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Entrevista com autor

Rossano Pecoraro



Rossano Pecoraro, entrevistado deste mês da seção Autores, concluiu seu doutorado em Filosofia recentemente pela PUC-Rio, em que apresentou a tese Infirmitas: niilismo – nada – negação. O autor, nos diversos debates acadêmicos em que tem participado (e nesta entrevista não foi diferente), sempre destaca a atualidade da questão niilista: “o niilismo é um conceito fun- damental, imprescindível para compreender o pensamento, não só filosófico, dos últimos dois séculos; signo e condição normal do nosso tempo, fenômeno ubíquo, complexo, multifacetado; ao mesmo tempo, causa patologia e chance”.

O livro mais recente de Rossano é Niilismo e (pós) modernidade: introdução ao “pensamento fraco” de Gianni Vattimo, lançado pela parceria Editora PUC-Rio/Edições Loyola em 2005. Além disso, é um dos autores de Àsmargens: a propósito de Derrida, também coeditado pela PUC-Rio/Loyola. Anteriormente, já havia escrito Cioran, a filosofia em chamas (EDIPUCRS). Na Itália, trabalhou vários anos como jornalista e publicou um livro sobre Cioran, além de um romance e de uma coletânea de poemas.

Sua trajetória acadêmica iniciou-se na Itália, no curso de Direito. Em seguida graduou-se em Filosofia pela Università di Salerno. Posteriormente, tornou-se mestre e, agora, doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Hoje, além de continuar atuando na PUC-Rio, é pesquisador do Instituto de Humanidades da UCAM, membro do corpo editorial da revista italiana Riscontri e editor e coordenador do Fórum Krisis, que debate o pensamento contemporâneo nos diversos campos do saber.

Esta entrevista começa com o relato de Rossano Pecoraro sobre como o niilismo despertou seu interesse. Em seguida, o filósofo fala sobre seus principais interlocutores e, por fim, faz algumas observações críticas à prática filosófica no Brasil.

» Editora PUC-Rio: Como surgiu seu interesse pelo niilismo?

Rossano Pecoraro: Filosofia, niilismo: trata-se, para mim, de uma questão existencial que provém dos abismos da vida, do sofrimento, da melancolia, do tédio e da lucidez “equivalente negativo do êxtase”, como dizia Cioran. O que é determinante, usando as palavras do filósofo espanhol Miguel de Unamuno, é o homem (e o filósofo) de carne e osso. Existem pessoas que pensam apenas com o cérebro, os que ele definia como “profissionais do pensamento”, enquanto outras pensam com todo o corpo e toda a alma, com o sangue, com o coração, com o ventre, com a vida. Filosofar talvez seja escavar no insustentável na tentativa de (sobre)viver.

A primeira parte do meu percurso, que se concretizou com a graduação na Itália e com a publicação de um livro, nasceu de questões existenciais; era um âmbito de pertencimento meu com a melancolia, o nada, o suicídio, a angústia. No mestrado, já no Rio de Janeiro, dediquei os meus estudos ao pensamento negativo de Cioran. No doutorado, e depois de ter transformado a dissertação em livro, busquei pensar nas questões que haviam surgido nos anos anteriores de uma forma mais filosófica, menos literária e poética. Depois de ter tentado resgatar o pensamento filosófico de Cioran – que é considerado um ensaísta, um escritor, pouco filósofo porque a sua característica peculiar é de não ter um pensamento sistemático, pelo menos não no sentido clássico da filosofia –, certa insatisfação se apoderou de mim, quando comecei a trabalhar um pouco mais esses temas, essas inquietações, esses conceitos. Queria deixar de lado o aspecto mais existencial, mais poético, ter uma forma de escrita diferente e pensar nessas mesmas questões (o niilismo, o nada, a negação e a crise do pensamento contemporâneo) de uma forma mais filosófica, talvez mais rigorosa, teoreticamente mais desafiadora e complexa. Foi isso que eu fiz no meu doutorado, concluído há pouco tempo, em que defendi a tese Infirmitas: niilismo – nada - negação. Ao longo da pesquisa descobri que o meu discurso não podia enclausurar-se nos moldes da contemporaneidade; era necessário interrogar a tradição filosófica do Ocidente (ou antes, alguns momentos decisivos seus) e tentar entender os enigmas e as indicações que dela provinham, ao mesmo tempo em que, conceitualmente, ia-se às vísceras do nihil (niilismo e nada) e da negação. Trata-se sem dúvida de questões especulativas e abstratas, mas que eu tento sempre expor de uma forma acessível, mas sem abrir mão do rigor; talvez nessa tarefa eu seja ajudado pela minha experiência jornalística. A obscuridade da linguagem é para quem não sabe comunicar ou tem medo de comunicar; e de confrontar-se também.

