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Entrevista com autor

André Nunes de Azevedo



Nesta entrevista, André Nunes de Azevedo, o autor da obra A grande reforma urbana do Rio de Janeiro: Pereira Passos, Rodrigues Alves e as ideias de civilização e progresso fala sobre a importância das reformas na história da cidade. O doutor em História pela PUC-Rio questiona ideias praticamente aceitas pelo senso comum, como a questão de a Reforma Passos ter expulsado a população mais pobre do centro da cidade ou a de ser uma cópia da reforma de Paris. O autor discute também lados pouco conhecidos da Reforma Passos, como a preocupação com a educação e alojamento, além de expor uma pouca compreensão por parte de Pereira Passos e Rodrigues Alves sobre o Rio de Janeiro ser uma cidade recém-saída da escravidão e diferente, em muitos aspectos, das comunidades europeias.

» Em seu livro você critica interpretações já consagradas sobre Pereira Passos, como a expulsão dos pobres do centro da cidade e a tentativa de cópia de Paris. Quais foram essas críticas? E o que te levou a questionar essas ideias?

André: No meu livro, eu elenco mais de dez razões pelas quais Pereira Passos não quis expulsar pobres do centro além de mais de dez pelas quais ele nunca procurou imitar Paris.
Pereira Passos construiu três vilas operárias no centro da cidade, o que seria um grande contra-senso para alguém que quer expulsar classes baixas de lá. Uma segunda razão é verificada numa própria avaliação do que é a planta baixa da cidade. Afinal, se você ver a cidade antes e depois da Reforma Passos, você vai constatar que ele constrói três vias de ligação direta do centro na direção do subúrbio do Rio de Janeiro, o que também não é próprio de quem quer expulsar pobres dessa região.
Outra razão também é o fato de que a freguesia da cidade com o maior número de cortiços passou intocada durante a Reforma Passos (Freguesia do Espírito Santo). As freguesias que mais foram destruídas, onde mais se derrubou edificações, foram onde não havia cortiços algum e onde as edificações eram propriedades de classes médias altas e altas.
Em relação a copiar Paris, Pereira Passos projeta uma grande avenida, muito próximo do que seria hoje a Radial Oeste, ligando o centro da cidade a o que então seriam os subúrbios do Rio e a faz em formato curvilíneo, o que não é próprio também da filosofia de Haussmann que é a de construir avenidas retas. Uma outra razão também é a clara e flagrante diferença entre o Teatro Municipal do Rio e o Teatro Operá de Paris. Uma pequena visita pela internet rapidamente mostra as diferenças significativas nas duas obras, então é um mito que se construiu de que ele quis imitar esse teatro parisiense.
O que me levou a perceber isso foi o fato de que Pereira Passos era um homem de extrema erudição e que, por isso, não seria tão limitado a ponto de copiar Paris. Ademais, o fato de ele ter estado em Paris durante a Reforma Haussmann no século XIX, é um argumento muito frágil para dizer que por isso ele quis copiá-la. É exatamente por ter estado em Paris durante a Reforma Haussmann que você acaba captando toda a riqueza de críticas que vem da sociedade civil parisiense, dos jornais. Afinal, a Reforma Haussmann foi longe de ser consensual, foi muito polêmica na época e Passos pode sorver muito das críticas. Ele está muito longe de ser um parisiense deslumbrado, muito pelo contrário.
Então, filosoficamente, do ponto de vista urbanístico, a Reforma Passos é muito diferente da Haussmann.

» A sua obra aborda a questão das grandes reformas que aconteceram no Rio de Janeiro. Quais foram as principais diferenças entre a Reforma Urbana de Pereira Passos e a Reforma Urbana Federal?

André: Para mim, não existiu uma reforma urbana que, de maneira muito genérica, é designada pela historiografia da década de 1980 como a Reforma Passos. Para mim existiram duas reformas: uma no plano federal, comandada pelo então Presidente da República, Rodrigues Alves, paulista e cafeicultor, e outra, pelo Prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, funcionário público e dono de uma serralheria.
São reformas que não são contraditórias entre si, pelo contrário, há um esforço muito grande de que a municipal se encaixe em proposições da federal, mas, ao mesmo tempo, são reformas distintas. Elas são diferentes nas maneiras de conceber a cidade.
A Reforma Federal não é uma feita pensando na cidade mas sim no país. Ela busca reformar o porto para facilitar o equilíbrio fiscal do país, uma vez que, o do Rio de Janeiro era o principal porto de importação da cidade e o governo federal coletava cerca de metade da sua renda de impostos de importação.
Em segundo lugar, interessava muito ao governo federal redimensionar a imagem da cidade. Nenhum outro presidente, durante a Primeira República, produziu tantos cartões postais quanto Rodrigues Alves para mandá-los para o exterior, dando nota de que era uma cidade salubre e civilizada, uma vez que o Rio de Janeiro vivia o estigma de cidade pestilenta desde meados do século XIX junto com a ideia disseminada na Europa de que aqui era o cemitério do europeu. Então, isso afetava a imigração num contexto em que estávamos vivendo uma grave crise de mão de obra decorrente do final recente da escravidão em 1888. Isso pressionava para o alto o preço dessa mão de obra e diminuía a margem de lucro da fração de classe dominante que era os cafeicultores, então a testa do poder federal. Cabe lembrar que Rodrigues Alves é cafeicultor de Guaratinguetá e o seu partido (Partido Republicano Paulista) claramente representa os interesses políticos dessa fração de classe social. Então, a reforma federal está para além da cidade.
A reforma de Pereira Passos é uma reforma completamente voltada para a cidade e o seu futuro. Ela tem preocupações com a questão do alojamento e da educação, aumenta em 700% o salário de professores, cria várias escolas municipais e o primeiro sistema de assistência de ambulâncias para quem passasse mal nas ruas do Rio de Janeiro, além de ser uma reforma preocupada com a formação de mão de obra. Ela cria a Escola Técnica de Engenho de Dentro e é uma reforma que procura ter como norte o valor da civilização. Ela pensa em civilizar o Rio de Janeiro, uma cidade recém-saída da escravidão.
Já Rodrigues Alves e toda a sua camarilla do Partido Republicano Paulista tinham como norte a ideia de progresso como desenvolvimento material, técnico, econômico. Progresso seria construção de ferrovias, eletrificação, estradas, saneamento, enfim, seriam processos de modernização urbana.

