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Entrevista com autor

Entrevista com Paulo Cesar Duque-Estrada



Considerado um dos maiores filósofos da atualidade, Jacques Derrida foi um dos famosos "Pensadores da geração de 68", grupo que contava ainda com Foucault, Barthes, Deleuze, Lacan, Althusser, dentre outros. Quem tem por volta de 50 anos de idade e é formado na área de Ciências Humanas certamente tomou conhecimento de suas teorias. Embora a "desconstrução", termo pelo qual se reconhece o pensamento de Derrida, possa, a princípio, sugerir uma ideia de destruição, ela aponta justamente para o oposto: a desconstrução encoraja a pluralidade dos discursos, defendendo, assim, e legitimando, pelo crivo de um pensamento rigoroso, não apenas a existência de mais de uma verdade e de uma interpretação, mas também o caráter disseminativo de outras e novas verdades.

Em Desconstrução e Ética - Ecos de Jacques Derrida, o professor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, Paulo Cesar Duque-Estrada, organizador da obra, apresenta um ensaio escrito pelo acadêmico inglês Geoffrey Bennington (um dos maiores especialistas em Derrida) e um diálogo que ele teve com Derrida, em 1997, na Universidade de Sussex. Além disso, o livro traz uma entrevista com G. Bennington, realizada pelo Núcleo de Estudos em Ética e Desconstrução (NEED), que é coordenado por Duque-Estrada, além de artigos de sete participantes do Núcleo.

Nesta entrevista, Paulo Cesar Duque-Estrada, que ainda é o organizador de Às margens: a propósito de Derrida (título lançado em 2002 também pela parceria Editora PUC-Rio/Edições Loyola), nos fala a respeito de ética, de Derrida, do trabalho que desenvolve no NEED e, obviamente, sobre a teoria da desconstrução.

» Editora PUC-Rio: Às margens: a propósito de Derrida, editado em 2002, apresenta a obra de Jacques Derrida. Em 2004 publicamos mais um texto organizado pelo senhor com o filósofo franco-argelino como protagonista. Por que, dessa vez, "desconstrução" e "ética"?

Paulo Cesar Duque-Estrada: O trabalho de Derrida, na última fase de sua vida, foi totalmente direcionado para questões de cunho ético-político, abordando desde o apartheid sul-africano até a importância da ONU na nova reconfiguração política internacional, passando ainda por outras questões como o feminismo, as novas formas de tecnologia e o papel da Universidade. Mas, na verdade, apesar de alguns estudiosos de Derrida falarem de uma "virada ética" que se daria no seu pensamento, tal caráter "ético" sempre esteve presente no trabalho dele, desde os seus primeiros escritos, embora isso surja mais explicitamente na última fase de sua obra. A ideia do livro, dada a urgência com que a questão da ética vem se colocando hoje, foi a de apresentar, sob vários ângulos, esse caráter intrinsecamente ético-político da desconstrução.

» Editora PUC-Rio: Um dos principais teóricos desconstrucionistas foi o belga Paul De Man. Poucos anos após sua morte, nos anos 1980, descobriu-se que em sua juventude ele havia escrito centenas de artigos anti-semitas para uma revista nazista em sua Bélgica natal. Essa descoberta causou escândalo, com diversos críticos assinalando que isso seria a prova final do caráter niilista da desconstrução. O senhor poderia nos falar um pouco sobre o surgimento do desconstrucionismo e a relação dessa filosofia com tais cenários incertos?

