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Entrevista com autor

Sonia Aguiar



Em Territórios do jornalismo, Sonia Aguiar, vincula dois campos do estudo que parecem, em primeira instância, distintos: a Comunicação e a Geografia. O processo de globalização do capitalismo não abrangeu as realidades locais e regionais do Brasil. Por este motivo, possibilitou observar sinais de uma “regionalização midiática”, impulsionada pelas acaloradas disputas entre empresas de mídia e de telecomunicações – protagonistas do cenário jornalístico.

Sonia evidencia a pouca atenção dada ao jornalismo praticado fora das regiões metropolitanas do Centro-Sul do Brasil. Em entrevista à Editora PUC-Rio, a autora diz que ainda existem marcas de coronelismo no jornalismo regional que se expressam, entre outras formas, pela propriedade e controle de meios de comunicação por políticos e suas famílias.

» A Internet realmente globalizou a informação?

Sonia: Não. Territórios do jornalismo inclusive ajuda a desmistificar essa ideia de que a Internet globalizaria tudo, pelo fato de permitir o fluxo transterritorial de informações, dados, valores e mercadorias, a uma velocidade antes impensável. No jornalismo, especificamente, ocorre o contrário: localidades distantes dos grandes centros, que antes dependiam da existência de um jornal e de emissoras de rádio para saber o que acontecia ao seu redor, agora têm muito mais visibilidade do que tinham antes. Não exatamente “para o mundo”, mas sim para as cidades vizinhas, para a região em que se inserem e, eventualmente, até para o país, quando algo de extraordinário acontece. Websites de jornais locais ou regionais, blogs, fanpages da cidade ou de um bairro e até rádios comunitárias online formam hoje um “território” informacional ao qual os estudos de jornalismo não costumam dar atenção.

» Qual a diferença entre jornalismo local e regional? Como esta diferença se expressa nos veículos midiáticos impresso e virtual?

Sonia: Não é uma pergunta fácil de responder com poucas palavras justamente por falta de uma literatura consolidada e de muita imprecisão conceitual em relação ao que seja local, comunitário, regional e “do interior”. A partir dos conceitos da Geografia de lugar, região, território e escala, comecei a construir uma base mais sólida para tratar deste jornalismo referenciado. Assim pude demarcar a importância da proximidade como um princípio que rege tanto a produção de conteúdo quanto as estratégias das empresas jornalísticas, e demonstrar como as noções de “interior”, de “local” e de “regional” vinham sendo usadas indiscriminadamente, sem apresentar uma diferença clara entre as práticas jornalísticas nesses “recortes” espaciais. Não há um padrão de “jornalismo local” ou “jornalismo regional”, mas vários jornalismos locais e regionais diferentes daquele praticado nos grandes centros pelo maior valor atribuído à proximidade com seu público, e não pela plataforma tecnológica (impresso, rádio, TV ou digital).

» O Brasil é um país de dimensões continentais que ainda enfrenta dificuldades em promover uma integração territorial eficiente. Como esta expansão influencia o modo de fazer jornalismo brasileiro?

Sonia: Na pesquisa para o livro, observei alguns movimentos de “regionalização midiática” e “regionalização jornalística”, seja como parte das estratégias das principais redes nacionais de televisão, em parceria com as afiliadas regionais, seja como consequência das iniciativas de expansão territorial de empresas jornalísticas para além dos domínios locais. Esses movimentos, em geral, ocorrem em duas vias: pela expansão da cobertura jornalística, mediante “agregadores” de conteúdos locais; e pela diversificação das verbas publicitárias em diferentes meios, sobretudo por parte do governo federal. Na prática, eles não chegam a promover uma integração territorial, mas sem dúvida vêm ampliando a visibilidade de certas áreas e regiões do país, em alguns casos contribuindo para a construção de novas identidades. Nesse sentido, destaco especialmente a região Nordeste, cujos principais grupos de mídia têm desenvolvido ações corporativas com o claro interesse de valorizar a identidade nordestina, em contraponto à forma como a região e sua população são tratadas pela imprensa dita nacional.

» Há ainda marcas de coronelismo no jornalismo regional ou do “interior”? Se sim, como elas se apresentam? Se não, ao que elas deram lugar?

Sonia: Com certeza. Muitas. Há duas formas principais de manifestação desse “coronelismo”: pela propriedade e controle de meios de comunicação por políticos e suas famílias (tema de pesquisa da professora Suzy Santos, da ECO-UFRJ); e pelas relações de compadrio entre representantes do poder local, no qual se incluem muitos donos dos chamados “jornais do interior” (aquele praticado em cidades fora das regiões metropolitanas das capitais ou de polos econômicos regionais), mas que não se restringem a eles. Um exemplo cabal é o do Rio Grande do Norte, onde três famílias – Maia, Alves e Rosado – são proprietárias dos principais meios de comunicação do estado, ao mesmo tempo em que seus familiares exercem cargos nas três esferas de poder político (municipal, estadual e federal).

» Em “Territórios do jornalismo”, foi realizado um levantamento dos 28 grupos de mídia donos dos 50 jornais pagos de maior circulação no Brasil dentro de seis escalas específicas. O que este levantamento releva sobre o cenário jornalístico brasileiro?

Sonia: Em primeiro lugar, que desses 50 jornais apenas dois - Valor Econômico e Lance! – são considerados “nacionais”, por distribuírem mais de 60% da sua tiragem em outros estados além daqueles onde estão as sedes (no caso, SP e RJ). Os três diários do eixo Rio-São Paulo tidos como “a grande imprensa” - O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo –, em função do seu “prestígio nacional”, ainda concentram a circulação em respectivos estados e áreas fronteiriças. Ou seja, a imprensa brasileira é, na verdade, majoritariamente “regional” ou “do interior”.

Em segundo lugar, o levantamento releva que esses grupos, em sua maior parte construídos a partir de um jornal diário de prestígio local-regional, estão passando por um processo dinâmico de aquisições, fusões, incorporações, alianças e desmontes de empresas e grupos, bem como de lançamentos e descartes de experiências jornalísticas em todas as regiões do país. Quando o livro já estava em fase de revisão final, precisei solicitar aos editores a inclusão de um apêndice para relatar tais mudanças, tal a relevância do acontecimento.

Em março de 2016, o Grupo RBS (Rede Brasil Sul de Televisão), até então o maior conglomerado regional de comunicação do país, surpreendeu o mercado de mídia ao anunciar a venda de todos os jornais e emissoras de rádio e TV adquiridos e consolidados no estado de Santa Catarina, ao longo de 37 anos. O negócio propiciou a transferência de capitais externos para o setor de mídia e a entrada em cena de um novo ator, o Grupo NC, constituído por empresários oriundos de outros setores da economia e novatos na área de comunicação. Esse dinamismo faz com que estes dados factuais se tornem registros históricos de um processo midiático e jornalístico que ainda carece de muitos estudos.

Foto: André Teixeira________________________________________________________


Sonia Aguiar é jornalista graduada pela UFF com doutorado em Comunicação/Ciência da Informação pelo convênio Ibict-ECO-UFRJ e pós-doutorado em Geografia na UFF. Atualmente é professora do Curso de Jornalismo e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe.


Publicado em: 02/12/2016





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