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Entrevista com autor

Rafael Haddock-Lobo



Em comemoração ao centenário de nascimento do pensador lituano Emmanuel Lévinas, a Editora PUC-Rio (com as Edições Loyola) lançou a obra pioneira Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas. Fruto da então pesquisa de mestrado de Rafael Haddock-Lobo, o livro traz um novo olhar sobre o legado de Lévinas: analisá-lo do ponto de vista filosófico. E é o agora doutor em Filosofia pela PUC-Rio, em entrevista exclusiva à seção Autores, quem nos fala desse outro Lévinas.

Marcado por uma interessante, e impressionante, história de vida, Lévinas foi se destacar, no campo da Filosofia, quando rompeu com o seu mestre Heidegger, quando este se envolveu com o nazismo. Preso em um campo de trabalho forçado na Alemanha de Hitler, esse isolamento acabaria sendo decisivo para formular sua questão principal, em que propõe uma nova base para o pensamento: a relação com o outro.

Jacques Derrida disse certa vez que Lévinas é um dos três maiores filósofos do século XX, ao lado de Heidegger e Blanchot. Mas, segundo Haddock-Lobo, Lévinas foi esquecido pela Filosofia. Sua obra ficou restrita ao campo teológico, devido à forte orientação judaica de Lévinas.

Nesta entrevista, Rafael Haddock-Lobo – professor do curso de pós-graduação em Filosofia Contempo- rânea, da PUC-Rio – explica como trouxe Lévinas para ser analisado pela Filosofia e reflete sobre o seu legado, com entusiasmo e crítica.

» Por que pensar sobre Emmanuel Lévinas na Filosofia?

Lévinas tem uma vida muito interessante por ter sido um prisioneiro de campo de trabalho forçado durante a Segunda Guerra Mundial. Ele vem de uma linhagem chamada fenomenologia, fruto do contato com seus mestres, Husserl e Heidegger. E ele rompeu com essa relação com Heidegger justamente enquanto estava preso, quando começou a se interessar mais pela relação com o outro. Segundo Lévinas, a Filosofia se pretende digna de questões maiores, mas esquece que a relação com o outro seria a base do pensamento. Existe uma ideia dele que eu gosto muito, que é algo como: por que dar de comer a quem tem fome seria uma questão menor da Filosofia? Lidar com o outro na vida prática é uma questão ética, e não moral. Isso é muito forte no Lévinas. Jacques Derrida dirá que os três maiores filósofos do século XX foram Heidegger, Blanchot e Lévinas, pois trouxeram novas experiências de pensamento, ainda que Lévinas, a meu ver, fosse pouco explorado pela Filosofia.

» Em sua opinião, por que, então, Lévinas ficou esquecido pela Filosofia?

Sua obra filosófica é muito pouco lida porque ele mesmo teria empreendido certo isolamento do ambiente acadêmico dominante, principalmente depois que foi preso. Lévinas é mais conhecido por seus textos anteriores à prisão. É também reconhecido e respeitado como um bom comentador de Husserl e de Heidegger. Nesse ponto, ele é um pouco mais lido. Lévinas escreveu o primeiro texto em francês sobre Heidegger. Sartre conheceu Husserl por Lévinas. O primeiro filósofo que deu um caráter importante ao Lévinas foi Derrida. Por que Foucault e Deleuze não leram o Lévinas? Sempre fiquei surpreso com isso, pois ele foi o primeiro a falar do outro. E, por ser e assumir-se judeu, Lévinas ficou muito ligado às questões judaicas. Mas costumava dizer que não era um filósofo judeu, mas sim um filósofo e judeu. Creio que fez questão de se assumir judeu para desempenhar um papel político. “Eu sou judeu e, ao contrário do que fez a experiência greco-alemã, posso pensar o outro”. Mas o fato de ter assumido uma reflexão religiosa, e mais fortemente ainda sua condição judaica, causou certo isolamento.

» Como a experiência do nazismo influenciou o pensamento de Lévinas?

Eu sempre fico impressionado com a sua história. Lévinas foi prisioneiro em um campo de trabalho forçado e só não foi para um campo de concentração porque atuava como tradutor na guarda francesa. Mas perdeu a família inteira ali. E em 1942 ele escrevia sobre a relação com o outro ao invés de estar ressentido. Seu pensamento emergiu justamente com a ruptura que teve com o mestre Heidegger e no envolvimento deste com o nazismo. Heidegger foi uma grande decepção para Lévinas.

