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Entrevista com autor

Daniel Mesquita



“Considero interessante o fato de Capistrano tentar desafiar os paradigmas vigentes na época”, destacou o professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio Daniel Mesquita em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital. Autor do livro Descobrimentos de Capistrano: a história do Brasil “a grandes traços e largas malhas”, da Editora PUC-Rio em coedição com a Editora Apicuri, o professor acredita que o historiador abriu uma possibilidade de pensar o Brasil de forma mais crítica.

Nesta entrevista, Daniel Mesquita relaciona a obra de Capistrano com a atualidade e ressalta seus principais aspectos. A interdisciplinaridade, a elaboração de uma história relacionada à população do interior do país e a valorização do sertão como uma questão a ser discutida são alguns dos assuntos ressaltados. A obra é resultado da tese de doutorado de Daniel Mesquita e analisa a produção historiográfica do cearense João Capistrano de Abreu (1853-1927). O professor recortou diálogos, por meio de cartas, de Capistrano com seus antecessores e contemporâneos. O pensador, dessa forma, procurou esclarecer uma série de questionamentos relacionados à estruturação do texto historiográfico.

» Portal PUC-Rio: Qual o maior legado de Capistrano para a história do Brasil?

Daniel Mesquita: Capistrano abriu uma possibilidade de pensar e de pesquisar o Brasil que era inexistente antes dele. Ele fez um esforço de interpretação da história do país, na virada do século XIX para o século XX, e começou a dar relevância, por exemplo, ao povoamento do interior e à formação da sociedade brasileira. A história do Brasil até aquele momento era mais relacionada aos governadores e aos grandes personagens ligados à administração. O historiador começou a fazer uma história relacionada a pessoas, às vezes anônimas, que povoavam o interior do país. Nesse sentido, Capistrano elaborou uma história mais social e econômica do que política e militar. Atualmente existem vertentes da história que vão nesse campo de estudo, da história econômica, social e até do cotidiano. Capistrano fez uma pesquisa profunda sobre o país que ainda hoje é relevante. Por exemplo, o capítulo que ele escreveu da história do Brasil no livro Capítulos de História Colonial sobre o povoamento do sertão é usado até hoje nos compêndios escolares.

» Portal: E qual maior legado dele para a historiografia atual?

DM: O legado principal dele é para a historiografia brasileira. Como estudioso da história, observei a crescente valorização do estudo historiográfico, ou seja, da produção dos historiadores. É um exame crítico do próprio historiador em relação ao seu campo do conhecimento como, por exemplo, analisar questões relacionadas ao que os antecessores escreveram, em que tempo e quais questões buscavam responder. Esse aspecto é interessante também na obra de Capistrano porque ele foi um dos primeiros a começar a elaborar análises desse tipo no Brasil. Os primeiros artigos historiográficos dele foram sobre Varnhagen, historiador brasileiro antecessor a ele.

» Portal: Qual o aspecto dos estudos de Capistrano que mais o fascina?

DM: Por vários aspectos considero Capistrano um historiador muito interessante. É, por exemplo, o primeiro que utiliza o método histórico, claramente identificado em suas obras. Capistrano é conhecido pela intelectualidade como aquele que introduziu uma nova maneira de abordar o estudo do passado a partir da crítica documental. Essa nova concepção da história se inicia com Capistrano e mobiliza estudos até hoje. Considero interessante também o fato de o historiador tentar desafiar os paradigmas vigentes na época. Ele se coloca como crítico da tradição, ou seja, filtra os valores passados.

» Portal: Qual a importância do estudo do sertão na obra de Capistrano?

DM: Essa questão é fundamental, inclusive porque naquele momento Capistrano não estava sozinho na valorização do sertão. A região era muito interligada aos grandes personagens e geograficamente ao litoral. Pouco se estudava os acontecimentos do interior do sertão. O historiador começa a chamar a atenção para a região como uma questão a ser pensada. Pensou, por exemplo, a maneira que ocorreu a formação da sociedade local. Os contemporâneos de Capistrano, como Euclides da Cunha e João Batista Ribeiro, eram intelectuais que também tomaram o sertão como espaço significativo, formador da nacionalidade e que muitas vezes não estava sendo levado em consideração, estava na sombra.

» Portal: Capistrano estudava a história do Brasil sob um prisma cientificista e nacionalista. Na sua opinião, os historiadores atuais têm muito em comum com Capistrano?

DM: Acho que essa questão em relação à nacionalidade e à identidade brasileira é uma questão que sempre aparece em debate. Então, é importante tentar entender como Capistrano, no momento dele, articulou as questões pertinentes da época. Atualmente, inclusive, o cientista social e escritor Gilberto Freyre foi recuperado na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. O evento discutiu também o tema da identidade brasileira. Outro aspecto dos estudos de Capistrano que chama atenção, dos temas que ele elegeu como importantes, é o olhar mais voltado para a sociedade. Capistrano esqueceu os grandes homens, os grandes vultos do passado. O pensador não glorificou o passado. Essa atitude crítica dele é fundamental. O historiador tem que ser crítico para não ter uma atitude ingênua em relação ao passado ou às versões que estão consolidadas do passado. Capistrano tinha essa perspectiva crítica.

» Portal: Capistrano discutia seus estudos com diferentes pensadores, como o historiador e diplomata Barão do Rio Branco. De que forma esse diálogo contribuiu para o aprimoramento de Capistrano?

DM: Essa questão pode ser considerada como outro aspecto da atualidade de Capistrano, porque a interdisciplinaridade é muito explorada no tempo presente. A história desenvolvida pelo pensador dialoga, por exemplo, com a antropologia e com a sociologia. A partir desse diálogo, a disciplina se enriquece. Capistrano fazia isso, é claro, em outro tempo e em outra circunstância. O pensador dialogava, por exemplo, sobre geografia com o Barão do Rio Branco. A história se consolida junto com outras ciências, no diálogo com a geografia, com a sociologia. Na época dele, os temas relacionados às matas, à questão territorial, aos mapeamentos, aos caminhos antigos e ao povoamento do Brasil recebiam destaque. Esses elementos enriquecem a formação de Capistrano. Ele se forma ao longo do tempo e dialoga. O historiador estava sempre procurando ferramentas de pensamento, que mobiliza ao longo de sua trajetória. São diferentes ferramentas ao longo do tempo.

 


Publicado em: 26/08/2015





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