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Entrevista com autor

Ernesto Rodrigues



Enfocar a prática jornalística e fazer uma ponte entre a técnica desenvolvida nas redações das TVs e a teoria ensinada na faculdade de comunicação são duas entre as principais propostas de No próximo bloco... O jornalismo brasileiro na TV e na internet ( Editora PUC-Rio/ Edições Loyola).

Para realizá-las, Ernesto Rodrigues – jornalista com experiência nas mídias impressa e televisiva, além de professor do curso de jornalismo da PUC-Rio e escritor – escalou, juntamente com a Editora PUC-Rio, uma equipe de renomados jornalistas a fim de explorar temas como o impacto da tecnologia nas redações, o verdadeiro cotidiano de um correspondente internacional, o corre-corre do repórter de TV, as preocupações de um editor de imagem e os inesperados acontecimentos da cobertura ao vivo de eventos esportivos, entre outros.

Ao organizar a obra, Ernesto – que ocupou importantes posições na TV brasileira, como o cargo de editor do Jornal Nacional – procurou, como ele mesmo afirma, apresentar ao estudante e ao público em geral um panorama do que vem sendo feito dentro das redações, tudo explicado com linguagem acessível e objetiva.

Nesta entrevista exclusiva à equipe da Editora PUC-Rio, Ernesto Rodrigues enriquece a discussão com um depoimento sincero e instigante sobre o ofício de jornalista na atualidade, o ensino de jornalismo no Brasil, as perspectivas de atuação desse profissional em um futuro próximo e ainda critica aqueles que veem a televisão como um “mal necessário”.

» Editora PUC-Rio: Como partiu a ideia de reunir, em uma única publicação, experientes jornalistas para falar sobre televisão e os novos meios eletrônicos?

Ernesto Rodrigues: Foi a partir da experiência de outro livro, aliás, muito bem recebido, o Deu no jornal, organizado pelo Álvaro Caldas, do qual também participei, que surgiu o interesse de começar esse projeto. Em função da minha experiência na televisão, fui convidado pela Editora PUC-Rio para organizar o livro. Penso ser muito importante tratar desse assunto, já que o telejornalismo e o jornalismo on-line, me parece, são ainda pouco debatidos no mundo acadêmico. A parte técnica, o fazer jornalístico, é pouco visitada pelos autores da academia, por isso buscamos, no livro, explorar mais a prática. Hoje, pouca gente sabe como é a vida de um correspondente internacional, de um editor de imagens, ou como se organiza um telejornal. É isso o que procuramos revelar.

» Editora PUC-Rio: Mas então qual seria o diferencial de No próximo bloco... em relação a outras publicações de temática semelhante?

Ernesto Rodrigues: Acho que é abordar o tema com um olhar mais prático, indo um pouco além do discurso rebuscado sobre como o jornalismo deveria ser feito, ou como será feito, mas, sim mostrando como ele de fato é feito, e para onde ele tende a caminhar. O livro mostra o jornalismo de hoje, levando em consideração suas atuais dificuldades, desafios operacionais, ideológicos e econômicos.

» Editora PUC-Rio: Foi fácil reunir esses grandes profissionais?

Ernesto Rodrigues: Alguns nomes que cogitamos já estavam comprometidos com projetos editoriais dentro dessa mesma linha temática, o que foi uma pena, mas não foi difícil encontrar gente com autoridade e currículo para falar sobre a profissão. Meu trabalho como organizador foi o de procurar pessoas que, ao longo da minha carreira, aprendi a admirar. Pessoas que hoje considero exemplos de profissionalismo. Fiquei feliz quando, um após o outro, aceitavam o convite. No livro, por sinal, temos uma bela mistura de professores e profissionais do telejornalismo, o que contribuiu enormemente para enriquecer o projeto.

» Editora PUC-Rio: Aliás, esses dois lados o senhor conhece bem, já que tem experiência de televisão e de sala de aula. Como vê o ensino de jornalismo nas universidades hoje?

