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Entrevista com autor

Luis Fernandes



O legado da revolução soviética para a evolução histórica do mundo no século XX é múltiplo. Foi a primeira – e única – alternativa sistêmica ao capitalismo mundial. A URSS também teve uma participação importante na destruição do nazi-fascismo, no desmantelamento dos impérios coloniais, além de em outros acontecimentos que mudaram a história mundial.
O professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, Luis Fernandes, faz uma ampla análise da ascensão e do colapso soviético. Ele explora a razão de um sistema político e socioeconômico desmoronar de forma rápida e humilhante sem um conflito bélico direto.
Nesta entrevista, o autor da obra Revolução Bipolar: a gênese e derrocada do socialismo soviético fala sobre o título do livro, os efeitos ainda existentes da revolução e o reconhecimento que ela recebe, além de fazer uma comparação com a Revolução Francesa e explicar o porquê da ascensão e queda soviética.

» Por que a Revolução Russa pode ser chamada de Revolução Bipolar?

Luis: Isso na verdade foi um jogo de palavras com um duplo sentido. Bipolar, em primeiro lugar, pelo fato de ter sido uma revolução que constituiu um sistema mundial alternativo ao capitalismo no século XX e que cindiu o que até então era um sistema único num sistema bipolar, polarizado por dois sistemas com duas grandes potências. Essa foi primeira dimensão bipolar.
A segunda tem uma conotação mais psicanalítica, ou seja, foi uma experiência marcada por entusiasmo, certeza e confiança no futuro que, num espaço relativamente curto, passou desse estado de ânimo para um sentimento de inferioridade e dúvida sobre a sua própria capacidade de sobreviver, o que determinou o colapso do próprio bloco soviético no final do século XX. Então, o livro tenta explicar como foi possível sair de um quadro de euforia para outro de autonegação.

» Hoje, quando marca-se 100 anos do início da Revolução, quais você diria que são os efeitos que ainda presenciamos dela?

Luis: Vários efeitos que são resultados diretos ou indiretos da experiência da Revolução Russa continuam presentes.
As transformações internas que a sua sociedade viveu naquela época reduziram drasticamente os graus de desigualdade existentes. Elas materializaram uma agenda que era de expansão de direitos sociais, à cultura e à educação, que gerou uma redução das desigualdades na sociedade. Ela nunca se tornou igualitária, mas ao eliminar quase que integralmente a propriedade privada, um dos mecanismos principais de reprodução de desigualdade na sociedade foi extinto e, portanto, foi criada uma muito mais homogênea da que nós conhecemos no Brasil hoje, por exemplo.
A Revolução Russa também introduziu a questão social na agenda mundial de forma indireta. Como a existência do bloco soviético era visto como uma ameaça, sobretudo para os Estados democrático liberais e capitalistas da Europa ocidental, isso gerou um ambiente em que foi possível um maior número de concessões a demandas sociais no ocidente. Isso, em última instância, explica a formatação dos estados de bem-estar na Europa ocidental. Construções sociais que, até hoje, estão presentes nesse padrão de proteção social e que continuam sendo um tema muito agudo do debate político.
A consolidação desses exemplos foi, em grande medida, fruto do triunfo da Revolução Russa no início do século passado.

» Logo no começo do seu livro você cita a Revolução Francesa. Qual seriam as semelhanças e diferenças entre essa e a Revolução Russa em questão de impacto mundial?

Luis: Eu acho que as duas são semelhantes na medida em que representaram desafios aos sistemas dominantes no mundo da época.Basicamente, a Revolução Francesa colocava como alvo das transformações o fim das monarquias absolutistas, a expansão dos direitos políticos e de cidadania. Ela foi vista no sistema internacional da época como uma ameaça e assim foi feita uma aliança para tentar contê-la e isolá-la.
Houve uma reação sistêmica do sistema internacional à ameaça que foi identificada na Revolução Francesa da mesma maneira que houve com a Revolução Russa. Essa foi alvo de movimentos de desestabilização, seguidas intervenções militares e uma reação automática do sistema para conter essa experiência que representava uma ameaça para a continuidade dos valores e dos procedimentos então existentes no sistema internacional. Isso aproximou as duas revoluções. Elas tiveram que enfrentar condições internacionais extremamente adversas para o seu desenvolvimento.
A diferença principal entre as duas que eu destacaria é que a Revolução Francesa não chegou a alterar as bases da propriedade existente na sociedade francesa e na sociedade mundial da época. Ela não chegou a constituir um sistema econômico diferente do que era então predominante. Já a Revolução Russa constituiu inicialmente, no território da União Soviética depois com a formação do campo socialista, um sistema econômico alternativo baseado em estruturas diferentes de propriedade. Então, desse ponto de vista, a ruptura sistêmica proporcionada pela Revolução Russa foi mais profunda e abrangente do que a da Revolução Francesa.

» A o que você atribuiria a rápida ascensão do sistema socialista no século XX?

