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Entrevista com autor

Karl Erik Schøllhammer



“Henrik Ibsen é considerado o dramaturgo mais importante depois de Shakespeare. É, sem dúvidas, o escritor mais importante do século XIX”. A afirmação é de Karl Erik Schøllhammer, entrevistado deste mês da seção Autores. Professor do Departamento de Letras da PUC-Rio, Karl Erik organiza agora Henrik Ibsen no Brasil, próximo lançamento da Editora PUC-Rio (em coedição com a 7Letras).

Nesta entrevista, o pesquisador revela o porquê de se publicar um livro sobre o poeta norueguês, que revolucionou a técnica teatral e inovou – e polemizou – nos temas da dramaturgia, passando a ser conhecido como o pai do teatro moderno.

Karl Erik já havia organizado (com Heidrun Krieger Olinto), anteriormente, Literatura e Cultura e Literatura e Mídia (em ambos, parceria Editora PUC-Rio/Edições Loyola). Literatura e Cultura é o terceiro e-book oferecido gratuitamente no site da Editora PUC-Rio – o internauta já pode fazer download da obra completa.

As novas mídias como meio de democratização do acesso a livros e o impacto da internet na produção literária são assuntos também presentes nesta conversa com Schøllhammer, que discute ainda o papel da Literatura na Cultura e explica por que a Literatura não perdeu o seu lugar genuíno de formador de discurso.

» Editora PUC-Rio: Por que Henrik Ibsen é considerado o “pai do teatro moderno”? Que importância teve o dramaturgo para a cultura?

Karl Erik Schøllhammer: Henrik Ibsen é muitas vezes destacado como o dramaturgo mais importante depois de Shakespeare, o que não é pouca coisa. Isso porque a obra dele influenciou todas as transformações que aconteceram durante o século XIX e inaugurou o teatro realista. A obra de Ibsen possui três fases nítidas que refletem muitos dos movimentos que predominaram no teatro do século XIX. Uma parte inicial histórica, mais romântica; em seguida, surgiu um teatro comprometido com denúncias sociais e uma dramaturgia limpa, sem exageros líricos, épicos e expressivos, renovando toda a tradição teatral. Ibsen introduziu a verossimilhança no teatro moderno. Na parte final, nas últimas quatro peças especificamente, Ibsen cria um teatro com fortes elementos simbólicos. Por tudo isso e também pela abrangência de sua obra – praticamente escreveu durante 50 anos –, tornou-se, para o teatro, o escritor mais importante do século XIX.

» Editora PUC-Rio: Quais são os principais temas abordados por Ibsen em suas peças?

Karl Erik Schøllhammer: Por ter várias fases, Ibsen possui várias questões. Mas podemos dizer que as peças mais importantes são aquelas de conteúdos contemporâneos e de denúncias sociais. Essas denúncias sempre estão situadas no contexto de fortes estudos individuais, de estudos existenciais de personagens que estão em conflitos motivados por fatores externos. Ibsen se caracteriza por essa interpretação subversiva, individual, existencial de toda uma problemática social que pode ter a ver com a família, com a corrupção da política, com a poluição da natureza ou com a relação homem-mulher. Ele usa todo esse material, sem nunca deixar o tema predominar sobre a questão conflituosa do próprio personagem. Os temas das peças sempre são ligados a problemas existenciais.

» Editora PUC-Rio: E por que a sociedade e os críticos não teriam compreendido suas obras em um primeiro momento?

Karl Erik Schøllhammer: Porque são complexas. E polêmicas também. Então, não entender também é não querer entender. Aqui no Brasil, ele foi introduzido muito cedo. A primeira peça dele no país – isto é discutido no livro Ibsen no Brasil – foi montada em 1895, quando o autor ainda era vivo. Tanto aqui no Brasil quanto também na Europa, a burguesia ficava chocada porque ele tocava em temas como adultério, liberdade sexual e doença hereditária. Temas que, para a época, não eram considerados dignos de serem tratados numa peça teatral. Esse lado polêmico de suas peças fazia com que uma parte dos críticos descartasse sua obra por considerá-la obra-panfletária. Ibsen era acusado de naturalismo e de ser determinado pelos conteúdos polêmicos. Ou seja, ignorava-se o que tinha de inovação dramatúrgica e técnica a favor de uma discussão sobre os temas.

