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Entrevista com autor

Maria Elisa Noronha de Sá



Por ser um campo relativamente novo para os pesquisadores, a história intelectual é um tema que está em crescente expansão por todo o mundo. O e-book, disponível para download gratuito no site da Editora PUC-Rio História intelectual latino-americana – itinerários, debates e perspectivas é considerado pioneiro na abordagem de tal tema, ainda mais considerando o seu enfoque na América Latina.

Organizado pela professora Maria Elisa Noronha de Sá (História, PUC-Rio), o livro traz 12 artigos que pretendem discutir e apresentar ao público uma reflexão sobre o estágio atual dos estudos de história intelectual com temáticas latino-americanas no Brasil. Os textos reunidos na obra foram apresentados no Seminário “História intelectual latino-americana” ocorrido na PUC-Rio em 2016.

Nesta entrevista, a organizadora, que também escreve um dos ensaios, fala sobre o campo de estudo da história intelectual latino-americana com suas deficiências e seus avanços e ainda sobre os seus projetos como pesquisadora.

» Na introdução você define o campo da história intelectual como um ponto de encontro de distintas tradições, como a história política e a crítica literária. Qual é a importância de estudar a história intelectual?

Maria Elisa: É um campo de estudos que vem crescendo muito nos últimos 15 ou 20 anos, e não só no Brasil como no mundo todo. Esse campo, que vem com muita força, não deixa de vir na esteira de uma certa renovação da história política e da história cultural. Ou seja, esses fatores levaram os historiadores de volta para o campo das ideias, e é nessa reaproximação que a história intelectual ganha corpo. Apesar de ser um campo com uma definição muito ampla, pode-se afirmar sobre a história intelectual que ela lida com a questão do pensamento, da produção de ideias, do campo dos intelectuais, ou seja, com o pensar de uma maneira geral. E nisso, ela ao mesmo tempo que conversa, se distancia da muito conhecida história das ideias, porque a história intelectual tem uma preocupação fundamental de inserir os pensamentos e as ideias em um contexto social, estando as ideias encarnadas na história. Lidar com a questão das ideias do pensamento, seja político ou social, é a matéria-prima básica da história intelectual, e também um campo privilegiado para o historiador.

» Que papel o livro desempenha no estudo da história intelectual latino-americana no Brasil?

Maria Elisa: O campo da história intelectual só vem se desenvolvendo mais recentemente no Brasil, de uns 10 anos para cá. Mas há um conjunto muito importante de pesquisadores e professores que, há algum tempo, vem se dedicando ao campo do que podemos chamar de história intelectual no Brasil, lidando com esse tema no contexto latino-americano.Esse é um livro talvez pioneiro no sentido de que é uma tentativa de reunir esses pesquisadores para juntos trazerem à luz, para um público mais amplo, esse campo que ainda está sendo construído com mais força nesses últimos anos no Brasil.

» O seu artigo trata das impressões de Domingo Sarmiento como jornalista e escritor a respeito do Brasil. Era comum se escrever sobre o Brasil pelos intelectuais argentinos?

Maria Elisa: Sim, um dos campos muito profícuos da história intelectual hoje é essa circulação de ideias. Estamos lidando com ideias e pensamentos, então tal assunto interessa muito para o historiador do pensamento da história intelectual. E, especialmente no século XIX, isso se mostra mais interessante ainda porque há uma certa crença no senso comum de que o Brasil sempre esteve de costas para a América Latina, de que os nossos letrados da época não conversavam com os do restante do continente latino-americano, até pelo fato de que o Brasil olhava muito para a Europa e Estados Unidos. Então, ao contrário dessa crença, a comunidade letrada americana mesmo sendo muito pequena, era também muito intensa, e responsável por uma também intensa circulação de ideias. O que inclui não só intelectuais argentinos mas também de toda a América Latina que lia e conhecia os seus trabalhos. No caso específico de Sarmiento, que venho estudando há muitos anos, pode-se dizer que ele pertence a um grupo conhecido como Geração de 37. Trata-se de uma geração de homens que foram exilados da Argentina por conta do governo de Juan Manuel de Rosas e que se espalharam pelo continente, alguns vindo para o Brasil. Então, no caso de Sarmiento, apesar de não ter vivido no Brasil, ele veio três vezes e se mostrou muito interessado.Somando-se ao fato de que era a única monarquia da América naquele momento enquanto todos os outros países eram repúblicas, o Brasil era motivo de muita curiosidade, estranhamento e também de posições muito críticas.

» Percebemos que uma parte dos artigos publicados refere a veículos de comunicação ou produtos gráficos e o seu papel na construção de uma história intelectual. Você poderia explicar um pouco essa relação?

Maria Elisa: Para construir a história intelectual é necessário lidar basicamente com fontes. Portanto, é muito comum que os historiadores que lidam com a história intelectual tenham como fontes jornais e outros periódicos, afinal nesses se encontravam opiniões, ideias e pensamentos. Ou seja, a imprensa do século XIX representava o lugar da circulação de ideias, e é por isso que ela – incluindo além de jornais, revistas nacionais e internacionais e outros periódicos – é uma fonte privilegiada para a história intelectual.

» Quais são as dificuldades, hoje, para se pesquisar a história intelectual?

Maria Elisa: Houve uma mudança nos últimos anos que se deveu à internet, nos permitindo um acesso online a diversas fontes, hoje praticamente todas digitalizadas. Apesar de ainda não ser o cenário ideal, a nossa biblioteca nacional já disponibiliza muitos dos periódicos publicados no Brasil, em plataforma digital, o que facilita muito o acesso a informações. O que antes requeria diversas idas à biblioteca, hoje pode ser armazenado em um Pen Drive.

» É sabido que nossas escolas dão pouca atenção para a história das sociedades latino-americanas. Você poderia falar um pouco sobre o desafio que é produzir pesquisas no Brasil que tenham origem na história intelectual latino-americana?

Maria Elisa: O material para uma pesquisa acadêmica é encontrado com certa facilidade. No entanto, um fator que poderia provocar dificuldades é a língua, visto que dentro da América Latina somos o único país que fala português enquanto o resto dessa comunidade fala predominantemente espanhol. O que ainda temos de dívida que impossibilita a expansão do campo de estudos sobre a América Latina no Brasil é o fato de haver pouca tradução de documentos e materiais de estudo em geral.

» Quais são os seus próximos projetos de pesquisa? Continuarão voltados para o campo da história intelectual?

Maria Elisa: Sim. Acho que é o meu lugar, onde há muitos anos, eu venho investindo. Mas quanto à pequisa voltada para Sarmiento e aos argentinos, que eu venho trabalhando desde o início do meu doutorado, confesso que estou mudando. Estou começando a trabalhar com o Sertão. A princípio não teria aparentemente relação com a América Latina por ser tão brasileiro. Mas, na minha pesquisa tem relação a partir do momento em que analiso a questão de espaço no Sertão em comparação com outras regiões como o Pampa na Argentina e a Araucania no Chile. Analiso também, como os pesquisadores, principalmente do século XIX, utilizaram as imagens espaciais desses territórios para pensar a construção dos seus Estados Nacionais naquela época. Pretendo concluir esse projeto até o meio deste ano [2017].


Publicado em: 07/03/2017





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