» Como essas reformas afetaram o Rio de Janeiro?

André: Afetaram o Rio de Janeiro em vários aspectos. A vida literária foi profundamente afetada, a sociabilidade no centro, você tem também um alcance muito grande da reforma em termos de constituição de elementos marcantes da cidade. Várias imagens urbanas, consagradas até hoje no plano nacional e internacional, advém da Reforma Passos.
Uma delas é a integração do litoral carioca à malha urbana. A lógica urbanística da Zona Sul, feita por Pereira Passos, obriga a companhia Jardim Botânico de Bondes a abrir um túnel levando o trânsito de Botafogo para Copacabana, mais amplo que o que já existia antes. Esse túnel, para o nosso leitor se referenciar, é o que está ligando a Lauro Muller em Botafogo à Princesa Isabel em Copacabana, próximo do Rio Sul. Ele começa a lotear aquela região e a incorporar, do ponto de vista urbanístico, o mar à cidade.
Uma outra marca que ficou, por exemplo, é o Corcovado, que ele cria em 1881 como ponto de mirada, constrói lá um restaurante e leva o sistema cremalheira (sistema tecnológico de trilhos do monte Righi da Suíça) para o Corcovado e cria um ponto turístico no Rio de Janeiro. Depois em 1931 entraria a estátua do Cristo, que também virou uma marca da cidade e que não seria possível sem essa obra de Pereira Passos anterior.
Pereira Passos leva também o bonde elétrico, no início da república, a passar por cima dos Arcos da Lapa, que é o cúmulo da modernidade. O Teatro Municipal, a incorporação do mar à malha urbana, todas essas invenções foram criações do urbanismo original de Pereira Passos, de uma escola brasileira de reflexão e produção de saber urbano.

» Em que sentido você acredita que essa trajetória histórica da cidade pode ajudar a compreender o Rio de Janeiro de hoje?

André: Cabe lembrar que um dos efeitos da reforma foi dado pela sua incapacidade de criar uma ruptura com uma tradição de exclusão social do Brasil e do Rio de Janeiro, que foi a maior cidade escravista de todo o ocidente no século XIX.
Havia uma forma muito distendida, muito pouco normalizada e controlada pelo Estado de ocupação do espaço urbano. Pereira Passos não consegue lidar com isso porque a sua reforma é uma tentativa de integração conservadora, que significa dizer que ele tenciona integrar pela própria estrutura urbana, pelos próprios movimentos em relação à educação, à política de alojamento, mas eles são ou insuficientes ou inadequados, uma vez que o conceito de civilização de Pereira Passos é muito claro e muito restrito.
Civilização, para Pereira Passos, significa uma ética urbana burguesa europeia do século XIX, e o Rio de Janeiro era exatamente o contrário, uma cidade apinhada de ex-escravos e de europeus meridionais aldeões que tinham uma relação distendida na forma de ocupação do espaço urbano do Rio de Janeiro. Ele tenta assimilar essas camadas populares pela linguagem arquitetônica sedutora preponente de hábitos civilizados (hábitos europeus urbanos do século XIX). Ou seja, quer-se seduzir para que sejam civilizados, para que parem de andar descalços, sem camisa etc, os conceitos de época de civilização. E, por outro lado, com a instância da repressão através de leis que aplicavam multas, como, por exemplo, proibição de escarrar na rua, de andar com vacas leiteiras a vender leites na rua, de fazer fogueiras, soltar balões etc.
Portanto, nem Pereira Passos e nem Rodrigues Alves conseguiram compreender a natureza própria da cidade que era uma cidade escravista, infestada de europeus aldeões e que desconhecia os códigos de civilidade próprios da sociedade que começavam a ingressar no capitalismo, como foram as cidades europeias da segunda metade do século XIX. Então Pereira Passos não teve sucesso nisso nem tampouco Rodrigues Alves, eles só fizeram perpetuar problemas na cidade. Foi uma reforma portanto de resultados parciais e limitados.

» Quais são os seus planos para o futuro? Planeja continuar nesse campo de estudo?

André: Meus planos de estudo estão ligados a um componente importante da população brasileira que, de um lado, são as populações negras escravas que eram objetos da exploração do trabalho escravo de ganho e, por outro lado, da cultura aldeã portuguesa e galega que são dois tipos que se apresentaram muito na cidade também.
Então, o meu interesse é estudar, de um lado, aldeões portugueses, de outro, os herdeiros da escravidão, sobretudo da de ganho, e tentar compreender como a cultura e a sociedade carioca se constituem a partir dessas referências.


Publicado em: 22/01/2018





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