» Editora PUC-Rio: Se o seu modo de conceber a filosofia é aquele que valoriza o “homem de carne e osso”, podemos inferir que o niilismo possui relação intrínseca com o homem na atualidade?

Rossano Pecoraro: O niilismo é um conceito fundamental, imprescindível para compreender o pensamento, não só filosófico, dos últimos dois séculos; signo e condição normal do nosso tempo, fenômeno ubíquo, complexo, multifacetado; ao mesmo tempo causa, patologia e chance. De modo geral é possível considerar o niilismo como movimento “positivo” – quando mediante um labor de crítica e desmascaramento nos revela a abissal ausência de cada fundamento, verdade, critério absoluto e universal e, portanto, convoca-nos diante da nossa própria liberdade e responsabilidade, agora não mais garantidas nem sufocadas ou controladas por nada; e como movimento “negativo” – quando a acentuar-se, nessa dinâmica, são os traços destruidores e iconoclastas; os do declínio, do ressentimento, da incapacidade de avançar, da paralisia, do “tudo-vale”, do perigoso silogismo: se Deus (a verdade, o princípio) está morto então tudo é permitido.O termo niilismo possui várias conotações, principalmente de cunho negativo. É associado, por exemplo, à anarquia, ao terrorismo, à aniquilação total de valores e critérios, ao relativismo mais desenfreado. Há um duplo movimento no niilismo. O primeiro é o da destruição, da redução a nada, de todo o aparato da tradição. Isso é positivo, pois a crise permite a libertação, a emancipação. Nesse caso, não existe mais nenhum portador da verdade absoluta. Por outro lado, essa violenta dissolução cria um vazio imenso, e aí está o segundo movimento: é diante desse vazio que nos é dada a oportunidade de criar novos valores, novas perspectivas. No entanto, a grande questão é: como fazer isso? É necessário, então, no interior desse segundo movimento, encontrar uma maneira de individuar algum tipo de “critério” no horizonte niilista. Um dos maiores riscos do niilismo é o de cair em um relativismo do tipo: “não há fatos, apenas interpretações” (a frase, muito equivocada, é de Nietzsche), em um “tudo-vale” absolutamente inconsistente, que não leva á lugar algum. A meu ver, o niilismo, o afã destruidor que se enclausura em si mesmo, os apelos à libertação total, a rejeição de toda regra, servem apenas para esconder a incompetência e o pavor de confrontar-se daqueles que os pregam.

Dizer que somos niilistas não significa que possa valer a absoluta ausência de critério (sublinho: absoluta). Vattimo fala especificamente de uma hermenêutica niilista, ou seja: eu posso dar uma opinião, outro pode discordar, criticar, fornecer outra versão de algum “fato”, mas isso não significa que não haja a possibilidade de uma opinião prevalecer, decerto de modo temporário e provisório, aqui e agora, sobre a outra. Veja bem: chega um momento em que é preciso decidir; e essa decisão “impossível” carrega consigo uma grandíssima responsabilidade. Não é por acaso que temas como decisão, responsabilidade (e as aporias que os afetam) são centrais no pensamento contemporâneo.