» Editora PUC-Rio: Por que publicar um livro sobre Ibsen?

Karl Erik Schøllhammer: Ibsen tem tradição no Brasil. Ele é uma presença constante em toda a história do teatro brasileiro do século XX, desde Eleonora Duse, em 1907, a Antunes Filho, em 1971, interpretando Peer Gynt, uma crítica contra um estado autoritário. E nos últimos anos, assistimos a várias outras encenações de Ibsen com Aderbal Freire Filho, com o Teatro do Pequeno Gesto, e outros. A sua obra continua sendo muito atual. Além disso, Ibsen é um desafio de conteúdo e de forma teatral para quem gosta de teatro. É uma obra de muita qualidade, que impõe desafios ao diretor de teatro, que, por sua vez, pode alavancar sua capacidade dramatúrgica.

» Editora PUC-Rio: Já havia organizado, com Heidrun Krieger Olinto, anteriormente, as coletâneas Literatura e Cultura e Literatura e Mídia. Como é relacionar a Literatura com a Cultura e estudar a influência da Mídia sobre ela?

Karl Erik Schøllhammer: Tenho trabalhado nos últimos 10 anos junto à professora Heidrun Krieger Olinto com os Estudos da Literatura e como eles se redefinem junto com as mudanças nas fronteiras do objeto literário. Temos feito uma série de eventos discutindo como a Literatura perdeu sua autonomia e forçou os Estudos da Literatura a uma redefinição. Durante muito tempo, os Estudos da Literatura pareciam ameaçados de serem absorvidos por outras áreas das humanidades e das ciências sociais. Pode-se criticar, sob certo ponto de vista, os estudos culturais por essa consequência, por enfocar a Literatura a partir de seus fatores externos, perdendo a propriedade dela. O nosso projeto tem sido resgatar essa propriedade dos Estudos da Literatura, demarcando as fronteiras deles, e rearticulando as relações com outras áreas sob a ótica da própria Literatura. Muitas vezes, o que se tem feito em abordagens históricas ou culturalistas é ler a Literatura como um sintoma de outras questões. Nós queremos que a Literatura seja lida na perspectiva de sua própria contribuição e, assim, em diálogo real com a mídia, com a cultura e com a sociedade.

» O título Literatura e Cultura é um dos que passa a ser oferecido no espaço E-books no site da Editora PUC-Rio. Como você recebeu o convite para que esta obra fosse transposta para o meio eletrônico?

Karl Erik Schøllhammer: Achei muito positivo. É extremamente importante que isso aconteça, porque vai facilitar o acesso ao livro e destacar a atualidade das leituras dos diferentes trabalhos apresentados. Uma coisa que me preocupa é que muitas vezes pesquisamos, publicamos, editamos, mas os nossos alunos têm pouco acesso aos resultados. O e-book pode ser uma democratização desse acesso. Nós queremos que os nossos trabalhos sejam lidos agora. E não daqui a 10 anos na Biblioteca Nacional.

» Que influências têm exercido as novas mídias, como a Internet, na produção literária?

Karl Erik Schøllhammer: As novas mídias tornaram-se objeto para a Literatura, ou seja, estamos discutindo essa nova realidade dentro das narrativas literárias. No entanto, o mais importante é estudar esse processo como uma democratização do consumo e da produção da Literatura. Há 20 anos se falava que a escrita perderia seu privilégio de expressão cultural genuína, e que as gerações futuras iriam viver numa realidade da imagem, e não da escrita. Graças à Internet, temos uma nova cultura da escrita, um novo estilo de escrever, que vem se refletindo na literatura contemporânea brasileira. Não só através de e-books, ou de livros que saem de blogs, ou de outras formas de escrita espontânea, mas também porque se quebrou esse mistério sobre o escritor. As pessoas conseguem escrever e editar com mais facilidade e até mesmo criar seu próprio lugar à margem dos circuitos comerciais do livro. E isso está tendo consequências fortes sobre narrativas; sobre a relação entre imagem e texto. Agora estamos vendo apenas os primeiros passos.

