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Entrevista com autor

Maria Helena Novaes



O que poderíamos de fato aprender da vida? Com a transição demográfica que ocorre hoje, principalmente no mundo ocidental, em que o desenvolvimento humano estende cada vez mais a expectativa de vida dos povos, a convivência entre as diversas gerações torna-se igualmente indispensável para a transformação da sociedade. A constituição das populações, expressa nesse novo cenário intergeracional, adverte para a necessidade de compreensão mútua entre cada um dos grupos etários.

Partindo deste pressuposto, foi realizada, no Departamento de Psicologia da PUC-Rio, uma pesquisa a fim de se comparar as lições de vida das diversas gerações. Para isso, foram ouvidas 452 pessoas de diversas idades, cujos depoimentos foram organizados e divididos em tópicos, formando, assim, um roteiro que permitiu a abordagem de temas importantes na vida das pessoas, a saber: tempo, entrega, relacionamento, poder, culpa, perdão, autenticidade, amor, medo, raiva, brincar, paciência, felicidade e perda; contemplou-se, assim, a compreensão psicológica dessas “lições de vida”.

O resultado da pesquisa pode ser conferido no livro As gerações e suas lições de vida, mais uma parceria da Editora PUC-Rio com as Edições Loyola, no qual estão reunidos os depoimentos e a análise final de cada um dos assuntos abordados no estudo. Nesta entrevista, a professora Maria Helena Novaes, organizadora da obra, nos fala sobre intergeracionalidade, a participação dos estudantes de graduação nas coletas e análise de depoimento, e conta como foi desenvolvida a pesquisa.

» Editora PUC-Rio: Como surgiu o interesse de publicar a pesquisa?

Maria Helena Novaes: Decidi publicar principalmente os depoimentos por conta da riqueza do material e também devido ao significativo trabalho feito pelos alunos do curso de psicologia. É importante falar de intergeracionalidade, dada a sua inovação em termos de pesquisa, a outras áreas fora da universidade, pois as pessoas têm demonstrado um grande interesse pelo assunto que tratamos no livro. Tomei como compromisso tentar divulgar o resultado do estudo, não apenas no meio acadêmico, mas também além dele. Por sinal, foi isso o que nos deu mais trabalho; para publicá-lo, tivemos que substituir a linguagem original, científica e acadêmica, por uma mais acessível.

» Editora PUC-Rio: No livro, há referências sobre a pesquisa da psiquiatra suíça Elizabeth Kübler-Ross. De que maneira os estudos dela foram aproveitados para o resultado final de Gerações e suas lições de vida?

Maria Helena Novaes: O estudo de Kübler-Ross me chamou bastante atenção. Ela trabalhava com pessoas de diversas idades, sobretudo pessoas em estado terminal, e achei oportuníssimo aproveitar o elenco de questões que ela havia levantado – os 14 tópicos – e, assim, desenvolver, a partir dele, uma espécie de roteiro para uma pesquisa intergeracional. Encaminhamos a ideia ao Departamento de Psicologia da PUC-Rio e trabalhamos por dois anos na pesquisa; entrevistamos 452 pessoas de 17 até 101 anos, divididas em faixas etárias – 17 a 25, 26 a 40, 41 a 60, e 61 em diante. Essa ótica intergeracional permitiu comparar as várias gerações. O objetivo foi fazer com que houvesse uma reflexão sobre os elementos presentes nas trajetórias de vida das pessoas, como felicidade, perda, relacionamento etc., partindo desse roteiro de tópicos para organizar os depoimentos.

» Editora PUC-Rio: Um desses tópicos refere-se ao “tempo”. No livro há afirmação de que “o tempo ordena a vida real e a vida subjetiva”. De que maneira contribui a temporalidade para a construção das “lições”?