Ernesto Rodrigues: Vejo que é muito importante fazer um ensino um pouco mais realista. Temos que ouvir as redações e procurar entender o tipo de profissional que elas demandam. Quando estudei jornalismo, na época da ditadura, as faculdades de comunicação eram ilhas de discussão política. Tiveram, nesse sentido, uma missão nobre, mas saí de lá com muito pouco conhecimento técnico. Os professores, em geral, eram jornalistas que, impossibilitados de exercer a profissão por serem vítimas de perseguição política, transmitiam, infelizmente, um certo pessimismo e uma compreensível frustração, o que levou muitos estudantes a abandonar o curso. Mas não me arrependo. Depois, ao chegar n’O Globo, tive contato com funções e práticas que sequer imaginava que existiam. Foi como se um novo mundo tivesse se aberto para mim. Nós, professores, temos hoje que enriquecer o ensino teórico, unindo-o mais ao prático, construindo uma ponte. Até mesmo os estudantes começam a pedir isso. Semestre após semestre, sinto a exigência por parte deles aumentar. Nesse cenário incerto, eles querem saber o que vão encontrar no mercado de trabalho. E o livro tenta contribuir para que este anseio seja atendido. Por exemplo, os estudantes que sonham ser correspondentes internacionais deveriam saber, como lembra o Jorge Pontual no seu ensaio, que a vida de repórter no exterior não é fácil como se imagina e está longe de ser glamorosa.

» Editora PUC-Rio: Na sua opinião, qual é a área do jornalismo hoje mais propícia a absorver profissionais?

Ernesto Rodrigues: Na apresentação do livro, faço uma crítica a uma colunista de um grande veículo do jornalismo impresso que afirmou, certa vez, que a televisão amortece o pensamento, faz esquecer e aliena. É uma visão prepotente e preconceituosa. Há uma espécie de saudosismo dos tempos gloriosos do jornalismo impresso. Não desejo criar polêmica, mas muitos profissionais dessa área deveriam começar a buscar novos caminhos. Infelizmente, muitos ainda falam de televisão com preconceito, como se este veículo fosse intrinsecamente burro e de má qualidade. Na melhor das hipóteses, para estas pessoas, a televisão é vista como um “mal necessário”. Mas, como já vem acontecendo há algum tempo, serão as telas, ou seja, a televisão e a internet, os grandes empregadores, os grandes veículos de informação do futuro. Acredito que, no futuro, tal como aconteceu com o rádio, os impressos irão reencontrar seu espaço, mas não se pode perder a noção de que as coisas mudaram. Nesse país, a única fonte de informação para 80% da população é a televisão. Pergunto: onde irão trabalhar os futuros profissionais? Por sinal, o brilhante ensaio de Carlos Castilho, que aborda as novas tendências do jornalismo on-line, é bastante esclarecedor. A internet é uma área que ainda tem muito a crescer e se descobrir. Estamos muito longe de esgotar seu potencial jornalístico.

» Editora PUC-Rio: Hoje, com o sistema de RSS (Rich Site Summary), em que o usuário de internet já não precisa mais visitar sites de notícias para lê-las, passando a recebê-las diretamente no seu navegador em tempo real, muitos consideram que atingimos o limite da velocidade com que a informação é transmitida. O senhor concorda com essa visão?

Ernesto Rodrigues: A questão, creio eu, é menos a velocidade que o conteúdo. Nem todo mundo precisa de tanta rapidez, assim como ninguém dá conta de todo o conteúdo. Há, na internet, muito mais informação do que o usuário comum necessita, de fato, no seu dia-a-dia. O bom webjornalista deverá, cada vez mais, dominar uma nova linguagem e uma hierarquização de noticiário específica para os que navegam na rede. Algo completamente diferente do modelo que, ao logo das últimas décadas, foi desenvolvido para o jornalismo do papel, do rádio e da TV. Ainda não temos hoje, na minha opinião, uma proposta gráfica no webjornalismo. Se você entrar num site de notícias, o que você vai ver é uma série de informações amontoadas e fragmentadas. Ainda não temos um modelo claro de hierarquização neste meio. É um desafio que, cada vez mais, exige o olhar e as técnicas específicas do jornalista profissional. A linguagem do webjornalismo, aliás, já é diferente e vai ficar ainda mais diferente e depurada. A solução dos impressos, infelizmente, é de outra era. Aliás, todos nós sabemos que o jornalismo impresso é um mercado em crise, e não apenas no Brasil.

