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Entrevista com autor

Rogério Ribeiro de Oliveira



Em uma época em que catástrofes naturais são cada vez mais frequentes e devastadoras, as diversas nações do planeta começam a se importar com as consequências da industrialização acelerada notada no último século. A emissão de gases poluentes na atmosfera – apenas uma das várias ações do homem que vêm modificando a natureza –, além de contribuir para o aquecimento global, traz inúmeros problemas de saúde para moradores de grandes cidades, onde se concentra mais da metade da população mundial. No Brasil, as queimadas na Amazônia levaram Pascal Lamy, presidente da Organização Mundial do Comércio, a defender a internacionalização da floresta à época de sua candidatura. Nunca se discutiu tanto sobre o meio ambiente.

No Rio de Janeiro, a ocupação dos morros, as queimadas e a expansão da Zona Oeste também preocupam geógrafos e biólogos. O livro “As Marcas do homem na floresta – História ambiental de um trecho urbano de mata atlântica”, organizado por Rogério Ribeiro de Oliveira e recentemente lançado pela Editora PUC-Rio, é resultado de um estudo histórico-ambiental feito por pesquisadores de diversas áreas que analisaram os efeitos da ação humana na mata atlântica no bairro do Camorim e na região do Parque Estadual da Pedra Branca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ao longo da sua história de ocupação.

Nesta entrevista exclusiva à Editora PUC-Rio, o organizador da obra, Rogério Ribeiro de Oliveira, diretor do Departamento de Geografia da PUC-Rio, nos fala sobre efeitos da expansão urbana na Zona Oeste, comenta as alterações climáticas e introduz aspectos da história ambiental, que, segundo ele próprio, é “uma história da natureza contada pelos homens e uma história dos homens contada pela natureza”.

» Editora PUC-Rio: O objeto de estudo do livro é debatido a partir do enfoque proposto pela história ambiental, que por sua vez é considerada uma disciplina recente. Você poderia nos contar um pouco sobre esse novo ramo do conhecimento?

Rogério Oliveira: A história ambiental está se tornando um novo paradigma para se estudar a natureza. No estudo ambiental, estão surgindo novas maneiras de se pensar o meio ambiente. Por exemplo: hoje sabemos que o desequilíbrio ambiental não decorre apenas por falta de informação, mas está ligado principalmente a causas sociais. São várias as possibilidades de se abordar o tema. A história ambiental é uma dessas novas vertentes, indo contra um pensamento positivista e reducionista. É uma tentativa interdisciplinar de se entender o meio ambiente, ligando-o à história, e, a história, a ele.

» Editora PUC-Rio: Poderíamos saber a história de um lugar a partir da análise das transformações do homem no meio ambiente?

Rogério Oliveira: Exatamente. Seriam, na verdade, duas visões. A primeira vai enfocar a história dessa transformação. A outra buscará entender como as transformações alteraram a história. Temos, assim, uma história da natureza contada pelos homens e uma história dos homens contada pela natureza, sendo que ambas se complementam. Por sinal, em relação à disciplina História, ensinada nos colégios e na academia, a história ambiental coloca alguns assuntos sob outros enfoques. Na história ambiental, por exemplo, não interessam as fronteiras ou Estados, e a perspectiva temporal, ainda em comparação com a História, é também maior. Claro, em um livro de História Geral você pode encontrar capítulos sobre os sumérios, sobre a mesopotâmia, mas dificilmente haverá muitas páginas se referindo a tempos mais antigos. Na história ambiental, esse horizonte é maior, já que a história da transformação do ambiente se confunde com a própria história do homem.

» Editora PUC-Rio: Por falar em livros didáticos, quais os conhecimentos que a história ambiental poderia trazer àqueles que tivessem contato com ela, por exemplo, nos colégios?

Rogério Oliveira: Acredito que ela traria não apenas conhecimento, mas principalmente uma nova consciência ambiental. Os resultados de um programa educacional que, em determinada comunidade, preocupa-se apenas em informar os efeitos de ações devastadoras, como queimadas, aterros etc., poderiam ser melhores se estimulassem a população a tentar enxergar a história das transformações do meio ambiente local, apontando consequências concretas. Trabalhando com a identidade da comunidade, a consciência ambiental pode ser desenvolvida mais facilmente.

» Editora PUC-Rio: E como surgiu o interesse de publicar um livro de história ambiental que traz o foco para a Zona Oeste do Rio de Janeiro?

