consulta avançada
Brasão da PUC-Rio

Entrevista com autor

Carlos Augusto Peixoto Junior



Singularidade e subjetivação: ensaios sobre clínica e cultura (Editora PUC-Rio/7Letras) é uma proposta de liberdade. Baseado na frase de Foucault – “as pessoas são muito mais livres do que pensam ser” –, Carlos Augusto Peixoto Junior (Psicologia, PUC-Rio) quis mostrar, no livro, que os psicanalistas também podem ser mais livres do que acreditam ser.

Em sua obra, o autor confronta a psicanálise com vertentes de pensamento críticas em relação a ela, abordando temas atuais, entre eles as identidades sexuais, os gêneros e o desejo. A partir de ideias de filósofos contemporâneos como Deleuze, Guattari e o próprio Foucault, procurou repensar questões que se tornaram tabus entre os psicanalistas, com o intuito de afastá-las de posturas dogmáticas.

Nesta entrevista, Carlos Augusto Peixoto Junior demonstra preocupação com o diálogo entre clínica e cultura e afirma que, para sobreviver, a psicanálise precisa abrir seu campo de visão para os novos modos de subjetivação do mundo contemporâneo.

» Editora PUC-Rio: Como as diferentes correntes do movimento psicanalítico se apresentam hoje?

Carlos Augusto: Existem três grandes tendências na psicanálise: a freudiana, a kleiniana e a lacaniana. Todas me parecem bastante dogmáticas. Se você pensar alguma coisa fora disso, dizem que você não está fazendo psicanálise. Porque, se está fazendo psicanálise, em primeiro lugar, você tem que ser estritamente freudiano. E tanto Klein quanto Lacan se consideram fundamentalmente freudianos. Eu não acredito que, para a psicanálise sobreviver, ela tenha que se manter arraigada em uma tradição. Essa tradição pode ser revista. A questão da liberdade passa pela possibilidade de pensar psicanaliticamente de forma diferente, relendo criticamente determinados conceitos, a partir de autores importantes da história do pensamento que tentaram dialogar com a psicanálise.

» Editora PUC-Rio: Em que momento a psicanálise começou a dialogar com outras áreas do saber?

Carlos Augusto: O diálogo da psicanálise com outras áreas do saber é antigo. Quando Freud inventa a psicanálise, ele já está conversando criticamente com a psiquiatria e com a neurologia. Nessa época, existia o chamado Grupo das Quartas-Feiras, que se reunia, nos primórdios da psicanálise, para estudar autores de outras áreas como a filosofia e a psiquiatria. Já no começo do século XX, depois de criada a psicanálise, Freud continua a ler filosofia, às vezes citando Kant ou algum filósofo antigo. Seu interesse pela literatura aparece com citações de Goethe. Também escreveu um trabalho sobre o narcisismo em torno de Leonardo da Vinci, um pintor, um esteta, um pensador. Então, outras áreas do saber sempre estiveram presentes na psicanálise.

» Editora PUC-Rio: Qual a contribuição desse diálogo com outras áreas do saber para a psicanálise?

Carlos Augusto: O diálogo com outras disciplinas contribui para a psicanálise se repensar e compreender o momento em que está sendo construída, assim como para que ela possa considerar diferentes modalidades de subjetivação e entender o conceito de subjetividade anterior e contemporâneo a ela. Dialogar com outros saberes é procurar enriquecer a teoria psicanalítica e, ao mesmo tempo, ampliar espaços de pensamento. Sem isso, a psicanálise tende a se tornar dogmática. Aliás, em muitas escolas de psicanálise, isso aconteceu. Meu livro é uma tentativa de encontrar saídas para esse dogmatismo, para a suposição de que a psicanálise é um saber com tal especificidade que seria preciso fechá-la nela mesma. Para mim, isso é um problema.» Editora PUC-Rio: O senhor afirma que determinados temas e conceitos passaram a ser tabus entre os psicanalistas. Que temas são esses e por que viraram tabus?

Carlos Augusto: Existem determinados conceitos que certos psicanalistas consideram indiscutíveis ou inquestionáveis, o que alguns chamam de conceitos fundamentais, sem os quais não haveria propriamente uma abordagem psicanalítica. O principal conceito que coloco em questão é o complexo de Édipo. Freud discute a ideia de tabu, em Totem e tabu, em que se percebe que a própria construção da sua concepção de sociedade é muito marcada pelo complexo de Édipo. Édipo tornou-se uma espécie de matriz conceitual sem a qual não se poderia abordar os mais diversos fenômenos, seja da clínica, seja da cultura. Meu problema é essa espécie de necessidade impreterível de referência a Édipo para se compreender a subjetividade. Isso tornou a psicanálise um saber às vezes restrito demais a certo “familialismo”. A centralidade do Édipo tem muito a ver com o momento freudiano. A aurora do século XX, herdeira da tradição do século XIX, inevitavelmente levava Freud a pensar em termos da relação triádica mãe, pai, criança. A partir daí, começou-se a achar que a psicanálise não poderia existir sem a constante referência ao Édipo.

