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Entrevista com autor

Geraldo Zahram



   Os Estados Unidos, originados por 13 colônias britânicas, sofreram percalços no processo de unificação, principalmente na esfera política. Diante desse cenário, Geraldo Zahran constrói a narrativa de "Tradição liberal e política externa nos Estados Unidos". A obra tem origem na dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e vencedora do prêmio Franklin Delano Roosevelt de Melhor Dissertação de Mestrado (Embaixada dos EUA).

Uma das discrepâncias que marcam o crescimento norte-americano é o desenvolvimento ideológico referente à política externa. Zahran apresenta duas vertentes ao tema: idealista, no qual se observa uma política de boa vizinhança; versus realista, ações não altruístas para o desenvolvimento nacional. O autor oferece uma alternativa à relação bipartida entre realismo e idealismo ao interpretar essa política externa através da tradição liberal dos Estados Unidos. Em entrevista à Editora, Geraldo Zahram fala sobre a dinâmica entre as duas visões e de que forma elas influenciam as práticas políticas norte-americanas.



» Qual a importância de estudar a política externa nos Estados Unidos? O que te motivou a escrever e pesquisar sobre a política externa nos Estados Unidos?

Geraldo Zahram: A motivação vem dos meus anos de graduação e de um certo fascínio pelos EUA. Um país de história tão curta, mas de enorme projeção. Uma colônia britânica que em 200, 250 anos se tornou a maior potência de que se tem registro na história da humanidade. Este desejo de entender o processo histórico de desenvolvimento econômico e social dos EUA me levou a pesquisar mais sobre o país. Hoje em dia, a relevância dele é ainda maior.

Tivemos um período durante a segunda metade do século XX em que, praticamente, todas as ações políticas giravam em torno dos EUA, da URSS ou do confronto entre eles. Mesmo após o fim da Guerra Fria, a projeção dos Estados Unidos no sistema internacional ainda os mantêm hegemônicos na história mundial política e econômica.


» O subtítulo do livro é “um diálogo com interpretações realistas e idealistas”. O que são estas interpretações e como elas influenciam a política externa nos EUA?

Geraldo Zahram: Na verdade, o objetivo do livro é desconstuir estas interpretações realistas e idealistas e mostrar que existe uma síntese das duas na maneira que os EUA enxergam a política externa, chamada tradição liberal. A visão realista seria uma interpretação pragmática da política de poder, que pensa os Estados como atores racionais e egoístas e veem a sobrevivência como principal orientação da política externa. As visões idealistas interpretam que a política internacional não precisa ser um jogo de soma zero. Há outros elementos que caracterizam a política internacional como o respeito pelo direito internacional e a existência de valores comuns. As interpretações idealistas tendem a ser mais benignas.

Nos momentos iniciais da formação dos EUA sobrepuseram-se visões idealistas. O ápice dessa linha de pensamento foi Woodrow Wilson, presidente norte-americano que conduziu o país na Primeira Guerra Mundial afirmando que ela era fruto da política de poder dos europeus e que se a política fosse conduzida de maneira diferente haveria paz internacional. Na década de 1950, principalmente, aparece nos EUA uma visão de política externa vinda da Europa de que o posicionamento legalista dos EUA viria da experiência particular deles, isolados do continente europeu. Era defendido também que os norte-americanos deveriam, sim, praticar a política de poder sob o risco de serem sobrepujados pela URSS ou pela política internacional.   

No livro, me atenho a analisar como era feita a política externa dos Estados Unidos e mostrar que ela caminhava pelos dois espectros, tanto idealistas quanto realistas que fizeram com que eles tivessem um traço liberal norte-americano muito marcado.   


» De que forma e em que proporção a tradição liberal influencia a política externa nos Estados Unidos?

Geraldo Zahram: O argumento utilizado no livro é de que existe um liberalismo na sociedade e na política americana que impregna as faixas interna e externa do pensamento político do país. Nos Estados Unidos nunca houve um conservadorismo real de nobres proprietários de terra, mas também nunca houve uma tradição de esquerda trabalhadora sindical que pudesse contrapor o espectro. O argumento dos autores é de que os EUA sempre viveram em um grande centro político com posições um pouco mais conservadoras, um pouco mais liberais.

Através do livro, vou visitando os dois principais elementos deste liberalismo: um elemento religioso, da tradiçao dos puritanos, a ideia de sociedade escolhida e uma tradição política e econômica do iluminismo. A junção dos dois tipos de tradições intelectuais, a princípio universalistas, gerou uma tradição liberal nos Estados Unidos que afeta tanto a política doméstica quanto a externa.

Os EUA enxergam o mundo exterior sob as lentes da tradiçao liberal que lhe é muito particular. Meu esforço é mostrar que tanto políticos e teóricos realistas, como idealistas, carregam este mesmo veio liberal comum.