Maria Helena Novaes: O tempo é uma grande dimensão, que cobre todas as gerações. Foi interessante perceber que cada uma das pessoas, desde a de 17 até a de 101 anos, vive em seu próprio e respectivo tempo. Nós chamamos a atenção para isso. É importante ver como a pessoa compreende o “tempo”. Por exemplo, alguns dizem que não têm tempo para nada. Um entrevistado, a pessoa de 101 anos, chegou a afirmar que, para ela, o tempo não existe. Achamos muito importante trabalhar essa questão temporal, pois a dimensão do tempo perpassa e desempenha um importante papel na construção de valores e nas experiências de todas as gerações.

» Editora PUC-Rio: Logicamente, imagina-se que uma pessoa mais idosa, mais experiente, poderia transmitir um legado maior de aprendizados. Sendo assim, qual seria a importância dos depoimentos dados pelos jovens?

Maria Helena Novaes: Creio que isso seja bastante relativo. Havia adolescentes de 17 e 18 anos que possuíam uma maturidade surpreendente, pois já tinham sofrido perdas ou tiveram que encarar determinados problemas; outros, da mesma faixa etária, nem tanto. Na verdade, ao desenvolvermos a pesquisa, não estávamos interessados em histórias de vida, pois essas são demasiado abrangentes, o que tornaria difícil conduzir a metodologia. Pontuar os itens foi muito importante, pois, de certa forma, forçou as pessoas a revelar, de maneira mais objetiva, como determinado tópico esteve ou está representado em suas vidas. Curioso foi que, desta maneira, muitos jovens perceberam que de fato já possuíam uma certa vivência referente ao assunto abordado.

» Editora PUC-Rio: Qual foi a participação dos estudantes de graduação na pesquisa?

Maria Helena Novaes: A pesquisa foi organizada no Departamento de Psicologia com o apoio do Pibic, com cerca de 20 estudantes que contribuíram com material, fazendo o levantamento de dados e análises do conteúdo. Foi interessante porque cada um dos tópicos foi abordado, digamos assim, com uma postura teórico-psicológica diferente, levando os próprios estudantes a buscar o referencial que conduziria aquela parte da pesquisa. Foi organizado por eles também um CD para divulgação da pesquisa. Alguns também fizeram a adaptação do texto, como citado anteriormente, para que pudéssemos publicá-lo.

» Editora PUC-Rio: Dentre os depoimentos analisados, há algum mais curioso, ou que você consideraria mais interessante?

Maria Helena Novaes: O dessa pessoa de 101 anos, que revelou desconhecer o tempo, foi interessantíssimo, pois, de certa forma, nessa idade ela já estava em uma outra diacronia temporal. Na pesquisa também dividimos os entrevistados por sexo, e imaginamos que haveria muitas diferenças quanto aos relatos, algo que pouco se notou. Por sinal, a distinção entre homens e mulheres, na pesquisa, ficou mais visível na faixa dos 41-60 anos, em que homens estão mais objetivos e pragmáticos, e, as mulheres, mais afetivas e românticas. Outra coisa que me chamou a atenção foi que vários dos jovens chegaram a dar depoimentos mais profundos que os de outras pessoas de faixas etárias mais elevadas. Mas, de uma maneira geral, cada entrevistado tinha uma singularidade. Um homem de 43 anos, por exemplo, quando foi falar sobre o tópico “perda”, disse: “oportunidade de crescimento e ganhos posteriores, pois nunca sei o que se perde, alguma coisa fica”; enquanto outras pessoas, a respeito do mesmo assunto, costumam falar da dor que a perda traz.

» Editora PUC-Rio: Por fim, quais são os seus próximos projetos?

Maria Helena Novaes: Continuamos com o programa de Ativação Cerebral Criativa, que desenvolvemos aqui no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) do Departamento de Psicologia, com um grupo de pessoas da terceira idade, justamente para ajudar esse segmento da sociedade a se manter ativo mentalmente, criativamente e intelectualmente. Um dos módulos recentes constituiu um programa de treinamento para que os participantes pudessem compreender melhor a dinâmica do programa como sentirem-se mais aptos a reproduzirem o mesmo. E estaremos, ainda, divulgando a intergeracionalidade, que é o mais importante.

 


Publicado em: 01/09/2015





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