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Entrevista com autor

Marcelo Gantus Jasmin



Com a publicação de História dos Conceitos: diálogos transatlânticos, a Editora PUC-Rio, em coedição com as Edições Loyola, oferece um título com textos-chave para a compreensão da teoria e prática da história conceitual. Derivada da história do pensamento político e da história intelectual, esta disciplina tem sido considerada uma das mais produtivas e promissoras áreas das ciências históricas e sociais.

Tanto este último título quanto o primeiro, História dos conceitos: debates e perspectivas, tiveram como organizadores Marcelo Gantus Jasmin, professor de Teoria da História (PUC-Rio), e João Feres Júnior, professor do IUPERJ. Entrevistamos, para a seção Autores deste mês, Marcelo Jasmin, a fim de oferecer ao nosso leitor uma ampla contextualização em relação ao surgimento e aos objetivos das pesquisas realizadas em história conceitual.

Nesta entrevista, Marcelo Jasmin explica a importância de se estudar os conceitos, que são gerados pelo fenômeno fundamental da linguagem. Como afirma: “os fenômenos históricos somente são apreendidos pelos atores históricos por meio da linguagem, que é conceitual.” Os conceitos surgem, então, para “tentar estabilizar o mundo”. Entre os temas abordados durante a entrevista, o organizador nos explica como são estabelecidos os critérios para a definição dos conceitos que devem ser alvo de pesquisas; comenta a razão de Reinhart Koselleck (autor de Futuro Passado – Editora PUC-Rio/Contraponto) ser um dos maiores expoentes da História dos Conceitos; e fala sobre as suas várias vertentes, que dialogam criticamente entre si.

» Editora PUC-Rio: Qual é a importância de se estudar a história conceitual?

Marcelo Jasmin: A linguagem é um fenômeno fundamental para ser tratado pelo estudo da História. Não há somente uma história dos eventos, mas também a história daquilo que se diz sobre eles. Especialmente nos âmbitos social e político – que são as áreas da História dos Conceitos com as quais costumo trabalhar –, os conceitos são elementos centrais e não só como indícios ou sintomas de que algo está acontecendo. Os fenômenos históricos são apreendidos pelos diversos atores em seus tempos com uma linguagem conceitual. Um fenômeno muito interessante é o fato de a linguagem acabar constituindo objetos que vivem na História. Tomemos como exemplo a discussão sobre democracia nos anos 1930. Havia tantas formas de democracia quanto projetos que estavam presentes ali. No estudo da linguagem democrática, chega a se falar em democracia totalitária, autoritária, algo que para nós soa completamente contraditório, mas que à época fazia sentido para aqueles atores. E isto fornece instrumentos poderosos para que possamos compreender essa experiência que não é mais a nossa.

O conceito, portanto, aparece como fenômeno da linguagem com consequências para “fora da linguagem”, porque conforma a própria vida histórica, enquanto elemento fundamental da disputa política. A afirmação de um conteúdo – de um conceito – é a vitória de um determinado projeto, de uma determinada maneira de ver as coisas. O que significa ser republicano hoje, por exemplo? Esta é uma questão polêmica, pois pode-se partir dos mais variados pontos de vista para confrontá-la. A História dos Conceitos atua na articulação entre a linguagem e o fora da linguagem; ou explorando conceitos que tenham vida muito longa: o conceito de cidadão, por exemplo. Embora seu uso possa vir a adquirir sentidos próprios e específicos, que no mundo antigo não possuía, há determinados usos que vêm sendo reatualizados hoje. Quando não reatualizados, torna-se interessante pensar o que era um cidadão grego, um romano, um cidadão à época da Revolução Francesa, ou o que habita as nossas democracias atuais.

» Editora PUC-Rio: Por que a História dos Conceitos se associa ao pensamento político e à disputa no campo político?

Marcelo Jasmin: A política é o campo da invenção das instituições humanas. As instituições não são naturais, são criadas pela disputa política. Quando falamos em “fidelidade partidária”, não existe apenas uma definição para esse conceito. Depende do contexto, da disputa em questão. Quando discutimos se o mandato de um parlamentar pertence a um partido ou ao próprio parlamentar, é porque isso não estava definido naturalmente, não estava dado, pronto. Do mesmo modo, quando consideramos a noção de revolução que aparecia há quatro ou cinco séculos, esse conceito significava o que Copérnico dizia em relação às ordens celestes. Revolução era o retorno do astro ao seu próprio lugar depois de realizar a sua órbita. Para nós, hoje em dia, revolução é o contrário disso. Não é restauração; é ruptura em relação ao lugar de origem.

