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Entrevista com autor

Maria de Lourdes Corrêa Lima



A professora do Departamento de Teologia, Maria de Lourdes Corrêa Lima, nesta entrevista à seção Autores do site da Editora PUC-Rio, explica o papel dos profetas na Bíblia, tanto hebraica quanto cristã, tema de seu livro Mensageiros de Deus: profetas e profecias no antigo Israel (Editora PUC-Rio/Reflexão).

Corrêa Lima ressalta a importância do estudo da teologia na busca por Deus e pelo sentido da vida. “Se eu não tenho essa perspectiva, de um ser superior que eu considere, não consigo explicar uma série de coisas que vejo e experimento”, acredita. Para ela, compreender a mensagem dos profetas é crucial para entender a cultura do povo do antigo Israel e da sociedade cristã.

Na busca por material de apoio para as aulas de Sagradas Escrituras, estudou as escrituras e de diversas fontes. Dali nasceu seu mestrado, doutorado e, também, o livro.

» Por que escrever o livro: “Mensageiros de Deus”?

Escrevi pensando nos alunos. Dou aula de profetismo há muitos anos e senti a necessidade de um material que atendesse àquilo que eu considero ser fundamental para a pessoa ter a chave de leitura para entender os profetas do Antigo Testamento. Não encontrava um material que me atendesse e os alunos tinham muita dificuldade, porque o material que achava ser o melhor estava em língua estrangeira. Então, tentei traduzir a matéria para uma linguagem acessível para alunos de graduação principalmente, mas depois também quis abrir para as pessoas que, mesmo não estando num curso institucional, desejam conhecer mais esse tema. Entretanto, o livro é um pouco exigente, no sentido de não procurar fazer uma divulgação barata das coisas. Ao mesmo tempo, não pressuponho um conhecimento específico. Quando é necessário ter uma informação prévia, eu explico. Portanto, quis abrir não só para os alunos, mas também para qualquer interessado nessa temática. Acredito que é uma questão de linguagem, não é? Se colocarmos numa linguagem acessível, você pode tratar, até mesmo, temas bastante especializados.

» Como foi feito o trabalho de pesquisa até se chegar ao resultado, no caso, o livro?

Comecei mesmo por uma finalidade prática: preparar as aulas que eu daria para o curso de graduação. Isso começou há quase 10 anos. Nesse tempo li muito, me aprofundei, fiz minha tese de mestrado e doutorado em escritas proféticas, então já tinha um conhecimento acerca disso. A partir daí surgiu a ideia do livro.

» Em vários momentos do texto a senhora cita os vocábulos encontrados na literatura profética bíblica em hebraico, tanto por meio da transliteração quanto utilizando os próprios caracteres da língua hebraica. Qual é a função dessa referência às palavras do original em hebraico para o estudo que a senhora propõe?

Nem sempre conseguimos acesso ao pensamento hebraico só se traduzindo o termo, aliás, em todas as línguas. Mas, no antigo hebraico bíblico é mais importante por se tratar de uma escrita que tem muito mais de dois mil anos, numa outra cultura, com outras categorias de pensamento, diferentes das nossas categorias ocidentais. Por isso, sinto a necessidade de fazer a alusão aos termos hebraicos, por terem um conceito muito amplo que não se pode simplesmente traduzir.

» Qual deve ser o papel da teologia como uma área de formação complementar a estudantes dos diferentes campos do saber?

A teologia procura responder a questão de Deus, que está relacionada ao sentido da vida do ser humano. É claro que alguém pode dizer: “Posso ter um sentido na minha vida prescindindo de Deus”, mas na minha convicção pessoal, acredito que se eu não tenho essa perspectiva, de um ser superior que eu considere, não consigo explicar uma série de coisas que vejo e experimento. Isso é como eu entendo a vida. Então, nem falo propriamente da teologia cristã, mas da visão religiosa em geral. No nosso caso, da teologia católica da PUC, ela é muito importante por não ser uma superestrutura, que vem de cima para baixo simplesmente. Leva-se muito em conta a experiência humana, os anseios humanos e as problemáticas. Por isso, é necessária essa formação. Nós vivemos em um mundo muito imediatista, que, no fundo, acaba não preenchendo o que o ser humano quer ou precisa. Às vezes esse questionamento não surge no jovem. Aparecerá depois de tantos anos de trabalho. “Ah, por que estou fazendo tudo isso, qual o sentido disso tudo?”, e a teologia é pensar sobre Deus, não um Deus abstrato, um Deus em relação ao mundo, que pode ajudar.