 
» No início do prefácio, são apresentados trechos dos discursos de Bush e Obama. Mesmo com conhecidas diferenças ideológicas entre republicanos e democratas, os discursos são semelhantes, e isto se repete em diferentes períodos políticos da história americana com outros presidentes. O que é próprio da política norte americana que aproxima estes discursos?

Geraldo Zahram: Uma parte da crítica de quem lê o meu livro é “você está tentando justificar um negócio muito simples, o idealismo e realismo na política americana são retórica pura, eles têm interesses econômicos, geopolíticos estratégicos muito definidos”. Aquelas duas citações são uma brincadeira com isto. Seria muito melhor se a retórica liberal fosse, de fato, apenas um discurso. Seria possível saber quem são os atores racionais por debaixo da teoria. Os fatos mostram que não é só retórica. Os tomadores de decisão nos EUA, efetivamente, pensam em termos de excepcionalismo, de tradição, de uma maneira de organizar sociedades que lhes é particular, mas tamém universal, que pode ser exportada e posta para funcionar em qualquer lugar do mundo.

Se observarmos os discursos dos democratas americanos hoje em dia, praticamente nenhum deles vai negar que a América é execepcional. À época que eu escrevia a primeira versão do livro, minha dissertação de mestrado, o George Bush filho havia acabado de invadir o Iraque sob este pressuposto. “O problema na Europa é a maneira como os europeus fazem política”. Os EUA vão para o Iraque 60 anos depois com a mesma justificativa, “o problema do Iraque é o Sadan, se existisse uma democracia ali, e nós sabemos como implementar uma, nenhum mal surgiria daquele país”. A crença exacerbada nos tais valores universais se repete tanto em administrações democratas, quanto republicanas, com mais ou menos ênfase, não, necessariamente, pela via militar, mas por acordos de comércio, programas de cooperação, uma série de outras iniciativas.

 
» No livro, você diz que poder e moral sempre estiveram presentes na política externa dos EUA. De que forma estes dois aspectos se manifestam?

Geraldo Zahram: Toda demonstração de poder, por exemplo, a ida dos EUA à primeira guerra mundial, vem acompanhada de um discurso que a justifica. “Os iranianos querem construir uma bomba atômica porque têm interesses egoístas, nós temos a bomba atômica como questão de segurança, o mundo confia em nós”. O período do Nixon é o único que apresenta distanciamento um pouco maior entre poder e moral, nos anos 1970. As ações político-econômicas eram justificadas mais pelo seu valor estratégico do que por alguma concepção moralista. Fora deste intervalo, toda demonstração de poder dos EUA vem carregada de um discurso moralista de cunho liberal muito forte, da necessidade da participação do capitalismo, da utilização da violência e do poder militar, do bem maior.

Em política internacional, se negocia um acordo econômico ou uma aliança militar, de acordo com a capacidade. Quem compra ou não é uma questão em aberto. O que eu tento levantar no livro é como os americanos pensam política externa sob essa lente, não tanto se os outros países compram ou não ou que eles fazem com relação a esse argumento.

 
» O que levou a sociedade e o meio político dos EUA acreditarem que os interesses e valores particulares do país são também universais? Como esta concepção americana influencia as relações políticas com outros países?

Geraldo Zahram: Esta concepção vem de dois pensamentos: uma tradição religiosa e uma política cultural, que são universalistas por princípio. Os valores do iluminismo, como por exemplo, a liberdade econômica, são todos universais. A tradição religiosa, como a crença em um valor de bem em uma sociedade respeitada por Deus, também é universal.

Os EUA viveram uma experiência histórica muito particular. Foram colonizados pela potência mais liberal na época, estavam isolados por dois oceanos, conseguiram uma guerra de independência e, provavelemente, construíram o documento mais liberal à época. Colonizaram um continente com inimigos relativamente fracos (índios, mexicanos), na metade do século XIX. Não havia uma elite conservadora como na Europa, proprietária de terra, com um antigo regime a ser derrubado. Sem contar o crescimento econômico punjante no século XIX, principalmente a partir da guerra civil, período da reconstrução. Vendo esta história de “felicidade” que os EUA viveram, faz sentido eles pensarem “realmente, somos o povo escolhido, os nossos valores e princípios econômicos são melhores”.

O lado obscuro da tradição liberal é que ela esconde todos os movimentos de minorias. Onde estão os imigrantes? As mulheres? Uma das críticas que recebi foi “po, Geraldo, não é que não existia movimento de esquerda nos EUA, é que esses caras eram caçados pelo FBI, pelas elites industriais”. O discurso liberal esconde todos esses discursos dissonantes da tradição política americana e da evolução político-social.

 


Publicado em: 15/07/2016





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