consulta avançada
Brasão da PUC-Rio

Entrevista com autor

Otavio Leonídio



Neste ano de 2008, completa-se 10 anos da morte de Lucio Costa. Para celebrar este que foi fundamental para a renovação da arquitetura brasileira, entrevistamos Otavio Leonídio, autor de Carradas de Razões: Lucio Costa e a arquitetura moderna brasileira (Editora PUC-Rio/ Edições Loyola).

Mais conhecido como urbanista do que como arquiteto, Lucio Costa foi o articulador das ideias do movimento modernista no campo da arquitetura. Otavio Leonídio, professor e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio, o define como um “homem de ideias” que conceitua toda a produção arquitetônica nascida nos anos 1920, representada nas obras de Oscar Niemeyer.

Segundo Leonídio, se hoje os traços curvilíneos de Oscar Niemeyer são aclamados por todo o mundo, isto se deve a Lucio Costa: “Niemeyer é um arquiteto genial, mas de ideias pobres. Ele não foi o inovador da arquitetura brasileira sozinho”. Nesta entrevista, Otavio Leonídio comenta a relação entre Costa e Niemeyer, critica a estagnação por que passa a arquitetura brasileira – em que novos arquitetos permanecem presos à fórmula de Niemeyer – e aponta outros possíveis caminhos para essa arquitetura.

» Por que podemos dizer que Lucio Costa é um dos responsáveis pela renovação da arquitetura brasileira?

A renovação da arquitetura brasileira não teria acontecido sem a ação crucial de Lucio Costa. Sua participação foi menos como projetista e muito mais como homem de ideias. Foi ele o pensador que resolveu, no campo da arquitetura, alguns dos impasses que caracterizam o movimento modernista brasileiro nas artes em geral. Era preciso renovar e incorporar o debate europeu. Porém, também era preciso introduzir o dado nacional, o nosso diferencial. Creio que Lucio Costa responde muito bem a essa equação proposta pelo modernismo – de um lado, modernização, e do outro, brasilidade – de uma maneira muito própria.

» Oscar Niemeyer também teve ideias renovadoras como Lucio Costa?

A obra de Niemeyer e o papel que esta desempenha para a renovação da arquitetura brasileira são excepcionais. Mas, sozinha, a sua obra não teria sido capaz de fazer esse esforço de incorporação da arquitetura brasileira no movimento moderno. A arquitetura brasileira se renova através de projetos arquitetônicos. Mas esses projetos são objeto e consequência de uma formulação conceitual. E o grande responsável por essa formulação conceitual é o Lucio Costa. Em Carradas de Razões: Lucio Costa e a arquitetura moderna brasileira quis fazer uma história intelectual stricto sensu. O objetivo era pensar as ideias. E fazer uma história intelectual do Niemeyer seria fazer uma análise sobre uma reflexão pouco sofisticada. Ele é um arquiteto genial, porém de ideias pobres. Lucio Costa é o oposto. Um arquiteto competente, não genial, mas um pensador extraordinário. Se eu fosse fazer um livro sobre Oscar Niemeyer talvez não tivesse textos de Oscar Niemeyer, só imagem de seus projetos.

» Como era a relação de Lucio Costa com Oscar Niemeyer?

Complicadíssima. Mas eram dois personagens que se complementavam. Não dá para pensar as ideias de Lucio Costa sem as obras de Oscar Niemeyer. E tampouco dá para pensar os projetos de Niemeyer sem as palavras de Lucio Costa, meio que dizendo o que ele estava produzindo, pois Niemeyer, como homem de ideias, é muito limitado. Ele precisava de Lucio Costa traduzindo o que significavam aquelas obras. Porque, na maioria dos casos, não há produção estética moderna de qualidade que não tenha tido alguém que enunciasse, criticasse o que está sendo feito em obra. Por isso, era uma relação tensa. Lucio Costa nunca deixando de admitir a importância da obra do Oscar Niemeyer. E o Niemeyer, que é muito cabotino – acho que é a pessoa mais cabotina que eu já vi, que mais se auto-elogia –, fica menos a vontade em elogiar Lucio Costa. Ele reconhece, mas fica um pouco reticente em admitir o quanto sua obra de arquiteto depende de Lucio Costa. O Oscar Niemeyer não teria por que ter um problema com Lucio Costa. Se ele teve algum problema com Lucio Costa, só poderia ser por não ter sido, sozinho, o inovador da arquitetura brasileira.

