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Entrevista com autor

Maurício Parada



O Estado Novo brasileiro (1937-1945) elevou a cultura a um patamar de prioridade. Patrocinar grandes eventos era tornar os valores do governo autoritário consensuais entre a população, estabelecendo uma ponte entre política e cultura em grande escala social.

Para isso, foi recriado o calendário de festas nacionais; as escolas adotaram novas disciplinas de conteúdo nacionalista; e as ruas das grandes cidades tornaram-se palco de uma constante comemoração da ideia de unidade cívica.

No livro Educando corpos e criando a nação: cerimônias cívicas e práticas disciplinares no Estado Novo, Maurício Parada (História, PUC-Rio) analisa as cerimônias cívicas do Estado Novo, que levavam milhares de pessoas às ruas, em extrema comoção nacional. Nesta entrevista, ele fala sobre o calendário de festas do regime de Getúlio Vargas, sobre as características dessas cerimônias e sobre a importância do uso do tempo como um instrumento político.

» Editora PUC-Rio: Quais eram as principais características das comemorações presentes no calendário cívico do Estado Novo? O que elas tinham em comum?

Maurício Parada: O calendário cívico do Estado Novo é bastante complexo e amplo. Podem-se definir três grandes ciclos comemorativos ao longo do ano. Um, no início do ano, que foi se construindo aos poucos e que inclui o Dia de Tiradentes, o aniversário de Vargas e o 1º de Maio. Há outro conjunto, no meio do ano, que inclui as comemorações ligadas ao período de Sete de Setembro, com o desfile militar e, depois, duas cerimônias que eu trabalho especificamente, que são a Hora da Independência e o Desfile da Juventude. E há também as cerimônias do final do ano, que incluem a Proclamação da República e o aniversário do Estado Novo propriamente dito.

As cerimônias variavam muito, na verdade. Mas um dado importante é que muitas delas permanecem após o fim do Estado Novo. Um dos aspectos do livro é exatamente mostrar como essas cerimônias nunca se mantêm estáveis, internamente e em comparação a outras. O enfoque é muito mais na diferença entre elas do que na semelhança que elas tiveram, embora existam dados de continuidade. As cerimônias de canto orfeônico sempre tiveram conjuntos sonoros, cantos de jovens e estudantes em grande escala. Os desfiles de meninos de escola na véspera de Sete de Setembro continuam sendo desfiles, mas, ao longo do tempo, vão mudando de proporção e de situação.

» Editora PUC-Rio: Quais eram os principais valores que se procurava exaltar com essas comemorações?

Maurício Parada: Considerando a Hora da Independência e o Desfile da Juventude, há dois tipos de valores diferentes. A questão da música tem a ver com a ideia de harmonia social, de que aquele grupo está sincrônico, porque isso implica no sentido da música: você não pode atravessar a música, não pode desafinar, nem errar o momento de entrada. Então, a ideia principal é de exaltação de uma coesão social. Por outro lado, os desfiles feitos nas ruas pelos alunos das escolas, que simulam ou se aproximam muito do desfile militar, têm a ver com a disciplina, principalmente com a disciplina corporal: o controle do corpo, a forma como as pessoas se movem, se mexem e se vestem.

» Editora PUC-Rio: Qual era o interesse do Estado Novo em criar uma cultura cívica?

Maurício Parada: Essa cultura cívica é uma tentativa de pacificação de um universo público muito conflituoso, devido às diversas forças políticas que estavam emergindo naquele momento – sejam setores de esquerda ou setores que podemos hoje chamar de direita. Esse calendário busca, de alguma maneira, organizar essas forças e constituir um modelo de pacificação. Não à toa, ele é muito dedicado às crianças, que serão o público do futuro, que deve ser pacificado em longo prazo. O período que antecede o Estado Novo é marcado por uma guerra civil no Brasil, em 1932; a tentativa de uma revolução socialista, em 1935; uma crise econômica, repercussão da crise de 1929; em 1938, meses após o início do Estado Novo, há a ocupação da sede do governo pelos integralistas.

» Editora PUC-Rio: Qual dessas cerimônias era mais representativa desse objetivo?

Maurício Parada: Se tivesse que escolher, seria a Hora da Independência, que é especialmente interessante. Pode-se dizer que esse é um momento importante na história pessoal e pública de Villa-Lobos, pois existiu um momento de ênfase na figura do maestro e compositor. Logo, eu diria que a Hora da Independência e esses grandes corais orfeônicos são muito marcantes. Inclusive, quando se entrevista pessoas da época, elas ficam muito emocionadas ao narrar suas participações nesses eventos. São pessoas que viam naquilo um momento de muita importância, que gostavam de cantar, de participar. Criou-se mesmo um efeito na criação de um senso de pertencimento à nação, de pertencimento à sociedade brasileira.