Por fim, uma última questão. O termo niilismo deriva do latim nihil, nada. Essa origem revela um primeiro sentido do conceito, que remete a um pensamento fascinado e obcecado pelo nada. Seguindo tal perspectiva o niilismo poderia ser encontrado ao longo de toda a história do pensamento ocidental. Na realidade as relações entre o niilismo, o nada e a negação, por motivos nos quais não é possível refletir aqui, são muito mais radicais, complexas e profundas do que se possa imaginar. Os estudos mais importantes sobre o tema separam nitidamente os dois conceitos, pondo de lado o nada para se concentrar no niilismo considerado como fenômeno histórico, como um evento ligado à Modernidade e à sua crise. Niilismo no sentido estrito, portanto, tal como surgiu na filosofia do século XIX e depois, com uma intensa força contaminante, especialmente no século XX. Esclareço que eu não considero o niilismo apenas um fenômeno histórico, ligado a uma determinada época, mas algo a-histórico, intrínseca e originariamente ligado, assim como a metafísica, ao homem e à sua existência. E as minhas pesquisas mais recentes tentam aprofundar, elucidar e sustentar essa hipótese.

» Editora PUC-Rio: Ao longo de seu percurso como filósofo, Cioran, Vattimo e Derrida teriam sido os seus principais interlocutores?Rossano Pecoraro: Principais não; são os mais recentes; talvez os mais importantes agora, num determinado momento da minha vida. Desde criança eu sempre li muitíssimo e de tudo, desde a Odisséia e a Ilíada até as histórias em quadrinhos. A minha formação, porém, foi marcada principalmente por alguns clássicos da filosofia (Platão, Aristóteles, Plotino, Agostinho, Descartes, Kant, Hegel, Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche), pela literatura russa (principalmente Dostoiévski e Gogol) e alemã (Hesse, Goethe, Kleist, Mann), pelo simbolismo francês, pelo pessimismo alemão (Bahnsen, von Hartmann, Mainlander) e pela cultura italiana representada, apenas para citar alguns nomes, por Leopardi, Pavese, Svevo, Pirandello, Buzzati, De Filippo... Uma formação, como se vê, essencialmente clássica, que lembrei aqui não para me vangloriar de alguma prestigiosa genealogia, mas sim para sublinhar, apenas, que foi graças a essa formação, a essa base, que consegui me adentrar em autores, obras, questões do pensamento contemporâneo sem perder de vista a minha tradição, o nosso patrimônio de sentido.

Voltando à sua pergunta. Antes já falei um pouco de Cioran, um dos meus filósofos-interlocutores mais importantes. Vattimo representa uma maneira de filosofar que acho muito interessante, ao mesmo tempo lúcida e apaixonada, extremamente adequada ao que está em jogo na nossa contemporaneidade. Eu cheguei a conhecê-lo pessoalmente e tenho uma grande estima por ele. A minha “relação” com Derrida é no mínimo ambivalente. A leitura das suas obras, começada na Itália, teve as características de uma verdadeira paixão, que aumentou, paralelamente ao intensificar-se dos meus estudos, no Brasil. Foi quando mergulhei na filosofia contemporânea para tentar responder àquela certa insatisfação, depois da fase cioraniana mais literária e com temas mais existenciais. Posso dizer que li e estudei quase todas as obras dos grandes filósofos da atualidade (a partir dos anos 70 até hoje) principalmente do âmbito italiano e francês. Por isso, Vattimo e Derrida. Eu pensava que neles poderia encontrar as indicações das quais precisava para me orientar na minha pesquisa, mas não foi bem assim. Os dois começaram a perder peso no meu itinerário conceitual, enquanto outros ganhavam espaço. Nada de novo, obviamente; todo trabalho de pesquisa é assim. Desse modo comecei a ler mais autores como Jean-Luc Nancy, Sergio Givone, Massimo Donà, Emanuele Severino.

» Editora PUC-Rio: Como você vê a filosofia no Brasil?