»Para os “não iniciados” na leitura bíblica, como a senhora resumiria a importância das sagradas escrituras para a compreensão do ser humano?

Bem, a Bíblia já é um livro universalmente conhecido pelo seu valor humano, pois toca em questões que todo homem acaba se fazendo, independente de religião. Ela é reconhecida, às vezes não como livro sagrado, mas como um livro válido para se refletir. Esse é o primeiro ponto: ela tem uma importância fundamental de tocar na problemática. Mas, é claro que, na medida em que se aprofunda, percebe-se melhor a relevância do tema, inclusive, para a vida cotidiana.

»Quais são os principais profetas do antigo Israel e por quê?

São as partes que estão relacionadas a um livro inteiro na Bíblia hebraica: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os chamados doze profetas, que tem livros menores, mas nem por isso são menos importantes. Portanto, no total são quinze. E por que eles são os principais? Porque eles foram considerados, nas suas mensagens, como os mais importantes. Ou seja, aquilo que foi dito não servia só para aquelas pessoas a quem eles falaram ou escreveram, mas tinham relevância também para outros momentos. Por isso o que eles disseram, e até às vezes nem escreveram, mas outros escreveram, foi guardado e se transformou num livro. Nós nem sabemos se eles foram os principais de toda a história, mas foram aqueles que foram considerados os principais, pela sua relevância.

» No início do livro a senhora aponta uma importante diferença de edição das Bíblias hebraica e grega (que dessa versão surgiu a Bíblia cristã). Na hebraica os livros proféticos estão posicionados após o Pentateuco (Torá). Na versão grega os profetas aparecem ao final do Antigo Testamento. Que implicações decorrem desse reposicionamento dos livros proféticos?

Isso é interessante para percebermos como os profetas foram entendidos nas diferentes épocas da cultura judaica. Na Bíblia hebraica os livros proféticos vêm logo depois da lei, então como é que a cultura judaica, que está relacionada com a Bíblia hebraica, viu os profetas? Primeiro: a base do judaísmo é a lei, os profetas interpretam essa lei e aplicam à história, à sociedade e ao povo. Os próprios judeus, que traduziram para o grego, colocaram esses profetas para o final. Com isso queriam mostrar a concepção que tinham: primeiro, o judaísmo está sempre baseado na lei, que vêm no primeiro conjunto de livros, depois vem a reflexão sobre a vida humana e por fim vêm os profetas, que falam muitas vezes do futuro, sobretudo numa perspectiva de restauração, de salvação. Então com essa mudança de posição dos profetas eles quiseram colocar numa estrutura mais lógica: partindo do passado de Moisés, Abraão etc., depois “como é que eu vivo agora” e então eu olho para os profetas que me dizem o que eu devo esperar para o futuro.

»É inegável o papel de destaque que os profetas desempenharam na sociedade israelita, como a senhora diz no livro tanto no nível religioso quanto social. Qual seria, entretanto, a importância desses profetas na cultura cristã?

Bem, eles são muitíssimos utilizados no Novo Testamento, e mesmo Jesus é apresentado como um profeta. Quando Jesus pergunta “o que as pessoas dizem que eu sou?”, o povo diz “você é um profeta”, e Jesus não diz que ele não é. Ou seja, o texto do Novo Testamento apresenta Jesus também como um profeta. Então, se não tivermos o cenário do Antigo Testamento e do que é a mensagem profética, não conseguiremos entender a pessoa de Jesus ou o entenderemos limitadamente.

»Você gostaria de mandar uma mensagem aos leitores?

Espero que o leitor tenha uma chave para poder se aproximar desses escritos, poder conhecer um pouco mais e, não só como uma perspectiva histórica, e sim entender que aquilo não vale só para o passado, mas que também para o presente, por exemplo, para criticar certas coisas da sociedade. Não criticar de fazer crítica, mas ter critérios, analisar, julgar. E a sociedade também é a vida pessoal, e não somente a vida em conjunto. Na verdade, as duas coisas, já que há muitas palavras ali que tocam diretamente o indivíduo como pessoa, e outras que tocam mais a comunidade.

Foto: Antônio Albuquerque. Acervo do Núcleo de Memória da PUC-Rio. Maria de Lourdes Corrêa Lima na manhã de autógrafos do livro "Mensageiros de Deus: profetas e profecias no antigo Israel"


Publicado em: 01/09/2015





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