» Editora PUC-Rio: Por que os jovens eram um importante componente dessas cerimônias?

Maurício Parada: Em uma parte do trabalho, enfatizo a ideia de que o jovem é um recurso político, e não apenas na dinâmica de uma repressão política que se instaurou no Estado Novo. É inegável que houve censura aos meios de comunicação, até porque faz parte do aparato de repressão. Mas a juventude é um recurso político importante também. Pacificar esses grupos é garantir uma extensão de ordem para outra geração, por isso há movimentos voltados para o jovem em praticamente todos os países do Ocidente – sejam de inserção política ou de aprendizado para normas públicas.

» Editora PUC-Rio: Há semelhanças entre o calendário cívico do Estado Novo e o de outros regimes totalitários?

Maurício Parada: Primeiro, acho difícil pensar o Estado Novo como um regime totalitário. Apesar de isso ser uma discussão, prefiro não usar esse termo para pensar o Estado Novo, porque o conceito de totalitarismo implica uma série de circunstâncias que ele não produziu. Mesmo com toda censura e repressão política, ele não criou um aparato repressivo e não realizou um projeto semelhante ao nazismo, nem ao stalinismo, por exemplo. Então, a ideia de totalitarismo não se aplica muito bem à questão do Estado Novo.Com relação a outros Estados que tiveram regimes violentos também, quase todos eles tiveram a intenção de refazer seus calendários. Muitos regimes autoritários pensaram em refazer o tempo, recuperar datas e momentos que no passado eles entendiam como sendo relevantes. O uso político do tempo é algo que se manifesta em vários regimes, não apenas nos chamados totalitários, mas inclusive em democráticos. Nesse caso, o Estado Novo fez algo que muitos outros regimes fizeram ao longo do tempo.

» Editora PUC-Rio: O calendário criado pelo Estado Novo continua sendo seguido até hoje?

Maurício Parada: Há coisas que não se alteraram, como o Sete de Setembro, que é anterior ao Estado Novo. Fazer comemorações juvenis também é algo que não se perde. A situação do canto orfeônico é a mesma, tendo continuado depois do fim do Estado Novo. Algumas datas do calendário brasileiro se tornaram mais religiosas. O importante a observar em relação aos calendários é que eles estão sempre em movimento. Temos uma noção de tempo que é um tempo sempre estático, um tempo que sempre foi. Mas o tempo está sempre sendo discutido politicamente. Nesse caso, o calendário que o Estado Novo criou foi alterado e assim continuará sempre, porque outras ideias, outras demandas, outras questões políticas vão ser comemoradas, ou comemoráveis, e vão se transformando em situações que são necessárias de serem lembradas. Um caso muito recente é a adoção do Dia da Consciência Negra, pois mostra como os calendários são flexíveis, móveis, e vão se alterando sempre. E espero que continue assim.

» Editora PUC-Rio: Qual foi a maior herança do calendário do Estado Novo?

Maurício Parada: Acredito que a maior herança é a ideia de que o tempo é político. Independente de um fato ou de uma data específica, é importante lembrar como o tempo responde a uma dinâmica política. A ênfase do meu trabalho é tentar pensá-lo como uma parte do sistema político que naquele momento foi criado e que será alterado ao longo da sua existência. O tempo não é alguma coisa permanente, perene. Pelo contrário, como qualquer outra instância social importante, o tempo é trabalhado, pensado e é local de debate para se afirmar determinados projetos, situações, regimes.

» Editora PUC-Rio: Quais são as consequências da consolidação desse calendário para o Brasil de hoje?

Maurício Parada: Hoje, o Brasil é muito diferente dos anos 1930. Temos um mundo completamente diverso, sem parâmetros semelhantes. Para os dias atuais, talvez esse calendário não tenha uma repercussão imediata, apesar de o governo de Fernando Henrique Cardoso ter assumido como uma de suas tarefas acabar com o período varguista no Brasil. É claro que o período varguista como um todo tem muitas marcas ainda. A legislação trabalhista, a discussão sobre segurança nacional – que permaneceu por muito tempo, e inclusive inspirou possibilidades de discussão futura, como aconteceu na ditadura –, e a própria política cultural do regime, importantíssima para a história do Brasil. É claro que, atualmente, ela está em outro patamar, as situações estão em outro lugar, mas, sem dúvida, o Estado Novo inaugura uma série de temas que até então não estavam colocados na agenda política brasileira. O controle do tempo e o controle das populações juvenis, o nacionalismo, são temas que ainda circulam na sociedade. É lógico que com outras vestimentas, outras formas, mas ainda não desapareceram. Não sei se há uma continuidade tão imediata, mas sem dúvida o Estado Novo produziu marcas que continuam sustentando um pouco da sociedade brasileira.

Foto: Maria de La Gala /PUC-Rio.


Publicado em: 01/09/2015





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