Rossano Pecoraro: O pensamento filosófico brasileiro é muito desenvolvido, tem uma produção muito extensa e de altíssima qualidade internacional, mas, na minha opinião, falta uma verdadeira originalidade filosófica. Definir em que consistiria essa originalidade é questão muito complicada, discutida e polêmica e por isso não dá para enfrentá-la aqui. De todo modo, o que eu vejo é que no Brasil por um lado há uma maneira de fazer filosofia muito ligada a padrões europeus ou norte-americanos, às vezes já ultrapassados, que acabam por sufocar a capacidade de desenvolver novas, possíveis visões filosóficas; por outro lado, a leitura e o conhecimento profundo e aprimorado dos textos clássicos da nossa tradição de pensamento e das obras que marcam a nossa contemporaneidade – que eu julgo essenciais para qualquer empreendimento filosófico digno desse nome – são negligenciados, desvalorizados. É por isso que a maioria dos textos brasileiros considerados inovadores e originais, numa palavra: filosóficos, possuem às vezes uma carga desanimadora de ingenuidade. Na filosofia não existem gênios; e é impossível ignorar o que foi escrito antes.Se você tem o dom de escrever, pode escrever um ótimo romance sem saber nada sobre a História da Literatura. Na filosofia isso não é possível. Claro, é possível publicar, dar aula, divulgar as próprias idéias, buscar fazer filosofia... Para o Brasil, fica o desejo de que haja mais obras originais – historicamente rigorosas e realmente inovadora do ponto de vista teórico – no campo da filosofia. Afinal, nós falamos no exterior de Machado de Assis, de Chico Buarque, de Guimarães Rosa, de Paulo Freire, de Jorge Amado, de Oscar Niemeyer, e na filosofia?

» Editora PUC-Rio: Você organiza um fórum de discussões contemporâneas chamado Krisis. Fale um pouco sobre essa proposta.

Rossano Pecoraro: Já estamos na segunda edição do Fórum Krisis (o primeiro aconteceu em 2003). Em 2005 foi um grande evento, com um comitê científico de altíssima qualidade composto por mais de 60 professores do Brasil e do exterior. Tivemos mais de 200 palestrantes das diversas áreas do saber (filosofia, direito, ciências políticas, comunicação, letras, educação).

A idéia do fórum é que, durante uma semana, sejam discutidas as questões do pensamento contemporâneo no horizonte da crise que vivemos, do fim dos fundamentos e dos critérios absolutos. Trata-se de uma situação em que, se queria ou não, estamos colocados; o propósito é tentar enfrentá-la, confrontar-se com ela; entrever um seu possível ultrapassamento, mas também questioná-la, refutá-la, pensar contra ela mesma.Ainda esse ano será lançado um CD-Rom com todas as comunicações apresentadas; no ano que vem será publicado um livro com os textos de algumas das conferências plenárias. O CD apresenta a maioria das comunicações apresentadas no Fórum, enquanto o livro trará 11 ensaios, de autores brasileiros e do exterior, na tentativa de mapear três questões cardeais: niilismo, política e comunicação.

» Editora PUC-Rio: Quais são os seus próximos projetos?

Rossano Pecoraro: Além desses dois últimos, vai sair, pela Revista Alceu, um Dossiê Vattimo, coordenado por mim, com alguns ensaios e com a tradução de um diálogo inédito entre Vattimo e Derrida, que até hoje só havia sido publicado em italiano. Essa tradução era uma idéia antiga minha: eu citava esse diálogo e todos ficavam curiosos, pois é um texto recente, e são os dois maiores pensadores da atualidade conversando sobre filosofia, amizade, paixões, violência, visões de mundo. Esse dossiê vai ser publicado em comemoração aos 70 anos de Vattimo, e procede paralelamente a um livro que está sendo lançado na Itália e nos Estados Unidos. A idéia era fazer uma homenagem brasileira a ele, mostrando como o seu pensamento é estudado entre nós em várias áreas do saber, como comunicação, política, filosofia, teologia.

Além disso, tenho outros projetos editorias a curto prazo que giram em torno do niilismo, de temas de filosofia da história e do pensamento de alguns autores contemporâneos. A médio prazo quero dar continuidade ao trabalho desenvolvido na tese de doutorado, isto é, as relações entre niilismo, o nada e a negação. Pretendo enfrentar essas questões tanto mostrando as suas repercussões no âmbito da filosofia da arte, da comunicação, da teoria política, da filosofia da religião, quanto aprofundando os seus liames com o objetivo de escrever, e publicar, um livro que gostaria que fosse um pequeno, mas significativo marco na minha produção intelectual.


Publicado em: 02/09/2015





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