» Esquematicamente, é possível afirmar que o movimento moderno em arquitetura tem duas vertentes básicas: a francesa, cujo ícone é Le Corbusier e a alemã, fundada por Gropius, criador da escola de design Bauhaus. Lucio Costa optou pela francesa. Por quê?

A Bauhaus queria produzir uma classe de cidadãos formados e ilustrados, o que era irreal para o Brasil, devido às mazelas da sociedade brasileira. Logo, Lucio Costa aposta no modelo francês, na bela forma que comparece no espaço público, que comove as pessoas. E ele faz isso, claro, por ser um bom projeto, mas também por olhar para o lado e ver um gênio criador, Niemeyer, que se adequava perfeitamente ao modelo, com seus belos e reconhecidos desenhos. E até hoje a arquitetura brasileira é refém dessa escolha. Por essa razão, os arquitetos brasileiros não são formados para entender a indústria, a produção em série, a padronização. Eles entendem da bela forma, uma sabedoria, sobretudo, em conciliar o uso do concreto armado com a beleza plástica.

» Além da construção de Brasília, que outros projetos de Lucio Costa se destacam na arquitetura?

Há o Parque Guinle, no Rio de Janeiro, que é um belo projeto de Lucio Costa como arquiteto, o que gosto mais. Mas estou redescobrindo o Plano da Barra. A Barra da Tijuca é muito atacada no Rio. Está associada a Miami, aos grandes shoppings centers, à especulação imobiliária... Há uma tradição acadêmica avessa a esse tipo de urbanismo. Nós, professores de arquitetura e urbanismo, fechamos os olhos para aquilo que achamos ruim. E se estabeleceu que a Barra é uma porcaria. Mas se ela hoje não é um bairro perdido; se apresenta um potencial de qualidade de vida urbana, isso se deve a Lucio Costa. Era um plano muito inteligente, mas foi desrespeitado. Por exemplo, Lucio Costa pensou uma conexão, que só agora começa a surgir, entre a zona oeste, zona norte e centro, e não apenas entre zona sul e Barra. A ideia era fazer uma espécie de arco metropolitano.

» A foto de capa do seu livro, Carradas de Razões, mostra Lucio Costa em meio a papéis revirados, livros desorganizados. Que lugar é esse?

Parece brincadeira, mas a foto é o local de trabalho do homem que projetou Brasília. Em determinado momento da vida, Lucio parou de arrumar as coisas dele – se é que já arrumava antes. Ouvi contar que ele ficou assim depois do acidente de carro que matou sua mulher. Como era ele quem dirigia, sentia-se culpado. Eu estive no escritório dele quando estava sendo desfeito. Era impressionante. Cadeiras puídas, sem estofamento. Tudo jogado no chão: livros de Le Corbusier, pães velhos e mofados, recortes de jornais, baratas mortas. E ninguém podia tocar nas coisas dele. Um funcionário que trabalhou com ele na obra da Barra da Tijuca conta que ele abria um pacote de biscoitos Piraquê, derramava no bolso do paletó e passava o dia pegando os biscoitos diretamente do bolso. Ana Luiza Nobre (professora do Curso de Arquitetura da PUC-Rio e que foi próxima de Costa) conta que, ao encontrar com ele, reparou que a bainha de sua calça era feita com grampeador. O fabuloso nisso é a tamanha segurança intelectual dele. Esse homem recebia em sua casa o presidente da república e não arrumava o escritório. Esse era Lucio Costa.