» A Literatura interfere na definição de Cultura?

Karl Erik Schøllhammer: A Cultura é apenas uma noção que inclui fenômenos múltiplos como a Literatura. A Cultura em si não tem homogeneidade. Ela é feita de uma multiplicidade de manifestações. Por isso, a literatura continua sendo um formador cultural muito importante. Sem a Literatura e sua renovação constante a produção televisiva e audiovisual que forma nossa indústria cultural perderia um impulso criativo fundamental. A Literatura continua com muito vigor, e não está ameaçada de extinção, de extermínio. E tudo indica que ela tem um papel educativo fundamental. A leitura é um componente na formação básica escolar do aluno, e precisa ser promovida, resgatada. Eu dou aula de Literatura, e tento ler o máximo possível para os meus alunos, ou com eles. Fico surpreso em ver como a boa literatura cria pontes sobre aversões e preconceitos contra o que é a Literatura. As pessoas ficam maravilhadas quando têm um contato real com ela. Nosso papel aqui na universidade também é discutir as questões fundamentais da nossa realidade, utilizando a contribuição da Literatura, para que o aluno não perca uma experiência, que é fundadora da sua própria formação.

» Quais são as tendências da literatura contemporânea brasileira?

Karl Erik Schøllhammer: Podemos dizer que a tendência geral é a da diversidade. Essa nova geração de escritores aponta para direções contrárias. Podemos ver a volta de uma literatura histórica, de obras tradicionais em termos de forma, estrutura narrativa e interesses culturais; de outra que trabalha com a memória nacional, regional, e até mesmo urbana, que tem uma preocupação com a realidade. Temos novos autores escrevendo uma Literatura que fala do lado intimista, que sempre foi forte com Clarice Lispector, Lucio Cardoso. Nas minhas pesquisas, tenho uma preocupação com a Literatura que se coloca dentro de uma determinada responsabilidade com os acontecimentos do país. Trabalho muito com a Literatura na sua relação com a política e com a ética. Não necessariamente uma literatura engajada, mas que se coloca dentro da realidade. Um realismo literário, que não tende a voltar ao realismo do século XIX, como Ibsen, por exemplo, mas de reformular, o que significa refletir a realidade e intervir nela. Encontramos hoje uma literatura que procura ser um contraponto a uma tendência generalizada de ficcionalização de toda nossa experiência do real. Eu vejo uma Literatura que se propõe chegar perto do leitor, criar efeitos de realidade, emoções de realidade, muitas vezes violentas por se tratar de uma realidade brutal.

» Quais são seus próximos projetos?

Karl Erik Schøllhammer: Estou escrevendo um livro com o título provisório de Crueldade do Real, sobre essa Literatura que destaca o aspecto mais indigesto e violento da realidade com uma linguagem que recria a realidade ao invés de representá-la. É problemático, claro, mas também interessante, pois é uma tendência que podemos acompanhar na literatura brasileira desde os anos 1960. É uma literatura urbana de denúncia contra a degradação humana e os problemas emergentes das grandes cidades brasileiras. E agora, 40 anos depois da estreia de Rubem Fonseca, vivemos uma situação em que esses problemas já predominam a realidade da maior parte da população. Minha preocupação é investigar como a literatura está processando isso.

Em outro projeto paralelo procuro responder de forma mais completa à pergunta que você me fez acima, de quais são as tendências da literatura contemporânea brasileira em geral. Até o fim do ano pretendo trabalhar nesses dois projetos.


Publicado em: 31/08/2015





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