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Entrevista com autor

Joana de Vilhena Novaes



No entender de nossa entrevistada, Joana de Vilhena Novaes, trata-se de uma constatação: o mundo não teria sido projetado para eles. Partindo dessa realidade, e com o intuito de criticar o que chama de “ditadura da beleza e da magreza”, recentemente, a autora publicou O intolerável peso da feiúra: sobre as mulheres e seus corpos (Editora PUC-Rio/Garamond). Em sua reflexão, Joana é taxativa: quem não se enquadra hoje nos padrões de beleza vigentes sofrerá o castigo da rejeição e exclusão sociais. Mais do que propor uma “ação afirmativa” para os gordos, a escritora mostra que é possível ganhar a luta contra essa “ditadura da magreza”.

Entrevistada deste mês na seção Autores, Joana de Vilhena Novaes é doutora em Psicologia Clínica (PUC-Rio) e coordena o Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS) da Universidade. Hoje com 29 anos, alia a carreira acadêmica à consultoria a várias empresas especializadas em estética feminina, como, por exemplo, a Dove, quando desenvolveu a campanha “O sol nasce para todas”.

Nos últimos dez anos, a autora tem realizado pesquisas de campo em hospitais e academias, e se tornou especialista em transtornos alimentares. Nesta entrevista, Joana de Vilhena Novaes comenta como se interessou pelo tema, a metodologia empregada na pesquisa e fala sobre seu pioneirismo no estudo da beleza feminina pelo viés da psicologia.

» Editora PUC-Rio: Em que momento começou a pensar sobre os padrões de beleza da sociedade contemporânea até culminar na autoria do livro Intolerável peso da feiúra?

Joana de Vilhena Novaes: O livro surgiu de minha tese de doutorado, com algumas adaptações, feitas na conversão para o formato de livro. É fruto de uma pesquisa que realizei nos últimos 10 anos, quando ainda era estudante de graduação de psicologia. Foi nessa época que pensei pela primeira vez em estudar a ditadura da beleza e do corpo. A pesquisa iniciou-se, então, na minha monografia de final de curso, e se estendeu no mestrado e, mais recentemente, em minha tese de doutorado.

Nessa fase da minha vida, a minha questão era: “será que só eu acho muito chato esse negócio de malhar?” Realizei, então, pesquisa de campo para saber se somente a mim a malhação incomodava, ou se havia uma dimensão de prazer nessa atividade. No meu caso, restringi a pesquisa à prática corporal específica da malhação. A monografia teve como tema as academias da zona sul carioca. Inicialmente pesquisei mulheres de classe média e classe média alta, e posteriormente passei a analisar mulheres pertencentes a outras classes sociais.

No mestrado observaria que essas mulheres malhadoras tinham uma “tal” rotina no seu cotidiano, uma série de cuidados e outras práticas além da malhação. Elas também se submetiam a uma série de intervenções estéticas. Então, elegi a cirurgia plástica estética como um segundo campo para a pesquisa. Isso porque o livro apresenta três espaços de análise: o primeiro, academia de ginástica; o segundo, as cirurgias estéticas; e o terceiro, a intervenção cirúrgica, hoje muito difundida, denominada gastroplastia redutora, que promove a redução do tamanho e do volume do estômago.

A essa altura eu já havia chegado ao doutorado com os dois primeiros campos pesquisados, e satisfeita com as conclusões acerca deles. Faltava ainda compreender por que as mulheres hoje se submetem a intervenções tão drásticas como a da gastroplastia, entre outras. Conversando com colegas do departamento, antropólogos, sociólogos, fui me dando conta de que eu não falava de beleza, mas sim da feiúra. Daí surgiu o título “O intolerável peso da feiúra”. Essas práticas, na verdade, surgiram para se fugir da feiúra.

» Editora PUC-Rio: Qual foi, então, a metodologia adotada para o estudo do que você chamou de “o intolerável peso da feiúra”?