» Editora PUC-Rio: O senhor afirma que a psicanálise passou por diversas mudanças e crises desde sua criação por Freud, mas que suas reformulações se restringiram ao problema da clínica e não levaram em consideração as mudanças no âmbito da cultura. Qual a importância de a psicanálise considerar as mudanças na cultura?

Carlos Augusto: O problema não é priorizar a clínica, mas sim o tipo de clínica de que se trata, e como ela é entendida. Eu acredito que há duas questões aí ligadas: uma concepção de subjetividade e uma concepção de clínica. A tendência, em muitas teorias da psicanálise, foi pensar a subjetividade a partir de um ponto de vista que chamamos de metapsicológico, excessivamente interiorizado. Existiria uma espécie de dinâmica psíquica interna, própria do sujeito, e que deveria ser pensada enquanto tal. Concebeu-se uma clínica que coloca em segundo plano uma série de fatores históricos, sociais e culturais que têm grande influência nas diferentes formas de sofrimento, seja psíquico, emocional ou corpóreo. Não é que a psicanálise não tenha uma teoria da cultura. Na obra de Freud, há textos que são considerados sociais ou antropológicos. O próprio Totem e tabu é um deles, além de Psicologia de grupo e análise do ego, O mal estar da civilização e Futuro de uma ilusão. Todos esses são tentativas, na parte final da obra de Freud, de pensar a cultura. Mas isso foi pouco desenvolvido posteriormente, pelos chamados pós-freudianos.

» Editora PUC-Rio: Que temas foram priorizados pelos pós-freudianos?

Carlos Augusto: Deram mais importância à clínica do chamado “sujeito”. O conceito de sujeito é também problemático, porque lembra uma concepção excessivamente cartesiana. Eu acredito que a dinâmica psíquica interna está, a todo momento, em situação de agenciamento com o mundo. Há teorias em psicanálise que privilegiam não estritamente isso que chamamos de metapsicologia, pulsão ou fantasia, mas que dão importância à relação com o ambiente. Pensar uma subjetividade aberta para o ambiente já possibilita uma perspectiva que me parece mais interessante, mesmo que esses autores, como Sándor Ferenczi, Michael Balint e Donald Winnicott, sejam clínicos.

» Editora PUC-Rio: Em seu livro, o senhor inclui temas atuais do âmbito da cultura, como as identidades sexuais, a definição de gêneros ou a concepção de desejo. Como o pensamento de filósofos contemporâneos teria, então, modificado o campo psicanalítico no que diz respeito a essas questões?

Carlos Augusto: Deleuze e Guattari falam de “produção desejante”. Esse conceito tem a ver com a produção de subjetividade, que é resultado de determinado modelo de produção econômica em uma sociedade. Ou seja, a “produção desejante” é uma positividade que se impõe a partir de um modelo de sociedade, que inclui economia e cultura. Ela é, portanto, uma tentativa de reler o conceito de desejo clássico na psicanálise, que tende a ser concebido em função da negatividade. E, com o questionamento do Édipo, esses autores tentam abrir o campo psicanalítico para pensar em novas sexualidades que não as dominantes. Algo como essa “produção desejante” também está muito presente na obra de Foucault. Em História da sexualidade, Foucault tenta pensar alternativas de prazer que colocam em questão uma modalidade de gênero dominante, heterossexual. A psicanálise clássica acabou criando modelos quase normativos do que seja masculino e feminino, e isso novamente a partir do Édipo. A grande questão é colocar a psicanálise em diálogo com esses autores, para que ela possa acompanhar as novas sexualidades, as novas modulações do gênero, que se afastam dessa heterossexualidade dominante, fundada prioritariamente em uma concepção de sexualidade fálica, em que o dominante é o masculino. O feminino sempre foi tido como uma derivação do masculino, e a normatividade sexual faz de qualquer tipo de sexualidade que não a hetero pervertida, desviante. Eu faço uma crítica desse tipo de abordagem.

» Editora PUC-Rio: Como a questão das sexualidades se desenvolveu no campo do pensamento psicanalítico?

Carlos Augusto: Até o início dos anos 1970, muitos psicanalistas consideravam que a homossexualidade era uma perversão, e que sua cura era a heterossexualidade. A psicanálise, a princípio, se propõe a fazer uma crítica dessa visão excessivamente normativa da sexologia psiquiátrica do século XIX, mas, em um segundo momento, começa a criar algo como uma nosógrafia estrutural, com a concepção de perversão. Deleuze, Guattari e Foucault sempre estiveram atentos a movimentos minoritários, também no campo da sexualidade.

» Editora PUC-Rio: Quais são esses movimentos minoritários?

