depende de uma certa estabilidade no mundo do trabalho, que hoje, ao contrário, se precariza totalmente. Para que possamos nos retirar às vezes do mundo lá fora para o espaço doméstico, por exemplo para cuidarmos de nossos filhos, é preciso que esse mundo "sobreviva", ou seja, que nos ofereça alguma segurança. Ninguém pode ter intimidade com os filhos ou com o parceiro amoroso se vive com medo de perder o emprego. Só um movimento de troca entre a esfera pública e a privada pode permitir que a parentalidade se torne uma experiência rica, e não uma mera imposição na vida de cada um. Se me retiro do mundo, voltando-me para a minha própria intimidade, para ser pai e mãe do meu jeito, ganho também quando posso retornar à esfera social e recriá-la. O livro é uma aposta de que podemos colher bons frutos, se começarmos a ver a parentalidade dessa outra maneira.

» Editora PUC-Rio: O que é a parentalidade e qual o sentido político que pode ser atribuído ao termo?

Beatriz Gang Mizrahi: A parentalidade seria um anseio que qualquer um de nós pode ter de recriar o cuidado que recebeu ou recebe de seus pais e do mundo. Tornar-se pai ou mãe, é uma das formas de assumir ativamente o papel de "cuidador", e isso pode ser gratificante. Esta ideia precisa ser pensada de forma ampla - pois a atenção não precisa ser destinada somente aos filhos, mas pode ser direcionada para um grupo, um amigo, ou o filho de um parceiro amoroso, por exemplo. Essa dimensão criativa da parentalidade depende do suporte e do diálogo também com os espaços externos à família que compõem a sociedade.

» Editora PUC-Rio: Os pais crêem na eficácia da escola ou creche em suprir deficiências ou complementar a educação familiar?

Beatriz Gang Mizrahi: Os pais delegam essa responsabilidade para a escola sim. Principalmente porque estão bastante sobrecarregados no trabalho. Por outro lado, quando fazem isso, muitas vezes também esperam que a escola possa fazer essa criança vir a corresponder, no futuro, a um determinado modelo de trabalhador, o que hoje pressupõe lidar sozinho com as coisas. Esperam que a criança possa ser autônoma, independente, e que possa se ajustar à qualquer mudança no ambiente, conforme as exigências atuais da chamada "flexibilidade" no trabalho. Mas precisamos lembrar que não se trata de culpar os pais, pois essa situação tem sido muito difícil para todos.

» Editora PUC-Rio: Quais são as principais transformações que têm ocorrido na família brasileira?

Beatriz Gang Mizrahi: A família nuclear não é mais a referência principal. No entanto, ao mesmo tempo, essa mudança também se relaciona com certas mudanças no mundo do trabalho. O sujeito hoje é tanto "melhor" profissional quanto mais livre de vínculos estiver para poder viajar a trabalho, morar fora e estar completamente disponível para os clientes. É como se quaisquer vínculos estáveis comprometessem essa suposta liberdade. Coloco uma outra questão: será que essas mudanças na família trouxeram invariavelmente a liberdade ou colocaram também uma exigência de que você não se vincule a nada nem a ninguém? Isso não significa que tenha que haver um retorno àquela família nuclear e fechada em si mesmo... Acho que esse modelo se constituiu, em determinado momento da história, para servir a um certo funcionamento do capitalismo que hoje já não é mais o mesmo... Ainda há outros casos que exemplificam essas transformações familiares. Hoje alguns casais com filhos acabam tendo que morar com seus próprios pais porque está difícil sustentar uma família. As avós, por outro lado, outrora disponíveis para cuidar de seus netos, também estão na mesma correria.

» Editora PUC-Rio: Como o trabalho, ou a ausência dele, influencia na relação entre os membros de uma família?

Beatriz Gang Mizrahi: Pelo que observei existe sim um desamparo muito grande nessa esfera do trabalho, no sentido de que cada um hoje deve encontrar sozinho o seu próprio lugar. Então, cria-se uma exigência de que a criança, desde muito cedo, aprenda também a bastar-se sozinha. A concepção da criança como aquela que precisa de cuidados, parece estar enfraquecida. A família, desde a era moderna, tornou-se responsável por formar o trabalhador desde a infância. Entretanto, quando surgiram certas proteções sociais ao longo do século XX a contradição entre a função protetora da família com as crianças e o mundo do trabalho para o qual se preparavam não foi tão grande. A partir do momento que houve maior desproteção nesta esfera produtiva, acirraram-se as diferenças entre o íntimo protetor e o externo desprotetor, sendo até mesmo difícil hoje sustentar a ideia de infância. Hoje se pensa que a "melhor" forma de "proteger" a criança é desprotegê-la o quanto antes. Daí toda a popularidade da ideia de que o que falta aos pais é "colocar limite". Mas a própria ideia do limite implica uma participação, uma presença. Tenho certo cuidado ao utilizar a palavra limite, pois acho que em geral se pensa o limite como aquilo que cerceia. Podemos pensar ao contrário que "limite" é aquilo que o adulto coloca como resistência para permitir a criatividade da criança, e que também pode auxiliá-la a se posicionar, a tornar-se um ser diferente, distinto dos pais. Mas como os pais vão oferecer resistência a qualquer coisa se estão tão passivos diante do mercado de trabalho? Se os próprios adultos não podem se organizar, se queixar e não têm tempo para ouvir, como é que podem dizer "não" para a criança? Dizer "não" implica em ouvir a criança, permitir o seu posicionamento ainda que isso não implique em ceder.

