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Entrevista com autor

Eduardo Jardim



A primeira edição do livro de Eduardo Jardim A brasilidade modernista – sua dimensão filosófica, lançada em 1978, ganhou notoriedade pelo ineditismo da abordagem do movimento modernista sob um enfoque filosófico. Nessa nova edição, que, segundo o autor, transformou o livro em “praticamente novo”, do ponto de vista literário, o leitor se depara com uma ampla gama de temas relativos ao nosso principal movimento de renovação cultural.

Nesta entrevista, Eduardo Jardim explica o que o levou a optar por uma inserção do modernismo em um debate de ideias que remonta às últimas décadas do século XIX - tendo Graça Aranha como a figura mediadora, o porquê da periodização do modernismo em duas fases e sobre os seus futuros projetos.

» Por que o seu livro ganhou notoriedade em 1978 ao abordar o movimento modernista?

Eduardo: O que deu uma fisionomia própria ao livro foi a entrada filosófica no problema. O fato de eu ter feito uma abordagem a partir da filosofia possibilitou ver uma série de aspectos do modernismo que não eram considerados habitualmente. Isso porque o movimento modernista tinha sido estudado basicamente na área de letras e, um pouco, na de ciências sociais. A entrada filosófica favoreceu o exame dos pressupostos teóricos do movimento, que já estavam presentes na nossa história cultural.

» Quais são as principais diferenças entre a primeira edição de 1978 e esta nova edição?

Eduardo: Em 1978 publiquei basicamente o texto da minha dissertação de mestrado sem muitas alterações. As ideias defendidas naquela época foram mantidas nessa nova edição. O que aconteceu foi que o livro estava esgotado e sempre era cobrada uma reedição. Então eu e um amigo, Eduardo Coelho, professor de literatura brasileira da UFRJ, resolvemos levar adiante o projeto da reedição. Fizemos uma revisão dos aspectos literários do texto, melhorando sua forma. Eduardo Coelho, além disso, contribuiu com notas, com a atualização de informações e com uma importante apresentação.

» Como surgiu a ideia de abordar o movimento modernista sob um enfoque filosófico?

Eduardo:Comecei a me interessar pelo estudo do pensamento brasileiro desde minha graduação em filosofia na UFRJ e sempre fui um leitor apaixonado de literatura, sobretudo da literatura modernista. Era natural que esses dois interesses confluíssem. Também comecei muito cedo a dar aula na PUC sobre o assunto. Quando entrei para o mestrado, no início dos anos 1970, havia um interesse por pensamento brasileiro aqui na universidade. Resolvi então propor este tema para a dissertação, que foi defendida em 1976 e logo se transformou em livro, pela editora Graal, com uma capa muito bonita de Ana Luisa Escorel. Desde aquela época me interessava convocar a filosofia para fazer um exame da nossa realidade, mesmo que isso tenha que ser feito levando em conta uma série de mediações, tendo em vista o caráter necessariamente muito abstrato dessa disciplina.

» Depreendemos da leitura de seu texto que o modernismo teria sido dividido em duas fases: uma de preocupações estéticas e depois outra que se trata da brasilidade. É isso mesmo?

Eduardo: O modernismo começou com uma exposição de pintura de Anita Malfatti em 1917. Eram quadros muito diferentes dos mostrados normalmente no Brasil, já que foram inspirados pelo expressionismo, movimento com que a pintora teve contato no período em que morou na Alemanha e nos Estados Unidos. Isso chamou a atenção dos escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade, pois eles viram ali uma ruptura com a arte acadêmica, chamada por eles de passadista.Assim, o modernismo começou como uma manifestação a favor da modernização estética: na literatura, nas artes visuais e na música. A Semana de 22 foi um marco desse primeiro período. Desde a conferência inicial de Graça Aranha, até os trabalhos dos muitos artistas expositores e a música de Villa-Lobos insistem na necessidade de criar uma linguagem nova para os novos tempos. Nesta fase do movimento os modernistas se interessaram pelas vanguardas artísticas europeias da época, cuja linguagem eles pretenderam incorporar. Essa discussão sobre a renovação estética durou os primeiros anos da década de 1920. A partir de 1924, os modernistas, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, sobretudo, começaram a notar que a inserção da arte e da cultura brasileiras no mundo precisava de uma afirmação de uma identidade própria, de uma fisionomia nacional. Em 1924 foi publicado o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, que é um marco dessa virada do movimento, sendo o primeiro documento que dá publicidade a essa nova posição. A preocupação com a renovação estética continua, mas a discussão dos modernistas se amplia. Agora era preciso compatibilizar renovação estética e nacionalismo. A segunda metade dos anos 1920 é caracterizada por um esforço enorme de definir os traços da nacionalidade. Isso foi feito em várias direções por diversas correntes, como a de Mário de Andrade, a de Oswald de Andrade, a do grupo verde-amarelista, por exemplo. Neste momento impõe-se, para o movimento, a necessidade de pensar a brasilidade, que é o tema do meu livro.