Carlos Augusto: Hoje, a questão não é mais só a homossexualidade. Também é pensar certas práticas sadomasoquistas, fetichistas, queer. São modalidades diversas de sexualidade que esses autores tentaram trabalhar, abrindo o campo para se pensar outros tipos de subjetividade. No âmbito do gênero ocorre a mesma coisa: há um movimento pós-feminista, com várias autoras americanas, inspiradas em Foucault, em Deleuze, em Guattari, que propuseram um feminismo que avança em direção a essa sexualidade ainda mais diversificada, a sexualidade contemporânea. Isso é, de novo, questionar o Édipo e tocar em assuntos que são tabus. Embora muitos psicanalistas digam: “não estou analisando o comportamento, estou analisando a fantasia”, em geral, a fantasia analisada é a de sujeitos que têm comportamentos considerados desviantes, tal como fetichistas e sadomasoquistas. Foucault, em uma entrevista, diz isso: “qual é o problema de uma relação sadomasoquista, quando se pode considerar que haja um acordo entre duas pessoas em relação a uma modalidade específica de prazer como essa, que implica em certa dor, mas que traz satisfação para aqueles que querem desfrutar dela? Por que isso tem que ser entendido como perversão?”. Isso só é entendido como perversão à medida que se supõe que existe um tipo de prazer normal. Freud fez muito bem a crítica da relação entre sexualidade e reprodução. Isso não está mais em questão. Já é aceito que o prazer possa ser obtido com autonomia em relação à reprodução. Agora, determinados tipos de prazeres são aceitos e outros não. É preciso abrir o campo de visão, senão, daqui a pouco, os psicanalistas vão virar uma espécie polícia de costumes. A intenção não deve ser essa. Não temos que classificar tudo aquilo que é estranho. A psicanálise foi criada justamente para lidar com o estranho de forma não policialesca.

» Editora PUC-Rio: Como Freud abordava a questão das diferentes sexualidades?

Carlos Augusto: Freud oscila muito em sua obra. Há momentos em que ele fala do polimorfismo, da multiplicidade sexual possível. Em outros momentos, apega-se a uma norma centrada na primazia do masculino e da heterossexualidade. Freud é muito dúbio em relação a isso. E muitos dos pós-freudianos acabaram radicalizando a ideia de que a sexualidade é resultado apenas de uma elaboração da castração e da posição fálica, no que se refere tanto ao feminino como ao masculino. Ou seja, o feminino acaba sendo visto, mais uma vez, como uma derivação negativizada do masculino. Isso é ater-se a heterossexualidade como norma.

» Editora PUC-Rio: Como o senhor acredita que será o futuro da psicanálise?

Carlos Augusto: Os analistas fazem essa pergunta entre si o tempo todo, mas ela aparece de outra maneira. É assim: será que a psicanálise vai sobreviver? Eu acredito que mais importante do que considerar qual é o futuro da psicanálise é repensá-la e mantê-la em movimento. Eu acho que a psicanálise sobrevive. Mas talvez, para sobreviver, ela tenha que passar por mudanças, porque a história muda, a sociedade muda. É muito difícil querer manter, nos mesmos termos, determinadas concepções que foram estabelecidas no final do século XIX, início do século XX. Muita coisa aconteceu, a subjetividade se transformou, as relações sociais são outras, a própria concepção de família que se tem hoje é completamente diferente da que se tinha antes. Não adianta dizer “mas o Édipo não é propriamente a família”. Não é. Mas as funções que estão por trás da dinâmica psíquica edipiana têm, inevitavelmente, alguma relação com as identificações que, a princípio, se dão no seio familiar. Se a psicanálise não acompanhar esse tipo de transformação, não é que ela não vá sobreviver, mas se tornará um tipo de pensamento pouco interessante.

» Editora PUC-Rio: Quais são seus próximos projetos?

Carlos Augusto: Tenho um projeto de pesquisa, financiado pelo CNPq, que se chama “Corpo, afeto e subjetividade na clínica e na filosofia”. Por meio do eixo clínica-cultura, tento fazer a filosofia dialogar com a clínica psicanalítica. Só que, em vez de pensar em termos gerais, abordo, em termos locais, o corpo e o afeto. Durante muito tempo, a psicanálise, a partir de uma leitura estruturalista do inconsciente, deu ênfase excessiva ao discurso, à fala, à palavra, ou seja, à representação. Com isso, o corpo e o afeto, temas que me parecem extremamente importantes no que diz respeito ao sofrimento contemporâneo, foram deixados em segundo plano. Meu projeto atual é trazê-los para o primeiro plano. O corpo é um espaço de afetação, os corpos afetam uns aos outros. A dimensão da relação afetiva interessa para entender a cultura e a sociedade. Ao mesmo tempo, tenho interesse em fazer uma crítica do conceito de corpo que se tornou vigente na sociedade contemporânea: o corpo “saudável”, das academias, que se tornou uma espécie de parâmetro quase que autoritário e universal de subjetivação. Não é esse o corpo que interessa. A ideia é pensar o corpo como um campo de forças e como possibilidade de subversão desse modelo de corpos “prontos para usar”. Pensar corpo e afeto também é uma possibilidade de enfatizar o aspecto afetivo, perdido nesse tipo de corporeidade que é vendida e consumida.

 


Publicado em: 26/08/2015





Editora PUC-Rio
Endereço: Rua Marquês de S. Vicente, n° 225 - Praça Alceu Amoroso Lima, casa V (Casa Agência/Editora)
Gávea - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 22.453-900
Telefones:
55 (21) 3527-1838/1760

Endereço eletrônico:
edpucrio@puc-rio.br
Site desenvolvido pelo RDC