Rogério Oliveira: Surgiu a partir de um projeto financiado pela Sociedade Brasileira de Educação e pela Fundação Padre Leonel Franca. A ideia básica era estudar uma região, o Camorim (nas vargens da Barra da Tijuca), que estava, e ainda está, em um grande processo de transformação, cujos moradores simplesmente não tinham acesso ao estudo ou contavam com um mercado de trabalho em que predominava o subemprego. Nossa ideia era trabalhar a sustentabilidade e o meio ambiente, desenvolvendo programas de inclusão apoiados pelo Nima (Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente) e pelos departamentos de Serviço Social e de Geografia da PUC-Rio. Fizemos várias oficinas com os jovens da região, que participaram, posteriormente, da pesquisa do livro, analisando as “marcas do homem” na região conosco. O programa se estendeu até as donas de casa, que fizeram parte de turmas de inclusão digital e de paleografia, que é a interpretação de documentos antigos a partir da compreensão da caligrafia utilizada. Com o conhecimento, foram ao mosteiro de São Bento e analisaram 200 anos de Estados da Ordem – registros históricos trienais feitos pelos monges que viviam ali desde o século XVII, nos quais constam dados como a população de escravos, a quantidade de lenha que se derrubava e a de açúcar que era produzido, entre outras informações. O resultado está no livro.

» Editora PUC-Rio: Ao longo de décadas assistimos a uma crescente ocupação na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Como você vê essa expansão?

Rogério Oliveira: Na verdade, o problema não é a expansão em si, mas a maneira como ela está sendo feita. O problema é a “cidade ilegal”, e não estou falando apenas de favelas, mas de mansões e condomínios, muitas vezes luxuosos, que invadem áreas de reserva do Parque Estadual da Pedra Branca. Há muito que ser conservado na Zona Oeste. Por sinal, não se sabe como ficará a região após os Jogos Pan-americanos de 2007. Serviços como o de transporte ainda são bastante precários para a população de baixa renda que vive nas cercanias desses condomínios. Imagina-se que o contingente aumentará ainda mais, visto que os apartamentos da Vila Olímpica já foram vendidos e inúmeros condomínios estão prometidos para os próximos anos. Não há fiscalização ou um planejamento de infraestrutura efetivo que leve em conta futuros crescimentos demográficos.

» Editora PUC-Rio: Catástrofes naturais como o furacão Katrina que devastou Nova Orleans, nos Estados Unidos, os ciclones no sul do Brasil ou as enchentes na Europa são muitas vezes atribuídos às “marcas do homem” atual, poluidor. Você concorda com esse alarde?

Rogério Oliveira: A certos fatos é difícil atribuir causas. Quanto às mudanças climáticas, há a verdade e há a apropriação e a manipulação dessa verdade. É evidente que existe uma transformação no clima, e essa mudança pode estar ligada aos efeitos que você citou. O problema é que não há de fato uma comprovação dessa ligação, mesmo que as pesquisas apontem para essa direção. A sinergia da natureza torna a maioria das previsões de longo prazo discutíveis. Alguns afirmam que tal processo de alteração climática teve início na Revolução Industrial, mas os estudos histórico-ambientais mostram, por exemplo, que populações antigas, de três a quatro mil anos atrás, já faziam enormes queimadas. Mas não há como negar, aliás, e é importante frisar, que o padrão de consumo atual em breve se mostrará insustentável. Não podemos consumir como os norte-americanos; seria catastrófico. Isso é um fato.

» Editora PUC-Rio: Mas há alguma tendência de aumento de consciência pública ambiental?

Rogério Oliveira: Creio que pouco. A discussão acerca dos rumos das políticas ambientais tem de fato aumentado – e exponencialmente; mas as atitudes e os hábitos, muito pouco. A sociedade e a economia estimulam o consumo, e pouca gente consegue ver ligação entre o consumo e os problemas ambientais. É importante lembrar, a respeito disso, que o problema ambiental é um problema social; há uma vertente técnica, há uma vertente biológica, mas ele deve ser olhado a partir de outras perspectivas, como faz a história ambiental. O que fazemos é tentar ver o futuro a partir das marcas deixadas no passado, e isso é importantíssimo para se compreender a ação do homem e suas consequências para o meio ambiente.

» Editora PUC-Rio: Para finalizar, nos fale sobre seus próximos projetos.

Rogério Oliveira: Ainda estou cada vez mais interessado no estudo da transformação da paisagem. Estamos trabalhando em uma tese que analisa uma floresta secundária, ou seja, uma floresta que já perdeu sua mata original; apesar de ter apenas 50 anos, encontramos ali figueiras enormes, de mais mil anos, e descobrimos que elas foram mantidas por conta de uma crença religiosa do povo local. E há uma grande população de animais que se beneficia da figueira, e sobrevivem por conta desse tabu. É incrível notar como a paisagem é influenciada pelo homem; nesse caso, pela fé humana. Além disso, estamos, há cinco anos, trabalhando no Camorim, associando a pluviosidade do local a partir da produção de serapilheira, de folhas, para tentamos compreender como a floresta se comporta face às alterações na pluviosidade.

Foto: Virginia Primo-------------------------------------------------------------------------------------------

 


Publicado em: 02/09/2015





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