» Graça Aranha foi um escritor muito presente no seu livro. Qual foi o seu papel para o movimento modernista?

Eduardo: Geralmente a contribuição de Graça Aranha não é valorizada. Isso acontece por uma série de preconceitos que existiram desde aquela época. Eu pretendo me contrapor a essa posição, que foi a de muitos modernistas, como Mário de Andrade. Apesar de Graça Aranha não ter um estilo moderno, as ideias expostas nos seus livros de filosofia, como A estética da vida, de 1921, estão presentes também nas teses modernistas. Graça Aranha é um representante tardio de um movimento filosófico iniciado no final do século XIX – a Escola de Recife. Ao estabelecer a relação das ideias modernistas com as de Graça Aranha, podemos notar que o modernismo se inscreve em uma tradição intelectual que remonta ao século anterior. Ampliaremos, desse modo, nossa perspectiva histórica e podemos traçar continuidades onde outros só viram rupturas. O próprio universalismo modernista, isto é, sua proposta de inserir o Brasil no concerto das nações cultas através da arte moderna já está presente em Graça Aranha. Mais ainda, as teses nacionalistas já estão em A estética da vida, em um capítulo chamado “Metafísica brasileira”. Sua leitura é fundamental para se compreender as ideias de Oswald de Andrade do período da Antropofagia.

» O livro traz duas posições contrastadas sobre o modernismo: a analítica, defendida por Mário de Andrade; e a intuitiva, que reúne Plínio Salgado e Oswald de Andrade. Conte-nos um pouco sobre ter reunido esse tipo de discussão no livro.

Eduardo: Todos os modernistas se engajaram no projeto de definir a brasilidade, mas por vias muito diferentes. As duas principais foram a analítica, defendida por Mário de Andrade, e a intuitiva, defendida por Oswald de Andrade e por Plínio Salgado. Mário de Andrade entendeu que era preciso fazer uma pesquisa detalhada dos elementos que compõem a cultura brasileira para se chegar a um retrato do Brasil. Ele era um pesquisador, um estudioso. Já Plínio Salgado e Oswald de Andrade pensavam que seria pela intuição, entendida como um sentimento, que se poderia apreender a nacionalidade. Essas duas correntes definiram modos de se interpretar o Brasil que se estenderam para além do modernismo, e possivelmente, estão presentes até hoje. Por este motivo é importante recuperar essa história - pois ela pode contribuir para entender a história intelectual do Brasil no último século.

» Fale-nos um pouco sobre seus projetos mais recentes.

Eduardo: Posso falar de meus projetos atuais. Estou organizando uma coleção de livros compostos de ensaios de autores contemporâneos do mundo todo, que estão sendo traduzidos pela primeira vez para o português. Já foi publicado um primeiro, dedicado ao escritor mexicano Octavio Paz, A busca do presente e outros ensaios. Já estão quase prontos um livro dedicado a Adorno e sua teoria estética e outro, dedicado a Hannah Arendt, com textos sobre teoria política. Também devo publicar nesse ano um novo livro. Seu título por enquanto é Tudo em volta está deserto. Trata de um período difícil e sofrido da nossa história e da história cultural - a ditadura militar.


Publicado em: 03/04/2017





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