Joana de Vilhena Novaes: O trabalho é um estudo qualitativo onde busquei fazer uma etnografia da relação das mulheres com seus corpos. Realizei entrevistas com mulheres de diferentes idades e classes sociais (nas diferentes etapas da pesquisa) buscando em cada etapa aferir o grau de satisfação ou não com o próprio corpo e quais as práticas corporais adotadas... Inicialmente dividi em duas faixas etárias: uma de meninas de 15 a 25 anos, e outra, de mulheres de 25 anos em diante. O momento inicial da minha pesquisa se deu em visitas a clínicas particulares. Posteriormente, passei a frequentar o cotidiano do hospital público – aliás, um ponto alto da minha pesquisa. Em seu ambulatório, pude desenvolver minhas pesquisas e acompanhar serviços voltados para população de baixa renda, como a cirurgia estética. O último grupo de informantes da minha pesquisa foi o de mulheres obesas mórbidas. Fui para um campo em que o sofrimento é acentuado. A obesa mórbida vive um nível de exclusão social que as demais mulheres não vivem. Foi a partir desse estudo que surgiu a ideia da criação do Núcleo de Doenças da Beleza que atualmente coordeno. O Núcleo faz parte, atualmente, de um dos muitos projetos do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS), vinculado à Vice Reitoria Comunitária da PUC-Rio.

» Editora PUC-Rio: Conte-nos, então, sobre a criação e o trabalho do Núcleo de Doenças da Beleza.

Joana de Vilhena Novaes: O Núcleo surgiu a partir da pesquisa, porque na época eu trabalhava no Centro de Integração de Atendimento Psicológico (CIAP), do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. Funcionou para mim como uma espécie de especialização, porque o estudante podia desenvolver sua pesquisa acadêmica e ao mesmo tempo ter um campo de prática supervisionada. Com o término de meu doutorado, com as mudanças efetuadas no CIAP e com a criação do LIPIS, surgiu a oportunidade de ampliar o serviço, vinculando-o à VRC.

» Editora PUC-Rio: A psicologia dá espaço para a discussão em torno da beleza, da feiúra?

Joana de Vilhena Novaes: Hoje em dia esse tema é amplamente discutido e a mídia dar espaço para ele é importante. Mas no começo dos meus estudos havia muito preconceito da academia – ressalvando que sempre fui muito estimulada por minha orientadora Monique Augras. Contudo, não restringi minha pesquisa à área de psicologia. Dialogo muito com as ciências sociais. Comecei usando a psicologia social, que era um campo que me interessava, mas achei necessário expandir para outras áreas do conhecimento o debate em torno da questão, tais como a antropologia e a sociologia.

» Editora PUC-Rio: Quais são os principais teóricos que contribuíram para a formulação de sua tese?

Joana de Vilhena Novaes: O primeiro autor com que me deparei foi Pierre Bourdieu, que me ajudou a entender a noção de campo, sobretudo o meu primeiro campo, o das academias de ginástica, para discutir o conceito de habitus. Courtine, Malysse e Remaury, dentre outros, me auxiliaram muito, na discussão da relação da mulher com seu corpo. Mauss, Da Matta, Rodrigues e Strozemberg não poderiam estar ausentes na perspectiva antropológica que norteia a tese – ou seja: o corpo é sempre uma construção social. Dentro da literatura da sociedade do consumo, diversos autores me serviram de inspiração, como Jean Baudrillard, e na área de psicanálise, além de Freud, é claro, não há como não fazer referência a Jurandir Freire Costa, que explora esse sujeito contemporâneo aprisionado em seu corpo.

» Editora PUC-Rio: A máxima sugerida no seu livro, “só é feia quem quer”, é fato recente?

Joana de Vilhena Novaes: Trata-se de um fenômeno dos últimos 25 anos. Há um marco importante: a educação sexual feminina. A mulher se liberta de uma série de ditames, repensa seus valores, as questões morais, e surgem situações novas como a presença da mulher no mercado de trabalho. Contudo, podemos questionar está “liberação”, uma vez que a jornada da beleza, talvez possa ser entendida como mais uma tarefa acrescentada à agenda feminina. Os teóricos dessa área normalmente tendem a entender a ditadura da beleza como mais uma forma de aprisionar a mulher no seu próprio corpo. Com um agravante – como aponta Baudrillard, há uma “moralização do corpo feminino”.