» Editora PUC-Rio: A entrada da mulher no mercado de trabalho provocou profundas mudanças no desenvolvimento da família. Até que ponto isto alterou o desenvolvimento/ crescimento dos filhos? Ainda existem aquelas mães que sentem remorso e culpa por trabalharem fora?

Beatriz Gang Mizrahi: A família é cada vez mais responsabilizada pela criação dos filhos. Sem contar com apoio social, muitas vezes os educadores enfatizam a culpa. Porque se os pais trazem toda uma riqueza de dificuldades para eles em relação a conciliar trabalho e filhos, o que escutam de volta é que cabe somente a eles a tarefa de administrar o tempo e de impor limites aos filhos. Não se pensa que os pais precisam de um contexto no qual esse cuidado possa se realizar.

» Editora PUC-Rio: O que é melhor para a mãe que trabalha fora: deixar o filho na creche, com a avó ou com uma babá?

Beatriz Gang Mizrahi: Tento evitar fechar uma questão como essa, pois cada criança e cada relação são únicas. O melhor lugar para deixá-la é, em geral, naquele ambiente no qual os pais se sentem também ouvidos. A criança precisa ter a sua singularidade respeitada e, para isso, os pais são importantes porque conhecem seus filhos há mais tempo. Algumas creches podem muito bem, dentro das suas limitações, tornar-se acolhedoras, por exemplo, respeitando a relação criança/berçarista, dispondo de mais pessoas disponíveis para atendê-la. Mas isso pode incluir maiores gastos, sendo preciso questionar o caráter empresarial da creche.

» Editora PUC-Rio: Como se escolhe uma boa creche, uma boa escola? Que requisitos ela deve ter?

Beatriz Gang Mizrahi: Penso, por exemplo, que é importante verificar o número de berçaristas por criança. Se ela vai ter que disputar uma berçarista, configura-se, desde o início, uma relação de disputa semelhante à do mercado de trabalho. Do mesmo modo, é preciso observar se a creche não vai sobrecarregar a criança com um exagerado número de atividades. Não seria mais rica uma creche onde as atividades fossem menos dirigidas e que não houvesse um excesso na proposição de tarefas?

» Editora PUC-Rio: Essa busca por conhecimentos/ informações também já atingiu as crianças. É saudável fazer várias atividades extraclasse (judô, balé, inglês, espanhol, informática, música, etc) ao mesmo tempo? Na ânsia de ver os filhos bem preparados para o mercado de trabalho, não fica faltando tempo para as crianças brincarem, ou serem simplesmente crianças?

Beatriz Gang Mizrahi: É como se a criança fosse sempre interrompida, ela propõe algo e o adulto logo já chega para dirigi-la. As brincadeiras começam a parecer uma linha de produção e é necessário fugir disso. Falta tempo sim, para que elas sejam simplesmente crianças, de modo que o espontâneo possa fluir, um espontâneo que por sua vez não equivale ao inato, mas que já é fruto das relações humanas. Parece que até as brincadeiras de hoje se tornaram um trabalho, naquele sentido de uma obrigação imposta de fora. Um exemplo pode ser observado nas festas infantis. Há um animador que conduz as brincadeiras, que faz as propostas e que "direciona" as crianças. Antigamente, havia uma mesa com o bolo, música e alguns balões. E as crianças sempre souberam o que fazer...

» Editora PUC-Rio: Como você avalia o acúmulo de funções da mulher moderna?

Beatriz Gang Mizrahi: Tem um autor, Cristopher Lasch, que nos fala que a família foi considerada a grande culpada pela opressão feminina e que isso não levou a uma transformação mais ampla. Por que não culpar o mercado de trabalho que não tem permitido a homens e mulheres o tempo e a disponibilidade para seus filhos? Doar-se para um filho não precisa ser um peso em relação a um suposto anseio egoísta universal que levaria a mulher a desejar, sobretudo, a sua ascensão profissional. Cuidar de um filho também pode ser enriquecedor.

» Editora PUC-Rio: Quais são seus próximos projetos?

Beatriz Gang Mizrahi: Prossigo com o trabalho que desenvolvo em escolas e tenho esperança de que ele possa crescer mais, futuramente. No momento sou eu e mais três colegas, mas esperamos ampliar o trabalho. Não só os educadores, mas também os pediatras estão se deparando com questões novas que tocam a criança no contexto contemporâneo, desde como a "febre" do consumo tem atingido a infância, até um maior número de meninas que menstruam e desenvolvem-se mais cedo. Gostaríamos de trocar experiências com novos grupos de pais e educadores, e com outros profissionais que lidam com as crianças.


Publicado em: 26/08/2015





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