Paulo Cesar Duque-Estrada: Antes de tudo, a palavra "desconstrução" é um nome que foi dado à obra de Derrida, e, mais tarde, também à de outros autores como Paul De Man que, influenciados por Derrida, começaram a trabalhar nesta "linha de pensamento" que ele abriu, chamada desconstrução. A origem do termo "desconstrução" vem de Heidegger, que propôs, no período inicial de sua trajetória, um projeto filosófico chamado destruição da metafísica, o qual, por sua vez, procurava libertar os conceitos herdados da tradição que haviam se enrijecido - há muito sedimentadas pelo hábito de sua transmissão -, e retorná-los à experiência de pensamento original. Tratava-se, portanto, de um projeto em nada destrutivo, no sentido de um simples aniquilamento, e que Heidegger pôde nomear com a palavra alemã Destruktion. Ao passar para o francês, Derrida percebeu ser impossível evitar esta conotação fortemente negativa da palavra "destruição"; o termo "desconstrução" lhe pareceu então mais apropriado para captar essa ideia inicial contida no projeto de Heidegger, o que não quer dizer que a desconstrução seja uma simples repetição do projeto heideggeriano. Para Derrida, ao contrário de Heidegger, o conceito não pode ser restituído, reduzido ou retornar a sua origem, ao seu momento inaugural. Toda origem já se encontra referida ou suplementada, como diria Derrida, por um conceito. Ela nunca se mostra como alguma coisa que, enquanto tal, já se encontra presente em algum lugar, despida de todo e qualquer suplemento. Pelo contrário, ela sempre se deixa representar pelo suplemento de um conceito que, a um só tempo, promete e adia a sua presença. E se, efetivamente, é isto o que ocorre, então já não será mais possível pensar em uma origem. Se há algo de originário, trata-se, antes, desta estrutura suplementar, o que Derrida chamou de "suplemento de origem", e não propriamente de uma origem dada em si mesma. Isto traz uma implicação tanto teórica quanto prática. A partir daí, a desconstrução vai ser marcada por uma permanente vigilância crítica contra a aceitação de toda e qualquer forma de naturalização. O suplemento diz respeito evidentemente, a alguma forma de construção em que, necessariamente, entram em jogo várias determinantes, de ordens linguísticas, sociais, morais, culturais, históricas, institucionais, estratégicas etc.

» Editora PUC-Rio: Mas o episódio chamou mais a atenção quando Derrida lançou um ensaio desconstruindo vários dos textos de De Man considerados nazistas, o que piorou a situação, porque já era de conhecimento geral de que Derrida não só era judeu como havia sido expulso de sua escola na Argélia durante a ocupação nazista na França...

Paulo César Duque-Estrada: Quanto ao problema do nazismo, a propósito de Paul De Man, e o que isto teria a ver com Derrida, esta é uma questão que vem de mais longe e se estende a Heidegger ou à relação intelectual de Derrida com a obra de Heidegger. Um autor chamado Farias escreveu um livro no qual cita as ligações de Heidegger com a ideologia nazista. Por ser reconhecido como um leitor que levava a sério os textos de Heidegger, Derrida também foi incluído no pacote - não só ele, mas todos os que podiam ser catalogados sob o título da "desconstrução" -, o que rendeu uma discussão grande demais para ser tratada aqui. Vou apenas situar brevemente aspectos desta discussão. Primeiro: Derrida participou ativamente nos dois episódios, não apenas tomando parte nos debates que tiveram lugar na época, mas também escrevendo e publicando textos sobre o assunto. Segundo: as intervenções de Derrida nunca tiveram o caráter de mera apologia, mesmo no caso de Paul De Man, com quem, ao contrário de Heidegger, Derrida chegou a conhecer pessoalmente e ter com ele uma relação de amizade. Terceiro: o que na época irritou muita gente foi o fato de Derrida ter recusado a se unir ao coro daqueles que, aproveitando a ocasião, propunham simplesmente invalidar a obra destes dois autores e desmerecer o trabalho não só daqueles que se dedicaram, mas também dos que vinham se dedicando ao ensino e à pesquisa de suas respectivas obras. Justamente por não querer abrir mão de um rigor crítico no tratamento de uma questão tão séria e complexa, Derrida sempre rechaçou as insinuações de que os textos de Heidegger e de Paul De Man não passavam de manifestações anti-semitas disfarçadas de teoria. Quarto: no caso de Paul De Man, a acusação de anti-semitismo refere-se a textos que datam do início da Segunda Guerra Mundial, quando ele, então um jovem desconhecido de 20 anos de idade, ganhava a vida publicando artigos de crítica literária em um jornal belga controlado pela Gestapo. Fica de fora dessa polêmica toda a sua produção realizada ao longo de 40 anos desde que ele se mudou para os Estados Unidos, e que, diga-se de passagem, só em parte deve-se à influência de Derrida, e que lhe valeu o seu reconhecimento intelectual. Quinto: Derrida, irritado, fez voltar, contra muitos dos que nessa polêmica ostentavam uma boa imagem, uma forte suspeita de má-fé. Má-fé em querer fazer da ocasião a oportunidade de ver reduzida a pó toda uma forma de pensar com que eles não se identificavam ou pela qual, por alguma razão, sentiam-se ameaçados. Sintomaticamente, foi principalmente entre os críticos mais ferrenhos da desconstrução onde se insistiu com a redução do pensamento de Heidegger ao nazismo, o mesmo ocorrendo com Paul De Man e, por extensão, com uma enorme variedade de textos e de autores, incluindo, é claro, tudo o que dissesse respeito a Derrida.