» Em 2008, faz 10 anos da morte de Lucio Costa...É um bom momento para se relembrar, celebrar e entender o que foi a obra de Lucio Costa. Mas, devemos, talvez, superar o seu projeto dos anos 1930/40, que ainda está em vigência. O movimento moderno em todo o mundo viveu uma tremenda crise nos anos 1950/60 por conta da Segunda Guerra e da percepção dos limites do movimento. Os modelos das cidades modernas tinham muitos problemas; eram muito idealizados. Queriam negar a cidade histórica e construir uma cidade inteiramente nova. Então, houve uma revisão desse projeto de modernidade. No Brasil, as artes plásticas, a literatura fizera essa revisão. Mas, a arquitetura não viveu a crise do moderno. O que começou nos anos 1930 vem se estendendo, tem uma sobrevida. Nesse caso até literalmente, com Oscar Niemeyer que tem 100 anos de vida. E ele faz há cerca de 80 anos os prédios de maior visibilidade no Brasil, o que é muito sintomático. Esse é um bom momento para se pensar no que deve ser a arquitetura hoje. Por exemplo, pensar nossa relação com a indústria. Devemos continuar negando o compromisso com ela? Lucio Costa negou claramente um compromisso forte com a produção industrial. Sei que hoje o mundo é outro. Mas embora a gente viva nesse mundo da virtualidade, da comunicação, da internet, a produção física das coisas nos conecta à Primeira Revolução Industrial. De fato, nós, brasileiros, vamos seguir julgando que a melhor arquitetura é a da plasticidade livre, niemeyeriana?

» Essa é a maneira como o mundo vê a nossa arquitetura?

Sem dúvida. A arquitetura brasileira é descoberta, sobretudo, nos anos 1950. O mundo descobre uma arquitetura que tem liberdade formal, leveza e uso de materiais e de curvas diferente do uso da Europa e dos Estados Unidos. Os brasileiros ficaram encantados com o fato de os europeus e americanos estarem olhando para cá e celebrando uma outra arquitetura, uma alternativa em relação à rigidez do racionalismo europeu, uma arquitetura de formas livres. Por essa razão, pelo menos duas gerações de arquitetos fracassaram. Eles achavam que poderiam fazer uma arquitetura a la Oscar Niemeyer. Ora, ninguém faz uma arquitetura a la Oscar Niemeyer. Só o próprio. Como diz Maria Luiza Costa, filha de Lucio Costa, Oscar Niemeyer é genial porque ele está no limite do excessivo, do cafona. Um passo a mais... O Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, por exemplo, acho que é um passo a mais. Mas a parcela que não é excessiva justifica todo o resto. O problema talvez seja a identificação excessiva da arquitetura moderna brasileira e a obra de Oscar Niemeyer – entidades distintas, mas que muitas vezes são vistas como uma coisa só. Lucio Costa, em 1979, durante uma entrevista disse: “Quando Oscar Niemeyer fala ‘nós da arquitetura moderna brasileira’, na verdade, ele deveria dizer ‘eu, a arquitetura moderna brasileira’”. O que a gente chama de arquitetura moderna brasileira no fundo é ele. Essa identidade formal foi dada por ele, não foi por todos. É interessante superar essa imagem de uma arquitetura brasileira que é só o Oscar Niemeyer. Existem outros caminhos. É hora de descobrir e valorizar outros arquitetos. Affonso Reidy, arquiteto do Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, é excelente. O MAM tem uma plasticidade fundada em outro princípio que não a forma livre. Há um rigor formal. Existem outros arquitetos que trabalharam a produção em série, a pré-fabricação. O melhor exemplo desse outro caminho é obra de João Filgueiras Lima, o Lelé – sem dúvida um dos mais importantes arquitetos brasileiros atuando hoje.

» Por fim, gostaríamos que nos contasse sobre seus próximos projetos...

Fui chamado para escrever sobre um grande arquiteto contemporâneo: o Lelé, João Filgueiras Lima. Ele está radicado em Salvador, mas sua produção está em todo o país. Agora, está com a obra do hospital da Rede Sara, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Pretendo, portanto, me voltar mais para o contemporâneo. Estudei dos anos de 1920 até 1940, um tema tipicamente histórico. E agora, quero me dedicar aos anos 1960 em diante. É importante para nós conhecermos melhor academicamente essa fase.

Foto: Felipe Correa

 


Publicado em: 01/09/2015





Editora PUC-Rio
Endereço: Rua Marquês de S. Vicente, n° 225 - Praça Alceu Amoroso Lima, casa V (Casa Agência/Editora)
Gávea - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 22.453-900
Telefones:
55 (21) 3527-1838/1760

Endereço eletrônico:
edpucrio@puc-rio.br
Site desenvolvido pelo RDC