» Como e quando foi essa ruptura de Lévinas com seu mestre Heidegger, um dos mais importantes pensadores alemães?

Quando Heidegger esteve na reitoria da Universidade de Freiburg, ocorreu a expulsão de professores judeus, inclusive a do mestre dele, Husserl, que quase teve suas obras queimadas. Se dependesse de Heidegger, talvez não existissem livros de Husserl hoje, pois não tomou nenhuma providência para protegê-los, sendo conivente com o sistema. Nesse momento, Lévinas perdia um ídolo. E começou a perceber o quanto o pensamento de Heidegger, e não apenas o ser humano Heidegger, podia ser perigoso.

» Quais são as principais críticas levinasianas ao pensamento heideggeriano?

Lévinas faz uma crítica à ontologia, o pensamento do ser. Seu primeiro passo foi romper com o pensamento ontológico e mostrar o perigo desse pensamento excludente, pois nele se elege o que é digno de ser pensado. Lévinas questiona essa Filosofia centrada, pretensamente neutra, que defende o privilégio dos homens e da razão. Para ele, a razão não é somente boa. A razão pode trazer um Hitler.

Segundo Lévinas, a experiência grega impediria uma relação com a alteridade; na Torá e nas leituras talmúdicas, ele a encontraria. Ao pensar o ser e a metafísica – que é tarefa da filosofia grega, mas é retomada pela filosofia alemã, sobretudo com Heidegger –, o pensar o outro se tornaria uma discussão marginalizada.

Há uma passagem interessante para ilustrar o que digo: Heidegger estava em uma conferência falando sobre o que é habitar, de modo subjetivo. Na opinião de Lévinas, não haveria o porquê de Heidegger discursar sobre isso enquanto as pessoas não tinham nem onde habitar. Seria uma insensibilidade.

Além disso, Lévinas critica Heidegger em relação ao seu pensamento sobre a morte. Para Heidegger, a morte é o que estrutura o ser. Eu sei que vou morrer porque vejo o outro morrer, mas o que importa é a própria mortalidade. Para Lévinas, a morte é mais do que isso. Se o outro morre, ele deixa uma tarefa. A morte do outro é o que importa. Há uma frase de Epicuro que Lévinas retoma: “Se eu estou, a morte não está. Se a morte está, eu não estou”. Então, eu e morte não vamos nos encontrar. A morte que eu lido é a do outro. Por isso, a questão do outro é tão importante para Lévinas. A morte, assim como o filho, gera uma responsabilidade pelo outro.

» E qual a importância dessa metáfora do filho, que você citou agora, para o pensamento de Lévinas, da relação com o outro?

Lévinas irá pensar o que seria o Eros, o amor da filosofia grega. Como isso vai ser pensado praticamente nessa relação com o outro. Ele vai dizer que o problema da Filosofia foi sempre pensar o Eros como sendo dois, quando na verdade o ponto central é a vontade de ser um só. Esse amor de dois afasta o outro, pois quer se tornar um. Isso anularia o outro. Então, para Lévinas, a verdadeira experiência começa com um terceiro, o filho. O filho seria o amor desinteressado, aquele que você aprende a cuidar. É no terceiro que vai ser passado valor de justiça, ética, caridade. Essa é a grande metáfora de Lévinas: não pensar o dois, mas pensar três. A impossibilidade de união perfeita. O pensamento levinasiano parte desse ponto.

» Como outros autores enxergavam o pensamento levinasiano? Houve críticas?

Sim, houve. Alain Badiou, em seu livro Ética, por exemplo, vai criticar Lévinas por ter sido responsável por essa onda de direitos humanos. Mas Lévinas é um árduo crítico dos direitos humanos, dos direitos das minorias. Ele vai questionar essa proclamação dos direitos que é sempre feita pelos dominantes: homens, heterossexuais e ocidentais, que se acham tão privilegiados a ponto de pensar nos pobres coitados que são os outros, os africanos, os orientais, os gays, as mulheres. E pensar assim é perigoso.

» E quais são as suas críticas sobre as teorias de Lévinas?

