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Entrevista com autor

Margarida de Souza Neves



A frase de Fernando Pessoa, "navegar é preciso", foi imortalizada pelo senso comum. No entanto, para um grupo de pesquisadores do Departamento de História da PUC-Rio, melhor seria parafrasear o poeta: "descobrir é preciso". Coordenado pela professora Margarida de Souza Neves, o projeto "Modernos Descobrimentos do Brasil" tem revelado, há pouco mais de quatro anos, o Brasil sob a perspectiva de alguns intelectuais de peso, como Câmara Cascudo, Cecília Meireles e Monteiro Lobato. Ligado ao Pronex (Programa de Apoio a Núcleos de Excelência) sediado no Departamento de História, esse projeto é uma iniciativa do Ministério de Ciência e Tecnologia e recebe financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Nesta entrevista, Margarida de Souza Neves revela a importância do "Modernos Descobrimentos do Brasil" (www.modernosdescobrimentos.inf.br) e nos conta sobre sua trajetória profissional, que concilia o ensino e a pesquisa. "Eu sou uma professora. É uma escolha profissional, mas também é a minha ", diz.

O reconhecimento pelos 35 anos dedicados à carreira acadêmica lhe rendeu um prêmio concedido a poucos: a medalha de Comendador da Ordem do Mérito Nacional Científico, entregue em solenidade, no ano passado, pelo então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso e pelo Ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Mota Sardenberg, em Brasília.

Margarida de Souza Neves também fala sobre o livro organizado por ela, Yolanda Lima Lôbo e Ana Chrystina Venancio Mignot, lançado em 2001 pela Editora PUC-Rio /Edições Loyola. Cecília Meireles: a poética da educação comemorava-se, na época, o centenário do nascimento da poeta, que também dedicou boa parte de sua vida ao magistério.

» Editora PUC-Rio: A sua pesquisa chama-se "Modernos Descobrimentos do Brasil". Quem são os modernos descobridores do Brasil e por que a escolha deles?

Margarida Neves: Essa idéia veio na época da celebração dos 500 anos do descobrimento do Brasil. Queríamos fazer um estudo ligado à ideia de descobrimento, mas que não fosse remetido ao acontecimento fundador do país. Vimos que a grande questão dos intelectuais brasileiros é saber que país é esse, encontrar respostas para a nossa identidade, o que nós somos, o que significa ser brasileiro. Então, selecionamos alguns intelectuais, que, por caminhos diversos, quiseram descobrir o Brasil, fazendo de suas obras um mapa simbólico desse descobrimento.

Na primeira etapa - com dois anos de duração - trabalhamos com Capistrano de Abreu, um historiador, e com Mário de Andrade, que procurou descobrir o Brasil pelo caminho da cultura.

No segundo projeto, dois anos depois, quisemos encontrar intelectuais que tivessem uma característica muito particular, que era a de formar descobridores. São intelectuais que se preocuparam com a questão da infância, que escreveram para crianças a fim de formar uma geração de futuros descobridores do Brasil. Trabalhamos, então, com Monteiro Lobato e Cecília Meireles.

Agora, em um terceiro momento, estamos trabalhando com Luis da Câmara Cascudo - autor mais citado do que lido. Ele foi folclorista, historiador, memorialista, nordestino que escreveu mais de 160 livros, a partir da sua cidade, que é Natal.

Foi para nós um descobrimento desses autores. Ainda estamos nessa viagem, e tem sido um trabalho bem interessante. Quem quiser saber um pouco mais sobre a pesquisa, os resultados, instrumentos, algumas bibliografias, informações sobre a equipe e a nossa agenda, deve visitar nosso site na Internet: www.modernosdescobrimentos.inf.br.

» Editora PUC-Rio: Um desses descobridores é Cecília Meireles. Em 2001, a senhora organizou o livro "Cecília Meireles: a poética da Educação", que foi publicado pela Editora PUC-Rio, em parceria com as Edições Loyola. Qual é a importância desta obra?

Margarida Neves: Esse livro expressa a contribuição da universidade brasileira para as comemorações de 2001 em torno da Cecília Meireles, que fazia centenário no ano da edição da obra. Em primeiro lugar porque reúne colaborações de pesquisadores de várias universidades brasileiras. E pesquisadores de várias latitudes também, como educadores, pessoas da área de literatura, de história, entre outras. Tem uma marca interdisciplinar e interinstitucional. E tem uma coisa muito interessante porque recolhe a colaboração de pesquisadores muito experientes, doutores, doutorandos, mestrandos, e tem um capítulo escrito por uma bolsista de iniciação científica.

Cecília Meireles é mais conhecida como a grande poeta que ela efetivamente é, mas ela também fez do seu trabalho em educação uma forma de poesia, de criação informada pela ética e pela estética. Ela participou de momentos inovadores na educação brasileira (é uma das três signatárias do Manifesto dos Pioneiros da Educação Brasileira). Ela foi professora, diretora de escola, jornalista (manteve durante anos uma Página de Educação na imprensa brasileira), e se destacou por sua escrita, poesia e pela interlocução com outros intelectuais. Tudo isso é objeto de análise no livro.

» Editora PUC-Rio: Já que o tema é educação, gostaria de saber o que a senhora acha da educação hoje no Brasil.