» Editora PUC-Rio: As pessoas que não têm dinheiro para manter a “ditadura da beleza” se sentem excluídas socialmente?

Joana de Vilhena Novaes: Se sentem excluídas, sim... Mas essa é a engrenagem da sociedade de consumo. O indivíduo acaba sempre por se sentir insatisfeito, sempre demandando, angustiado, sempre precisando consumir algo. Por outro lado, a mídia é democrática. O discurso está aí, mas nos apropriamos dele da maneira como queremos. Mas há situações como as que presencio em lugares como os hospitais da prefeitura. A gente, por exemplo, sabe que todo pós-operatório de cirurgia estética requer toda a sorte de cuidados, de cremes, massagens, drenagens etc. Isso é caro! Sai um “pacotão” de produtos para a manutenção. E, claro, o hospital público não oferece o tratamento pós-operatório. Mas é impressionante como as pacientes (que não têm dinheiro) se organizam, trocam informações para garantir o sucesso e continuidade no tratamento. É fruto, acho, daquele conhecimento gerado pela sabedoria popular. E assim como a área da saúde, a área da estética também acaba influenciada pelo desenvolvimento de técnicas alternativas, “populares”. Uma entrevistada minha disse que ela não frequentava academia, mas subia na laje, colocava tijolo e fazia o exercício de step. Há estudos na área de economia, que vêm se consolidando de 20 anos para cá, que informam um aumento sempre crescente do percentual dos salários que é destinado ao consumo de bens ditos supérfluos pelas classes menos favorecidas.

» Editora PUC-Rio: Como psicóloga, deve atender vários pacientes com baixa auto-estima. Há relação entre baixa auto-estima e gordura?

Joana de Vilhena Novaes: Dentro desse universo do qual fazem parte uma parcela de minhas entrevistadas, e partindo do princípio de que o Rio de Janeiro poderia ser considerado uma “meca” da formatação dos corpos, diria que está cada vez mais difícil encontrar uma mulher gorda que se sentisse a vontade com seu corpo – não falaria nem em se sentir feliz não! -, mas sim se sentir à vontade para circular livremente pela praia, por exemplo. Já existe um lugar comum em se dizer que toda mulher pode perder 2 ou 3 kilos! O mundo não foi projetado para os gordos! No caso das obesas ela não irá caber na cadeira do cinema, do avião, não encontrará roupas transadas etc. As pessoas à sua volta olham para a pessoa gorda na praia com “cara de nojo”! E não sou eu Joana quem está falando, são as minhas entrevistadas que me relataram isso. Há depoimentos dramáticos e que provocam muita tristeza no leitor.

Mas há algo mais grave ainda e que não é falado – as empresas não estão contratando pessoas gordas! Se você não é capaz de agenciar com competência seu corpo, certamente ao será capaz de ter um bom desempenho no trabalho – o preconceito é imenso, mas neste caso, ainda não está denunciado. Mais ainda, segundo uma pesquisa do NY Times, as mulheres bonitas ganham muito mais e têm muito mais facilidade em suas carreiras. Não há auto-estima que resista!

» Editora PUC-Rio: O intolerável peso da feiúra pode ser considerado uma crítica à sociedade contemporânea?

Joana de Vilhena Novaes: Considero o livro uma denúncia contra a ditadura estética da magreza. Ele tenta ser um libelo contra o preconceito, porque eu estou falando de exclusão social – a intenção é essa –, não perdendo de vista a dimensão de resistência e as formas criativas como as pessoas arranjam para lidar com isso. Ao contrário das outras formas de preconceito (raça, religião etc) o preconceito contra a gordura é socialmente validado!

Felizmente ao falarmos de sujeito estamos falando de singularidade e, consequentemente de possibilidades de resistência. Se o corpo está cada vez mais “docilizado” e “disciplinado” como aponta Foucault, autor que utilizo bastante, o sujeito também encontra formas de rebelar-se. Daí não podermos dizer que todas as pessoas gordas e/ou feias estão submetidas desta forma a esta ditadura. Felizmente!

 


Publicado em: 28/08/2015





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