» Editora PUC-Rio: Melvin Richter afirma ser Reinhart Koselleck o maior expoente da história conceitual. Por que sua obra se destaca?

Marcelo Jasmin: Koselleck foi um dos organizadores de um dos dicionários mais importantes da história conceitual alemã. Foi o dirigente maior na pesquisa dos conceitos, foi quem apresentou maior produtividade. Mas há outro fator fundamental para o seu destaque: Koselleck é extraordinariamente intuitivo e inteligente. Conseguiu ultrapassar seu próprio método. Teve intuições geniais acerca do que é a modernidade, e um cuidado no tratamento da linguagem associado a uma enorme erudição. Esse conjunto de fatores o tornou o principal expoente da Begriffsgeschichte (que é o projeto alemão de história conceitual) e o historiador com maior destaque no campo da história conceitual até a sua morte no início de 2006.

» Editora PUC-Rio: Quais são os critérios para se definir que conceitos devem ser alvo de pesquisas?

Marcelo Jasmin: São vários os critérios. Acredito que todo conceito relevante em determinado contexto político e social, nacional ou internacional, deve ser averiguado. Os que têm permanência no tempo, ainda mais. Existe um critério-base, que foi o utilizado por Koselleck em seu dicionário. É o dos conceitos articuladores, sem os quais a comunicação política não pode acontecer. Não há como historiar sem usar conceitos como Estado, liberdade, igualdade, partido, república, etc. Mas isso não quer dizer que a História dos Conceitos deve estar restrita a conceitos articuladores. Pode debruçar-se sobre conceitos particulares, locais, como, por exemplo, o conceito de americano. Esse conceito só apareceu a partir de um certo período e o seu estudo comparativo é muito interessante se quando conhecemos os seus usos na Espanha ou em Portugal dos séculos XVII ao XIX, como também no Brasil, no México e na Argentina. É um conceito restrito, mas importante na estruturação da vida social e política desses países. O conceito de República, por exemplo, andou esquecido, sendo visto somente como forma de governo, em oposição à monarquia. Hoje, ganha uma qualidade extraordinária. A idéia de república está ligada a “coisa comum”, a vida pública, a cidadania, a mundo civil. Então, reatualizamos uma idéia que é romana, renascentista, e que estava, por exemplo, em Maquiavel. Outros critérios podem ser universalidade, duração ou novidade. Globalização é um conceito novo. A escolha dos objetos e fontes vai depender do interesse do pesquisador no momento.

» Editora PUC-Rio: Como os pesquisadores lidam com os conceitos contemporâneos, como esse de Globalização?

Marcelo Jasmin: Basicamente, submetendo a um escrutínio temporal. Globalização é um conceito muito recente. Portanto, sua história não é tão difícil, visto ser possível localizar mais claramente a sua origem, os personagens mais importantes, as teorias desenvolvidas no mundo acadêmico. Então, percebe-se bem sua origem. É interessante se pensar o porquê de os intelectuais franceses preferirem falar em mundialização, e não em globalização. Nessa polêmica, há indícios da existência de perspectivas distintas acerca do que, na verdade, são projetos de conformações do mundo, cada um à sua maneira. O conceito tenta estabilizar o mundo, ou um determinado fenômeno. Em certo sentido, corresponde a interesses em relação ao seu uso, ou ao interesse de alguém que o use em determinada direção. Essas não são polêmicas como a do sexo dos anjos. Possuem resultado concreto para o mundo além da linguagem. São mais do que uma batalha de palavras.

» Editora PUC-Rio: Existe uma polêmica entre a linha de estudos de Reinhart Koselleck e da Escola de Cambridge, representada por Quentin Skinner. Qual é a sua opinião sobre isso?

Marcelo Jasmin: Hoje, existe um entendimento ampliado do que seja a História dos Conceitos. A história intelectual de cunho contextualista é a linha da Escola de Cambridge, fundamentalmente preocupada com linguagens políticas e com atos de fala da política. Possuía uma perspectiva distinta da História dos Conceitos propriamente alemã, que traz em seu nome a ideia de história conceitual. Na verdade, existem várias histórias dos conceitos, até na própria Alemanha, como existem também outras perspectivas da história da linguagem. O que o nosso livro traz é o trabalho de um conjunto amplo de acadêmicos que participam de pesquisas que têm se preocupado mais com essas duas escolas.