Margarida Neves: Eu vejo com esperança e apreensão a situação da educação no Brasil hoje. Vejo com esperança, senão eu não estava fazendo o que faço, que é trabalhar com educação. Mas também porque há sinais de mudanças significativas. Na escola há preocupações com a qualidade na formação básica dos brasileiros. O professorado não perdeu a convicção de que o seu trabalho constrói esse país - apesar da remuneração que é absolutamente vergonhosa e da ausência de reconhecimento público do seu trabalho. A universidade brasileira está mais amadurecida. Cresceu, e a pesquisa ganhou em qualidade e diversidade. A ciência brasileira hoje é um patrimônio nacional que deve ser cuidado. A universidade tem mostrado não ser problema a relação entre ensino e pesquisa.

Por outro lado, não me satisfaço com os números. A estatística pode ser usada para dizer o que a gente quiser. Vejo graves deficiências de formação dos alunos que chegam às universidades, os nossos futuros cientistas. Nunca teremos uma ciência de peso sem termos cientistas. E os cientistas são formados desde a escola. Não teremos uma escola de qualidade sem ter uma ciência de ponta que criticamente interage com essa escola, que pensa essa escola.

» Editora PUC-Rio: Uma das deficiências da escola não poderia ser explicada pelo fato de um aluno que chega à universidade não ter lido obras como as dos modernos descobridores do Brasil?

Margarida Neves: Até poderia ser, mas o que me preocupa não é que eles não tenham lido livros e não tenham aprendido a ler o mundo e a vida. Há uma certa miopia de doutorandos, mestrandos, graduandos, alunos, professores e pesquisadores no entendimento do mundo. Vejo as pessoas não se preocuparem com o coletivo, com as questões gravíssimas do nosso país. Não é só a leitura dos livros, mas a leitura do mundo é muito míope.

» Editora PUC-Rio: A senhora arriscaria dizer de onde vem essa miopia?

Margarida Neves: Isso é fruto de um desencanto com os sonhos coletivos. Nossas utopias frustraram-se. Por outro lado, há um forte individualismo – parte da sensação de impotência frente a problemas que são muito maiores do que a nossa capacidade de lidar com eles. Mas, quando esse tecido coletivo - que recebe vários nomes, um deles é a cidadania – se esgarça, a possibilidade de felicidade individual também se torna mais difícil. Não acredito que alguém possa ser feliz da sua epiderme para dentro. Eu não posso. Mas essa miopia não é um problema só de geração. É do nosso momento. E os intelectuais têm o dever de não se deixar levar por essa visão curta. Devem criticar o mundo como possibilidade de pensar o momento presente em função do futuro e de não renunciar a uma esperança com os pés na terra. Não é uma esperança que se funda na possibilidade da vinda de algum Messias salvador, mas uma esperança que se renove cotidianamente, na construção de um futuro mais includente e melhor para todos.

» Editora PUC-Rio: Qual tem sido o papel do historiador no momento atual, de redescobrimento do Brasil, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva?

Margarida Neves: Eu acho que em nenhum momento o historiador pode estar de costas para o presente. Muita gente acha que o historiador só olha para o passado. Ele olha para o tempo, mas a partir do seu presente. Os trabalhos, as perguntas que nós fazemos sempre têm uma relação com o presente e o futuro. Estamos em um momento muito particular, de uma novidade, de uma ruptura na história do Brasil. É a primeira vez que alguém que vem dos excluídos é escolhido por milhões de brasileiros para dirigir esse país. É um momento de novidade, um momento de diferença e de esperança. Não é a toa que o presidente fez dessa palavra a mais repetida da sua campanha, e a primeira dita como presidente eleito.

O papel do historiador nesse momento é o do historiador em todos os momentos. De pensar esse tempo, o seu sentido, os atores sociais, e o futuro que esse tempo carrega.

» Editora PUC-Rio: A senhora recebeu uma medalha de Comendador da Ordem do Mérito Nacional Científico, em Brasília. Qual é a importância desse tipo de premio?

Margarida Neves: Eu confesso que isso nem passava pela minha cabeça. Mas quando eu recebi o telegrama do ministro Sardenberg, o meu primeiro movimento foi achar que era uma brincadeira de alguém. Depois, quando soube que era mesmo verdade, fiquei comovida porque é uma grande honra e porque sei que muitas outras pessoas mereciam isso muito mais do que eu. A medalha é importante, porque é o reconhecimento do país ao trabalho feito. Estou recebendo um reconhecimento do meu país, de que o meu trabalho tem sentido. Esse prêmio avivou a minha vontade de que isso não seja só uma medalha, mas um compromisso com o país. Vejo o prêmio como um mandato e como um compromisso de cidadania. E como o reconhecimento do trabalho coletivo da equipe de pesquisa que coordeno, do Departamento em que atuo e da nossa Universidade, já que nenhum trabalho intelectual é realizado individualmente apenas.

» Editora PUC-Rio: Como a senhora optou pela profissão de historiadora?

Margarida Neves: A princípio, eu não queria fazer História, e sim Filosofia. Queria fazer Filosofia em Louvain, na Bélgica, porque aos 17 anos a gente quer coisas muito difíceis e ambiciosas. Uma vez estávamos com um amigo do meu pai, um grande homem, o Dr. Alceu Amoroso Lima. Dr. Alceu perguntou por que eu queria fazer Filosofia. Eu disse que era porque queria entender o mundo. Ele me perguntou: você quer entender o mundo das ideias, o mundo abstrato, ou o mundo da relação entre os homens, o mundo em movimento? Respondi que desejava a segunda opção. Então, me disse que deveria estudar a História. Acho que ele tinha razão. Não sei se eu entendi o mundo, mas eu tenho certeza da minha escolha. Ela me ajuda a continuar buscando.

 


Publicado em: 01/09/2015





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