Luis: Às vezes, ao olharmos para essa revolução que ocorreu há um século atrás, pensamos o sistema internacional que existia na época como se fosse o mesmo de hoje. Mas na verdade, não era. O sistema internacional no início do século XX era basicamente um sistema europeu com algumas poucas ramificações.
A maior parte do globo terrestre era incorporada ao sistema internacional através da dominação colonial. A África estava retalhada entre potências colônias europeias, a Ásia também por ocupação colonial direta ou por subordinação de governos que haviam sido derrotados.
Uma das características da Revolução Russa foi ter trazido para o centro da sua política externa o combate ao colonialismo e a defesa dos movimentos de autodeterminação dos povos. Esses foram movimentos que varreram o mundo no século XX e que acabaram conquistando vitórias e conformando o sistema internacional como ele existe hoje, ou seja, um sistema constituído por estados soberanos que se relacionam.
Essa revolução foi em grande medida promovida pela política externa, inicialmente da União Soviética e depois dos países socialistas como um todo, e isso possibilitou polarizar para o socialismo vários movimentos anticoloniais. O próprio triunfo da Revolução Chinesa foi polarizado pelo campo socialista existente à época dirigido pela União Soviética depois da Revolução Russa. A Revolução Cubana, que era uma revolução de resgate da dignidade nacional em função de uma situação degradante de dependência em relação aos Estados Unidos, foi polarizada pelo campo socialista. Isso gerou uma grande e rápida ascensão de experiências socialistas, o que permitiu que em determinado momento o campo socialista marcasse um terço da humanidade e mais de um quinto do território do globo num curto espaço de tempo. Só que, como vimos, isso não se sustentou na sequência.

» Esta é a questão principal do seu livro, mas teria como você adiantar alguma razão do porquê um sistema como o soviético, que cresceu tanto e foi o único a “competir” com o capitalismo, caiu sem mesmo haver um confronto bélico?

Luis: O colapso da União Soviética foi singular. Afinal, era uma experiência que tinha passado por provas muito difíceis, como, por exemplo, a invasão nazista na Segunda Guerra Mundial onde perdeu um sexto da sua população. Ela também conseguiu grandes feitos ao longo da sua história na área científica como o lançamento do primeiro satélite artificial, homem e mulher ao espaço.
No entanto, no momento em que a URSS já tinha atingido paridade bélica com os Estados Unidos, ela sucumbiu de uma maneira rápida, fulminante e, de certa maneira, vergonhosa. E esse é um ponto que procuro discutir.
No sistema socialista soviético, havia a estatização integral das forças produtivas com um controle centralizado e planejamento extremamente detalhado a partir de um centro de controle de todas as etapas das atividades econômicas. Esse modelo teve êxito e sucesso quando se tratava de superar as condições de atraso que a União Soviética e outras experiências socialistas viveram no seu nascedouro, ou seja, quando a sua agenda era uma agenda de modernização. Mas, uma vez montada uma base industrial fundamental na economia, quando o desafio passou a ser o de elevar a produtividade das empresas já instaladas, esse sistema se mostrou muito pouco propenso à inovação e à difusão do progresso técnico na economia e na sociedade como um todo. Isso aconteceu porque ele era um sistema muito conservador no sentido de que o principal incentivo à atividade econômica era cumprir a meta do plano.
Num primeiro momento, a União Soviética teve o crescimento mais elevado do mundo em produtividade social e do trabalho, mas, com o tempo, ele foi declinando e outras experiências capitalistas foram ganhando mais dinamismo e suplantando-o, o que gerou uma crise de perspectivas e uma crise ideológica na própria direção do Estado Soviético.
A dificuldade de sustentar um confronto sistêmico global a partir de um sistema econômico alternativo ao capitalismo começou a gerar crescentes dúvidas na capacidade de sustentação desse confronto por parte da nação soviética. O predomínio dessas dúvidas e o abandono dessa perspectiva é o que se materializa na orientação do Gorbachev quando ele assume a direção do Estado Soviético. Ele anuncia um programa que seria um de reformas mas que em última instância acaba sendo um programa que resulta na própria dissolução da União Soviético e do antigo campo socialista.

» A URSS teve uma grande participação na destruição do nazi-facismo assim como no processo de descolonização que aconteceu em algumas partes do mundo. Você acredita que a importância da URSS na história mundial é devidamente reconhecida hoje em dia?

Luis: Acho que qualquer análise mais objetiva tem que reconhecer esse impacto. O que torna às vezes difícil esse reconhecimento é o fato de ter se tornado um tema de disputa política ideológica. Como parte da reação à ascensão dessa revolução foi justamente a deflagração da Guerra Fria, isso gerou uma contaminação de preconceitos ideológicos de parte a parte.
Eu dou um exemplo disso durante o período do regime militar no Brasil. Nós temos aqui no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, um monumento ao soldado desconhecido que é justamente dedicado aos soldados mortos ou desaparecidos na Segunda Guerra Mundial e durante o período do Regime Militar. O monumento ostentava as bandeiras das quatro nações vitoriosas da Segunda Guerra Mundial. Então era a bandeira dos Estados Unidos, a do Reino Unido, França e a bandeira do Brasil. No entanto, por mais que nós achemos que tenha sido heroica a nossa participação na Itália na Segunda Guerra, a força determinante da derrota do nazismo foi a União Soviética, mas a bandeira não estava colocada por conta dessa disputa ideológica.
Hoje é sabido que mais de dois terços das baixas sofridas pelo exército de Hitler foram sofridas justamente na chamada Frente Oriental, a frente da guerra que foi deflagrada com a invasão da União Soviética pela Alemanha. Na medida em que já não existe mais um campo socialista, esses ânimos podem serenar e acho que a tendência é, cada vez mais, reconhecer que foi uma experiência histórica absolutamente relevante para a formação do mundo contemporâneo.


Publicado em: 19/10/2017





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