Acho que Lévinas fica muito preso nesta questão do humanismo, sempre no outro homem. Em relação à mulher, é até muito bonito quando ele fala como a mulher proporciona a ética, pois gera o filho, mas é a visão de um homem. Há também a questão do animal. Por que em Lévinas não existe lugar para os animais? Por que não há o animal como o outro?

Há uma história fantástica do Lévinas. Quando estava preso ele se sentia completamente desprovido de sua pele humana. Ninguém o tratava como gente. E todo dia, aparecia um cachorrinho que ia visitá-lo e o apelidou de Bob. Lévinas conta que, para Bob, continuava sendo humano, mesmo naquela situação. É um texto muito bonito. Mas ele não pensa no Bob como um outro. O cachorrinho só serviu para ajudá-lo a voltar a ser homem. Mas sei que foi fundamental naquela época, da barbárie da Alemanha fascista, focar na relação do outro, homem.Porém, tenho a impressão de que Lévinas quis tratar de algo que não tinha linguagem para tratar. Ele afirma que o outro é tão outro que é indizível. Só que Lévinas é um fenomenólogo e lida com a descrição das coisas. Como vou tratar de uma discussão de algo que eu não tenho acesso? Isso é um pouco limitado. Lévinas abre um caminho, mas não o percorre.

» Então, como, em seu livro Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas, vocêa presenta este caminho aberto por Lévinas?

A obra de Lévinas vai da década de 1920 até os anos 1990. Separei temas que melhor apresentam o seu pensamento. No primeiro capítulo, é a crítica à ontologia, que Lévinas propõe o existente no lugar da existência. Pensar a pessoa e não somente refletir sobre a existência humana. No segundo, eu trato a questão do humanismo e de como Lévinas o critica. Depois a questão do feminino, de como a mulher representa uma abertura ética, com a possibilidade de gerar o terceiro, e escrevo também sobre os animais. O outro capítulo é a crítica de Lévinas ao Heidegger em relação à morte. E há também a relação do Eros, do amor e da justiça.

» Por que seu livro pode ser considerado pioneiro?

Eu tentei trabalhar Lévinas por questões estritamente filosóficas, sendo que muitas das leituras que comumente se encontram associadas ao filósofo dedicam-se a temas mais próximos da Teologia. Além disso, busquei dialogar com Lévinas. Não ser um levinasiano, mas ter críticas sobre o seu pensamento. E também ir além de sua obra. O seu legado pede para ir além, não ficar preso.

» A que conclusão, após ler o seu livro, o leitor comum pode chegar?

Perceber como a Filosofia é uma esfera interessantíssima, mas com muitos problemas. É um livro crítico. Pensar como, em 27 séculos de Filosofia, o outro não teve o devido espaço no pensamento. Gostaria que ficasse para o leitor a questão de como pensar então o outro. Questões para se levar para o nosso dia a dia. Será que temos esse espaço para o outro nesta ordem do cálculo, de planejamento da sociedade? E falta pensar o outro, animal, meio ambiente...

» E como trazer o pensamento de Lévinas para o cotidiano?

Essa questão de cuidar do próximo, da metáfora do filho. Mais do que cuidar, é ser responsável pelo outro. É uma convocação, mais do que um dever. É estar aberto a qualquer hora que o outro bate à minha porta. Parar de programar essa chegada do outro. É como se apaixonar, por exemplo. A metáfora é: minha porta tem que estar aberta sempre, pois o outro não tem hora para chegar e se instalar.

» Quais são os seus próximos projetos?

Estou terminando um livro sobre a relação de Derrida com a tradição; trabalho igualmente com outros autores como Kierkegaard, Nietzsche e Benjamin, mas também e, talvez sobretudo, com a Literatura. A ideia é criar um diálogo de Derrida com pensadores que o influenciaram diretamente, ou autores próximos de seu pensamento. Mostrar como a Filosofia, a partir de Derrida, se baseia em certa noção de descontaminação, ou seja, que o pensamento é neutro quando na verdade as fronteiras entre Filosofia, Religião e Ciência, por exemplo, não são bem definidas como se querem acreditar. Especificamente com a Literatura. Por que a Filosofia é a verdade? Em minha opinião, toda escrita possui um caráter ficcional. Por isso, escrevo também sobre a questão da autobiografia, relação autor e obra, porque o filósofo não é neutro; fala sempre de um lugar: o dele próprio.

Foto: Felipe Fittipaldi

 


Publicado em: 02/09/2015





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