» Editora PUC-Rio: Como o senhor vê a crise pela qual passam canais como a CNN, que, nos Estados Unidos, há anos vem perdendo audiência e anunciantes devido ao aumento da oferta de canais a cabo, como a Fox News?

Ernesto Rodrigues: Comparo a televisão a cabo com uma banca de jornal eletrônica ou virtual na qual, com o simples movimento do olhar, ou apertando um botão no controle remoto, você tem acesso a um conteúdo vasto e variado. O problema dessas emissoras a cabo, no entanto, é o formato, que, na maioria dos canais, mais parece rádio filmado. Televisão de verdade custa caro. É câmera na rua e não apenas uma pessoa falando sem parar à frente de um cenário. O telejornalismo, aliás, é o maior indicador do alto custo desse formato. Pense na logística e na estrutura exigidas das grandes emissoras para a cobertura do atentado de 11 de setembro e de outros fatos importantes.

» Editora PUC-Rio: Como o senhor imagina o futuro do telejornalismo depois que a TV digital e a banda larga chegarem a todos os lares e até celulares do país, permitindo aos espectadores escolherem não somente sua fonte de informação, mas também quando e onde assistir a programas e noticiários?

Ernesto Rodrigues: Vejo que hoje em dia há uma grande tendência em aumentar a oferta de programas. Existe um sem-número de atrações estilo mesa-redonda, uma grande quantidade de opinativos, colunistas etc. Hoje, a facilidade técnica de se fazer uma edição de vídeo, juntamente com a diminuição nos preços de câmeras digitais com qualidade de imagem e de som razoáveis, além, é claro, da internet, contribuem bastante para o surgimento de muitos programas independentes. Acho que a TV digital é e será capaz de absorver essa oferta geométrica de conteúdo, mas é bom lembrar que essas, digamos, atrações, estão muito distantes do telejornalismo de fato, pois grande parte dos produtores amadores não tem consciência de que estão falando para um público eclético, que é o que o jornalista faz. Eles não possuem o olhar e a capacidade de síntese de um jornalista. Quanto a essa liberdade de escolha, seja em relação ao programa, ao local, ao veículo ou ao horário, creio que as pessoas não irão desfrutar dela como se imagina. As pessoas ainda têm rotinas que são muitas parecidas. Meu palpite, e aí é palpite mesmo, é que a maioria delas gosta de assistir ao telejornal em determinada hora, em determinado lugar, assim como boa parte delas toma banho e café da manhã em horários mais ou menos parecidos. Os avanços tecnológicos, na minha opinião, mudaram radicalmente certos hábitos, mas não mudaram as pessoas como muitos imaginam. Elas ainda vão ao cinema e visitam livrarias, mesmo com a possibilidade de downloads e compras virtuais. Pode ser que, aparentemente, isso vá contra o que afirmei anteriormente a respeito do jornalismo impresso, mas são processos diferentes. Jornalismo impresso e telejornalismo são hábitos, enquanto que saber o que acontece em volta da gente na cidade, no país e no mundo é uma necessidade humana básica. O que é certo é que a velocidade com que as informações são trocadas na internet e na televisão faz com que muitos, quando leem um jornal pela manhã, tenham a impressão de que as notícias são velhas. Por isso, aproveito para reafirmar que temos é que renovar e não necessariamente sepultar o jornalismo impresso.

» Editora PUC-Rio: Por último, gostaríamos de saber sobre seus próximos projetos.

Ernesto Rodrigues: Escrever a biografia do Ayrton Senna foi uma experiência muito prazerosa e marcante na minha vida profissional. Eu e a pequena equipe que montei entrevistamos mais de 240 pessoas. A família Senna, apesar de não querer dar entrevista, não foi empecilho, como alguns poderiam imaginar. O resultado e a resposta do público ao livro foram muito gratificantes. Vou começar agora a escrever a biografia de João Havelange, outro brasileiro importante e conhecido internacionalmente. Já entrevistei mais de 70 pessoas no Brasil e no exterior, desta vez também usando uma câmera DV, para um projeto simultâneo de documentário. E acho que vai ser outra experiência fantástica e, sobretudo, desafiadora. Afinal, serão duas linguagens, livro e documentário, e um mesmo personagem.

 


Publicado em: 26/08/2015





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