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Entrevista com autor

Ivan Frias



Sempre se imaginou que o binômio Corpo-são / Mente-sã pertencesse ao senso comum, afinal, os poucos conhecimentos que adquirimos com o passar dos anos, por meio de experiências, sobre o funcionamento do corpo e da mente, já se mostraram suficientes para que nós, leigos, percebêssemos que não bastam apenas exercícios para manter a integridade do organismo; tampouco que uma vida sedentária poderia trazer satisfações, seja no curto ou longo prazo.

No entanto, é notável que sociedades antigas já buscassem relações entre os estados do corpo e da alma. Em Doença do corpo, doença da alma: medicina e filosofia na Grécia clássica, Ivan Frias demonstra que tal preocupação, principalmente a relativa aos males que atacam a mente, esteve presente no surgimento da filosofia. Um exemplo é Platão, que inaugurou na história da cultura ocidental o conceito de doença da alma. Como afirma o autor, foi revelando os mecanismos de produção dessa doença que Platão apontou uma questão alheia aos médicos hipocráticos. A doença da alma, que antes era um sintoma de uma enfermidade física, passava a ser encarada como uma moléstia de fato.

Nesta entrevista, Ivan Frias, médico graduado pela UFRJ, bacharel e mestre em Filosofia pelo IFCS–UFRJ, doutor em Filosofia pela PUC-Rio – atualmente desenvolvendo pesquisa como recém-doutor no Departamento de Filosofia do IFCS / UFRJ – fala sobre Platão, doenças da alma, de como surgiu seu interesse pela filosofia e sobre a relação existente entre esta disciplina e a medicina.

» Editora PUC-Rio: De onde surgiu o seu interesse em estudar medicina e filosofia, tendo uma como complemento da outra?

Ivan Frias: Esse interesse surgiu na década de 1970, quando eu, ainda acadêmico de medicina, comecei a estudar filosofia como autodidata. Na época os professores do curso médico possuíam uma formação bastante ampla. Muitos deles, nas aulas, citavam filósofos e escritores. Já formado e trabalhando no sertão de Minas Gerais, comecei a colecionar os volumes da série “Os Pensadores”, que eu lia nas horas vagas. De volta ao Rio de Janeiro, ingressei na Faculdade de Filosofia da UFRJ e, em 1987, como aluno do professor José Américo Pessanha, que, aliás, foi quem coordenou a edição de “Os Pensadores”, elaborei um trabalho que tratava das relações entre a filosofia e a medicina na Grécia antiga.

» Editora PUC-Rio: Doença do corpo, doença da alma é sua tese de doutorado. Qual foi o motivo que lhe levou a querer publicá-la?

Ivan Frias: Na verdade, o livro é quase toda a tese; falta apenas o último capítulo dela, que é um estudo sobre a melancolia. Após a defesa da tese houve a sugestão de alguns professores da banca, que se interessaram pelo assunto e me encorajaram a buscar publicá-la.

» Editora PUC-Rio: Em que ponto ocorre essa união entre a medicina e a filosofia clássica de que você trata no livro?

Ivan Frias: Sempre houve por parte dos filósofos um interesse pela medicina. A filosofia surge no século VI a.C. como uma tentativa de compreensão do universo, da física terrestre, do movimento dos astros, enfim, da natureza como um todo. Na metade do século V a.C. o foco da reflexão filosófica passa a ser o homem; discute-se sobre a felicidade, o amor, a coragem, a justiça, etc. - questões que dizem respeito à vida humana. No último quartel do século quinto surgia a medicina, uma arte voltada para o tratamento do corpo. No século IV a.C., Platão, leitor dos escritos de Hipócrates, utiliza a medicina como modelo em vários de seus textos. Como procurei demonstrar no meu primeiro livro (Platão leitor de Hipócrates), Platão utiliza um método transposto da medicina para a filosofia e o aplica à arte retórica. Mas é no diálogo intitulado Timeu que o filósofo estabelece com mais ênfase a relação entre medicina e filosofia, ao estudar tanto a doença do corpo quanto a doença da alma.

» Editora PUC-Rio: Como surge o conceito de doença da alma?

Ivan Frias: Platão formula o conceito de doença da alma ao perceber que o homem possui uma interioridade que também adoece. Há uma inter-relação entre corpo e alma. Tanto a doença do corpo causa a doença da alma como o inverso é verdadeiro. Portanto, não é correto afirmar que Platão cria uma dicotomia entre alma e corpo. No Timeu, é evidente que corpo e alma formam uma unidade indissociável. Mas é bom lembrar que, apesar de inaugurar o estudo da doença da alma, o conceito de alma já existia desde a Antigüidade arcaica; o que muda é que, para ele, a alma possui movimento, dá vida ao corpo; o próprio universo como ser vivo possui alma, a alma do mundo.

