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Entrevista com autor

Oswaldo Munteal e Larissa Grandi



A História do século XX ainda está sendo contada. O livro A imprensa na História do Brasil: fotojornalismo no século XX foi recentemente lançado com o intuito de contribuir como referencial teórico para a compreensão do Brasil contemporâneo. O título oferece uma nova leitura desse período de uma forma dinâmica e original: uma obra fartamente ilustrada com uma seleção de fotografias e reportagens para retratar os últimos cem anos da imprensa escrita e da história brasileiras.

A obra, patrocinada pelo Banco Itaú e publicada pela Editora PUC-Rio em coedição com a Editora Desiderata, percorre as décadas do século passado recuperando diversas fotorreportagens marcantes – algumas até pitorescas – que a ilustram em suas duzentas páginas.

Seus autores, a fotógrafa Larissa Grandi e o historiador Oswaldo Munteal, da PUC-Rio e da UERJ, comentam, nesta entrevista, a difícil tarefa da equipe de pesquisadores de selecionar os acontecimentos e imagens do século XX que fizeram parte da obra. Além disso, discutem a possibilidade de terem produzido um título-referência para as áreas de comunicação e história e expõem suas opiniões sobre o fotojornalismo e o estudo da História nos dias de hoje.

» Editora PUC-Rio: O livro Imprensa na história do Brasil já está nas livrarias e vem despertando o interesse da mídia e do público leitor. A obra pode tornar-se uma referência nas áreas de história e jornalismo?

Larissa Grandi: Antes de mais nada, o que eu destacaria no processo de elaboração do livro foi o trabalho em equipe. Todos se dedicaram muito ao projeto, à ideia. Trabalhamos em esforço comum e acreditamos no resultado final positivo. Além disso, na minha opinião, o projeto gráfico ficou muito bom, a apresentação escrita pelo Evandro Teixeira é bastante explicativa, assim como as legendas e os textos que falam de cada década do século XX. A obra pode vir a tornar-se uma referência sobre o tema porque o livro permite várias leituras. Podemos ler os textos introdutórios às décadas, que são visitadas uma a uma em cada capítulo, que oferece uma contextualização histórica ao leitor; há também o conteúdo das reportagens do século XX selecionadas, que é legível, e das legendas que acompanham as fotorreportagens e as justificam no livro. E ainda podemos considerar a leitura das imagens, das fotografias. Logo, o livro não se esgota na primeira leitura, no primeiro momento. É a história contada por ela mesma, ou seja, com a voz das pessoas na época, então não há distanciamento. Por meio dos textos históricos sobre a imprensa ao longo das décadas e das legendas sobre as reportagens, conseguimos conciliar essas épocas, sem um olhar puramente estrangeiro, isto é, de hoje.

» Editora PUC-Rio: Como foi a experiência de realizar um projeto encomendado?

Oswaldo Munteal : Um texto feito por encomenda, um projeto como esse, desmistifica a visão de que o professor universitário, o acadêmico, não pode trabalhar com um “pacote fechado”. Tivemos total liberdade para trabalhar, o que contribuiu bastante para que alcançássemos esse resultado. Nós, professores universitários, temos que começar a ter uma visão mais flexível de nossos temas, de nossa especialização, ligada também às demandas que aparecem na sociedade.

» Editora PUC-Rio: Fotorreportagens marcantes – muitas vencedoras de prêmios – foram selecionadas e reproduzidas no livro com o objetivo de retratar todo o período do século passado. Como foi definido o critério para escolher as reportagens que entrariam no livro?

Larissa Grandi: As decisões eram tomadas pela equipe em conjunto. Fazíamos reuniões periódicas para que todos soubéssemos como caminhava o processo de elaboração. O critério foi buscar compreender como se estabeleceu, no século passado, a relação da História com a Imprensa, e a partir dessa definição decidíamos o que faria parte do livro. No início do século XX, destacamos como a fotografia começava a fortalecer-se na imprensa. Já havia, por exemplo, a utilização de muitas fotografias sensacionalistas para noticiar os fatos. Além disso, não deixamos de selecionar as fotografias premiadas e aquelas que marcaram a história, relacionadas a fatos históricos importantes. Há, ainda, matérias emocionantes, curiosas e divertidas. Mais do que uma simples pesquisa histórica ou fotográfica, é uma possibilidade de observação em um sentido mais amplo, de moda, de sociedade, de comportamento.

» Editora PUC-Rio: Qual foi o diferencial dessa pesquisa?

Oswaldo Munteal: Foi uma pesquisa bem ampla, abordando todo o século XX. Procuramos adaptar às circunstâncias, isto é, ao seu movimento. Quando se faz uma pesquisa em qualquer âmbito das ciências humanas, é importante ter clareza de uma certa capacidade de mudança de rota. Na medida em que a documentação, no nosso caso, as imagens surgiam, e juntamente com elas, a parte escrita, tínhamos que alterar nossas hipóteses. Portanto, nesse sentido, o trabalho se revelou como uma pesquisa “moderna”. Não tínhamos tudo preconcebido para confirmar o que queríamos dizer. A documentação se apresentou e exigiu que não tivéssemos uma visão “engessada” do século XX, e sim uma certa flexibilidade aos temas. Outro ponto importante foi o olhar para a História como um olhar sempre do presente; toda História é uma História do presente, não é uma história do passado. Nossa preocupação sempre foi compreender as questões e as demandas contemporâneas para olhar para trás. O memorialista Pedro Nava dizia que a “História é feita de faróis voltados para trás”, ou seja, iluminada pelos acontecimentos do passado, mas sempre preocupada com o presente.