» Editora PUC-Rio: Assim como Derrida, Gadamer desenvolve uma teoria sobre hermenêutica com base em Heidegger. O senhor vê algum ponto em comum entre o pensamento de Derrida e Gadamer?

Paulo Cesar Duque-Estrada: Gadamer foi um estudante de Heidegger e, influenciado por ele, construiu uma teoria hermenêutica que, no entanto, se distancia da questão sobre a compreensão do sentido do ser para se concentrar numa tematização de cunho ontológico sobre a compreensão que tem lugar no âmbito das humanidades. Em um determinado momento, alguns estudiosos de Derrida e Gadamer passaram a escrever artigos sobre as semelhanças e diferenças entre os dois. Há certamente pontos de convergência entre eles, mas, em todo caso, trata-se de duas experiências de pensamento muito distintas. Aliás, em relação a Derrida, não é correto dizer que ele desenvolveu uma teoria hermenêutica a partir de Heidegger. Ao contrário, a desconstrução apresenta, em grande parte, um contraponto crítico exatamente ao traço hermenêutico existente no pensamento de Heidegger e, por extensão, a crítica também vale, e mais ainda, para Gadamer.

» Editora PUC-Rio: Antes de morrer, Derrida reclamava que era mais conhecido fora da França do que no país onde produziu suas teorias. O senhor concorda com isso?

Paulo Cesar Duque-Estrada: Derrida teve um reconhecimento muito maior em algumas universidades norte-americanas, principalmente nos departamentos de Letras. Na França, como em outros países europeus, há, logicamente, autores e trabalhos filosóficos que discutem a desconstrução, mas é fato que o seu maior reconhecimento se deu nos Estados Unidos. Ainda assim, é preciso colocar essa maior recepção em perspectiva. Mesmo nos Estados Unidos houve, e ainda há, uma grande aversão à sua obra. Exemplo disso foi a matéria publicada, por ocasião de sua morte, no New York Times, um jornal conhecido e respeitado pela sua sobriedade e isenção crítica. O texto da matéria combina comentários feitos em um tom francamente debochado, pouco usual, e eu diria até mesmo desrespeitoso por se tratar de um obituário, e dá uma explicação absolutamente distorcida do seu pensamento. Algo semelhante ocorreu também na revista The Economist.

» Editora PUC-Rio: Então, para o senhor, qual é a lacuna deixada por Derrida depois de sua morte e quem poderá dar continuidade ao trabalho dele?

Paulo Cesar Duque-Estrada: A lacuna que ele deixa é não poder mais contar com um novo livro seu e nem com a originalidade das suas intervenções nas questões contemporâneas. Quanto a quem poderá dar continuidade ao seu trabalho, espero que muitos.

» Editora PUC-Rio: O senhor poderia nos falar um pouco sobre o grupo de pesquisa que dirige - o Núcleo de Estudos em Ética e Desconstrução (NEED)?

Paulo Cesar Duque-Estrada: A idéia do NEED surgiu a partir dos meus cursos na pós-graduação em Filosofia na PUC-Rio. A experiência tem sido muito boa. Alguns alunos, percebendo a ligação de Derrida com Nietzsche, Heidegger, Benjamin, Lévinas e outros pensadores e áreas de conhecimento como, por exemplo, a psicanálise e a literatura, passaram a se envolver, com muito entusiasmo e seriedade, pela variedade e riqueza dos temas que brotavam ao longo das nossas leituras. Foi então, a partir desta experiência, que surgiu a ideia de formar um grupo permanente de pesquisa. O objetivo do NEED é garantir um ambiente permanente de pesquisas e discussões não somente sobre o pensamento de Derrida, mas também de outros pensadores e temas afins à desconstrução. É um núcleo, eu diria, transdisciplinar e transautoral.

» Editora PUC-Rio: Por fim, quais são seus próximos projetos?

Paulo Cesar Duque-Estrada: Isto vai depender, pelo menos em parte, do andamento dos cursos. Uma das ideias que temos discutido é uma publicação sobre desconstrução e arte.

 


Publicado em: 02/09/2015





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