Durante certo tempo, a perspectiva do contextualismo linguístico estava menos interessada em compreender conceitos determinados do que o que determinados atores estavam fazendo quando mobilizavam noções, idéias, conceitos ou frases. A perspectiva de Pocock, por exemplo, está menos interessada no conceito de liberdade do que na linguagem do liberalismo e dos direitos. Menos no conceito de República do que na linguagem das virtudes. No conceito de tradição, do que na linguagem do conservadorismo.

No trabalho de Koselleck, houve um grande esforço em produzir a inteligibilidade de determinados termos separadamente. E não é à toa que o resultado disso foram dicionários de conceitos, onde cada conceito constitui um verbete que é tratado por um ou mais personagens.

» Editora PUC-Rio: Como analisa a crise conceitual que vivemos?

Marcelo Jasmin: Vivemos hoje uma enorme insegurança em relação ao uso de determinadas palavras. História, por exemplo, é um termo que hoje está em debate, assim como a noção de moderno e a existência, ou não, de uma pós-modernidade. Independentemente da posição assumida nesse debate, percebe-se que há uma crise, uma instabilidade e a impossibilidade de um uso inocente desses conceitos. Em momentos de crise, torna-se mais aguda a atenção em relação aos termos que são mobilizados.

» Editora PUC-Rio: Como deve-se lidar, então, com essa mobilização dos conceitos em tempos de crise conceitual?

Marcelo Jasmin: O mais importante nesse momento é ter uma consciência clara da impossibilidade de definição do estado dos conceitos. Nietzsche dizia: “aquilo que tem definição não tem história”. Só se pode definir o que não está no tempo, porque o que está no tempo está em mudança permanente. Portanto, momentos de crise, como o nosso atual, são relevantes para a produção de História dos Conceitos. No âmbito da língua alemã, a iniciação desse campo coincidiu com a emergência do nazismo, que foi claramente um momento de crise do mundo liberal e burguês da época. E o momento de maior produtividade da história conceitual foi a partir dos anos 1950, coincidindo justamente com o fim do nazismo, com o fim da Guerra. Era um momento de crise profunda. Nesses momentos, tornam-se necessários maior atenção aos termos utilizados e análise do que se mobiliza junto a esses termos. O momento de crise é o momento de fazer história. É tentar compreender o que está acontecendo pela via da reconstrução ou construção do caminho que traz o momento da crise. E pensar em que medida os conceitos atuais guardam relação com conceitos anteriores.

» Editora PUC-Rio: Dentro desse contexto, fale-nos sobre a importância de publicar História dos Conceitos: debates e perspectivas e de História dos Conceitos: diálogos transatlânticos, livros recentemente publicados pela Editora PUC-Rio em parceria com as Edições Loyola.

Marcelo Jasmin: História dos Conceitos: debates e perspectivas introduz o leitor em princípios gerais que orientam e organizam a história conceitual, tanto na linha alemã, de Koselleck, quanto no contextualismo linguístico, de Skinner. O livro, portanto, é uma apresentação sofisticada do tema, pois reúne expoentes e várias perspectivas da história intelectual, das ideias, dos conceitos e das linguagens políticas, que dialogam criticamente em relação à perspectiva de Koselleck.O Diálogos transatlânticos traz textos que se organizam em torno de quatro eixos. O primeiro trata de pesquisas que discutem temporalidade, tradução e problemas teóricos e metodológicos de historiadores e analistas que estudam conceitos como, por exemplo, cidadania, que migrou de Portugal para o Brasil escravista. Traz, também, considerações sobre as relações entre história e filosofia política. O segundo eixo se dedica a grandes projetos nacionais em andamento na história conceitual e propostas de elaboração de novos projetos, inclusive para o Brasil. O terceiro discute conceitos específicos, como civilização, patriotismo, revolução, ocidente e ocidentais, dentre outros. No quarto eixo, há uma discussão sobre as possíveis relações entre o mundo colonial e o meio metropolitano no âmbito do estudo dos conceitos e linguagens. Coloca-se em debate o mundo americano, especialmente a América do Sul, e a Europa. Traz questões como: de que modo a filosofia européia foi lida no Brasil? Como se pode constituir uma história da recepção de obras, como a de Hans Staden e outras que foram conhecidas aqui? Relacionam-se as perspectivas originariamente européias dos conceitos e as suas possibilidades de desenvolvimento no Brasil.O leitor encontrará discussões teóricas do significado e da utilidade de estudar a história conceitual e a relação desta com as Ciências Humanas. Os livros não se dirigem a especialistas da área. Contribuem para o estudo da linguagem, que é muito importante e relevante para outros campos do conhecimento.

Foto: Julieta Sobral------------------------------------------------------------------------------------------


Publicado em: 31/08/2015





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