» Editora PUC-Rio: O trabalho da imprensa esteve frequentemente ligado a marcos históricos, registrando-os e documentando-os. Hoje em dia, em que medida a disciplina História depende também da imprensa?

Oswaldo Munteal: De fato, essa é uma questão muito importante. Vivemos hoje um período em certo sentido excelente: temos uma abertura política, liberdade de imprensa, ou seja, um momento propício para aproximar a universidade da sociedade. A relação da história com a imprensa é uma demonstração dessa abertura. Nós, professores de História, e de outras áreas do conhecimento, temos que estar mais preparados para o enfrentamento das questões que estão colocadas na sociedade. Hoje os historiadores estão com uma aproximação maior com essa realidade. Vejo um sem-número de trabalhos feitos por jornalistas sobre a história. Nós, historiadores, podemos também escrever sobre áreas conexas. Então, acho esse um bom movimento. Neste momento em que o jornalismo se torna instantâneo, e a história presa aos cânones da universidade, o nosso trabalho é interessante porque interage com outras áreas. A imprensa é uma fonte importante de informação para o historiador, para os jovens estudiosos que estão começando nos cursos de graduação de História. Mas o nosso livro também se volta para os estudantes de Ciências Sociais e Comunicação Social. A imprensa é uma fonte documental para o historiador, como também é uma fonte de inspiração para a informação rápida. Nós historiadores temos que estar atentos a isso

.» Editora PUC-Rio: Os meios eletrônicos vêm despertando crescentemente nossa atenção. Mas, ao longo do século XX, os veículos impressos predominaram, e isso muito se deveu ao fotojornalismo. Como você analisa o fotojornalismo na atualidade?

Larissa Grandi: De fato, há uma mudança que podemos perceber no fotojornalismo, principalmente desde o início do século XXI. A utilização das câmeras digitais pelos fotógrafos representou uma grande mudança, mas uma outra começa a surgir. O jornal O Globo, na ocasião do temporal de 27/01/2006 [que deixou grande parte da cidade do Rio de Janeiro alagada e causou a morte de seis pessoas no estacionamento de um shopping center], publicou em seu site uma página com fotos dos alagamentos feitas por seus leitores. Havia fotos não apenas de câmeras comuns e digitais, mas também de celulares: todas registrando os acontecimentos. Outro ponto importante é que a fotografia tem um status de verdade, e sempre permite releituras. Mas deve-se sublinhar que, no fotojornalismo, a fotografia não possui uma importância maior que o texto, ela é apenas uma outra linguagem que está diretamente ligada a ele. Além disso, a imagem mobiliza mais as pessoas, e no livro encontramos várias dessas imagens que estão na memória popular.

» Editora PUC-Rio: Quais acontecimentos do século XX mereceram maior atenção da imprensa?

Larissa Grandi: É difícil dizer. Imagino que a matéria sobre a autópsia de Maria, publicada na capa da Revista da Semana do início do século XX tenha sido bastante forte. Há ainda as reportagens sobre funerais de pessoas importantes, que certamente marcaram época. Mas, a meu ver, o que ainda merece uma exploração maior é o período da ditadura, justamente devido ao excesso de conteúdo. É bastante relevante a matéria do Jornal do Brasil sobre a morte do Vladimir Herzog. As revistas Cruzeiro e Realidade também trazem registros importantíssimos.

Oswaldo Munteal: Concordo! Os anos 1960 foram riquíssimos em material, mas infelizmente ainda são esquecidos. Muita gente se esqueceu que em 2006 a morte de João Goulart completa 30 anos. Espero que, por ser um livro destinado não apenas aos alunos de jornalismo, mas também ao público em geral, o Imprensa na História do Brasil desperte o interesse do leitor para fatos dessa época.

» Editora PUC-Rio: Notamos a presença, no livro, de algumas matérias inusitadas e outras cômicas mesmo...

Larissa Grandi: Há várias. Uma delas, a “Um drama sensacional”, retratada pela revista Fon Fon!, ocupa quatro páginas inteiras. O interessante é que os redatores dessa matéria, que trazia em detalhes a história de um crime passional, ainda esclareciam que a revista nunca teve o intuito de veicular fatos “sanguinários ou criminosos”, a não ser quando fosse esse o “desejo do público”. Tem também uma reportagem ousada para a época, da revista Cruzeiro, que traz toda a preparação de um ritual de candomblé. Certamente, os fatos que chamamos de inusitados estiveram sempre à margem da pesquisa histórica, mas servem como relevantes registros, trazendo personagens que, apesar de sua importância momentânea, são reflexos de uma sociedade.

» Editora PUC-Rio: Por último, perguntamos sempre aos entrevistados sobre seus próximos projetos...

Larissa Grandi: No momento estou terminando o doutorado, mas vou preparar duas novas exposições de fotografia que têm como tema o “corpo”, assunto que está diretamente ligado à minha tese. Também participo de projetos sociais, sempre com base na fotografia.

Oswaldo Munteal: Estou dando prosseguimento a diferentes pesquisas na História, e espero que este livro ajude a despertar o interesse nas pessoas e também nos pesquisadores a respeito da nossa História e imprensa.


Publicado em: 31/08/2015





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