» Editora PUC-Rio: Quando Platão fala de doença da alma, ele não fala especificamente sobre doenças na alma de pessoas...

Ivan Frias: No Timeu, obra da fase final de sua produção filosófica, Platão concebe o universo como uma esfera onde tudo o que há está compreendido no seu interior. Nesse modelo, o mundo é único, e a Terra ocupa a posição central. Os corpos celestes são simples, e movimentam-se em torno da Terra. Como já referimos, o mundo é um ser vivo que possui alma. A alma humana que, segundo Platão, localiza-se no segmento cefálico, possui a mesma natureza da alma do mundo. Por esta razão, afirma o filósofo, somos uma planta de raízes celestes. Quando Platão se refere à doença da alma, ele está definindo um estado exclusivo do homem. A doença é própria dos corpos complexos, e está ausente na natureza física. Nesse contexto, a filosofia é uma medicina da alma e, portanto, possui uma função terapêutica. Não é simplesmente uma especulação teórica; possui também uma função pedagógica, como vemos na República e depois no Timeu: se a cidade está doente, se as suas instituições políticas são ruins, o homem não pode ser saudável, sua alma torna-se doente. Essa ideia, sem dúvida, se aplica ao nosso tempo.

» Editora PUC-Rio: Que exemplos de doença da alma existem? Nos últimos dois milênios, a medicina, obviamente, evoluiu bastante, mas há ainda alguma semelhança entre o que hoje se entende como doença da alma e o que na Grécia clássica era teorizada por Platão como tal?

Ivan Frias: Falar hoje de doença da alma pode parecer anacrônico. Mas, falar da interioridade do homem, de uma instância que não é corporal, não me parece que seja impróprio. A psicanálise, por exemplo, lida com o que Freud denominou inconsciente, que, com todas as ressalvas, poderia ser aproximado do conceito de alma em Platão. Com relação à medicina, ela continua sendo, desde a época de Hipócrates, um tratamento do corpo, embora algumas doenças somáticas possam produzir em sua evolução delírios e alucinações que são quadros psíquicos muito evidentes, já descritos pelos médicos hipocráticos. Por sua vez, os padecimentos circunscritos à esfera mental vêm sendo estudados e tratados das mais diversas formas, desde o advento da psiquiatria, há dois séculos atrás, e da psicanálise. Sabe-se que muitos desses padecimentos exteriorizam-se como sintomas físicos, sendo refratários ao tratamento médico (leia-se tratamento do corpo). Na atualidade há uma tendência em atribuir aos sintomas mentais uma causa orgânica e, com isso, tem havido uma crescente produção de drogas com ação no sistema nervoso central que visam à supressão de tais sintomas. É curioso notar que Aristóteles já atribuía à melancolia uma causa física: o excesso de bile negra. Mas ele não a considerava uma doença, e, sim, um estado de exceção, próprio do homem de gênio, do artista, do filósofo. Há, portanto, uma nosologia própria para cada época, refiro-me aos nomes das doenças, sejam físicas ou psíquicas, não sendo possível aplicar-se um mesmo quadro sindrômico a tempos distintos.

» Editora PUC-Rio: Você imagina que, com o seu livro, a medicina possa interessar aos filósofos ou vice-versa?

Ivan Frias: Depois que eu entrei no mestrado, e busquei aproximar mais essas duas áreas, passei a acumular bastante material sobre o assunto. Como já estava formado em medicina, tinha um desejo de passar esses conhecimentos adiante, inclusive para os colegas médicos. Achei incrível a quantidade de médicos que estavam presentes no lançamento de Doença do corpo (em 30/03/2005). Imagino que o profissional de saúde deva parar para refletir sobre esse momento crítico em que vivemos. Àqueles, como os médicos, que lidam com a vida humana, a filosofia certamente interessará, pois ela discute, entre outras coisas, a questão da ética, algo importantíssimo na atenção à saúde.

» Editora PUC-Rio: Quais são seus próximos projetos?

Ivan Frias: A pesquisa que estou desenvolvendo e que tem como base o texto de Aristóteles intitulado “Problema XXX.1” será concluída no meio do ano; meu objetivo é prosseguir o estudo sobre a mesma questão – a melancolia - procurando examiná-la a partir de autores contemporâneos das áreas de filosofia, de medicina e de literatura, o que eu já venho realizando com a leitura da obra de Marcel Proust. Mas, para que a pesquisa tenha continuidade será necessário que eu consiga um outro vínculo institucional a partir do segundo semestre.


Publicado em: 26/08/2015





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