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Entrevista com autor

Stela Kaz



Feição pela qual o Rio de Janeiro é conhecido no mundo, Copacabana formou um conjunto de valores que se mantêm até hoje. Muito mais do que um bairro, é um ícone cultural que teve sua imagem construída ao longo dos anos: principalmente nas décadas de 1940 e 1950. A praia, a moda e o comportamento único geraram não só uma produção cultural, mas uma produção mercantil. É essa a visão que Stela Kaz apresenta em Um jeito Copacabana de ser.

O livro ilustra a história do mito Copacabana, sustentado pelo seu consagrado estilo de vida. Escrita originalmente como tese de doutorado, trata-se de uma continuação dos estudos da doutora em design pela PUC-Rio, Stela Kaz. Sua pesquisa sobre o fenômeno da produção de aparências para o consumo já havia sido iniciada anteriormente com a publicação de sua dissertação de mestrado, Vendem-se aparências.

» Por que falar, primeiro em tese e agora em livro, sobre o valor simbólico, a cultura, a moda e o modo de vida de Copacabana?

Copacabana é um fenômeno único que merece ser estudado, uma vez que já foi citado em muitas canções, representado em muitas fotos, desenhos, objetos, e descrito em muitos textos literários.

» O livro trata do mito Copacabana. Em que consiste esse mito?

A essência de um mito não permanece inalterada. Ela muda, acompanhando a evolução das ideias. Aliás, é essa capacidade de mudança que faz o mito. O mito Copacabana tem sua trajetória. A praia era recomendada para os doentes do corpo e da alma, por trazer a sensação que conhecemos de bem-estar depois de um mergulho na água gelada de um dia de verão. O mito Copacabana reúne algumas características devido à sua história: saúde, alegria, plenitude, modernidade, espírito de aventura, sofisticação, liberdade.

» Como foi a trajetória desse mito?

Primeiro surgiu a praia: de mar aberto, com ondas e forte maresia. E digo “surgiu” porque ela estava escondida pelas montanhas. Até a abertura do túnel Velho, era preciso subir e descer o morro a cavalo ou a pé, para chegar lá. As praias até então conhecidas no Rio ficavam na baía de Guanabara. Depois veio o bairro, povoado por pessoas que saíram de casas na zona Norte do Rio para casas de veraneio e prédios de apartamentos, portanto tinham espírito moderno e inovador, e adotaram as novidades americanas que já então chegavam ao Brasil, trazidas pelo cinema e pela música. Junto com o bairro veio o Hotel, que reuniu durante anos o que havia de elegante na cidade, abrigou um cassino com shows musicais, desfiles de moda, um grill, bares, restaurantes, e onde se hospedavam as celebridades americanas.

» Como surgiu a ideia de estudar Copacabana?

Eu havia produzido uma dissertação de mestrado em design com o nome de “Vendem-se aparências” que estudava o fenômeno da produção de aparências para o consumo, uma vez que as pessoas compram produtos para compor um determinado estilo ao qual sentem necessidade de se encaixar para se fazer rotular. Resolvi continuar a mesma temática no doutorado, mas fazendo um estudo de caso.

Copacabana surgiu como possibilidade a partir de alguma coisa que eu vi, estampada com as ondinhas da calçada, já não me lembro o que foi. Era preciso, antes de tudo, examinar o objeto de estudo, delimitá-lo, escolher um ponto de vista. Se eu estivesse estudando Letras, teria escolhido a produção literária em torno de Copa, mas como estudava Design, escolhi estudar o elemento visual (as ondinhas) como signo. Parti do signo visual, cheguei ao conceito de Copacabana como elemento da brasilidade e voltei ao signo visual.

» Como foi o processo de pesquisa para recolher os dados expostos na obra? Quais foram as dificuldades de produção da pesquisa?

Primeiro pesquisei na internet para alargar as possibilidades, aumentar o universo. Uma boa ideia pode estar escondida em algum cantinho. Depois fui à biblioteca da Casa de Rui Barbosa, onde trabalhava na época. Essa biblioteca recebeu em doação a coleção de revistas de Plínio Doyle, que reúne milhares de revistas publicadas no Brasil.Comecei a folhear as revistas publicadas no Rio de Janeiro e que se dedicassem ao entretenimento das famílias desde o início do século XX, com a abertura do acesso a Copacabana. Uma ou outra revista falava dela, muito raramente. Mas quando fui chegando em 1940, aumentaram muito as referências, tanto em texto como visuais, tanto em O Cruzeiro, quanto na revista Sombra e em outras revistas que eu pesquisei, mas não usei, como Fon-fon, revista Rio, Rio Magazine. Começou então um ano de leituras sobre História do Brasil, sobre modernidade, modernismo, semiologia, representação. Isso me permitiu formar o ponto de vista. Veio, então, o trabalho braçal de marcar todas as referências a Copacabana nas duas revistas, fotografá-las e digitar todos os textos. Tive uma grande dificuldade com a liberação de direitos de reprodução das imagens.Todo esse trabalho foi calçado pelas leituras do Grupo Barthes (grupo de pesquisa da PUC) e orientado pela profa. Denise Portinari.

» Quais foram os achados da pesquisa? O que surpreendeu durante sua produção?

Os achados da pesquisa foram as suas conclusões. Copacabana foi se enriquecendo com valores diversos. Foi um dos primeiros bens simbólicos exportados pelo Brasil, representando para o estrangeiro a possibilidade de um Brasil mundano, de uma tropicalidade "consumivel". O bairro constituiu uma das portas de entrada para a modernidade americana no Brasil, e, portanto, criou uma versão brasileira desta mesma modernidade. Acabou por encarnar a liberação dos costumes na sociedade moralista e reacionária brasileira.

O que me surpreendeu foi esse enorme valor agregado à palavra "Copacabana" e à representação visual das suas calçadas. Descobri centenas de bares, restaurantes e comércios mais variados com o seu nome, e encontrei todo tipo de objeto revestido de sua estampa.

» A imprensa é citada no livro como uma difusora de modelos de pensamento e comportamento sobre Copacabana. Como ela ajudou a difundir esse mito sobre o bairro?

A mídia é determinante sobre o comportamento. Na época em que Copacabana começou a ficar famosa ainda não existia televisão, as pessoas se reuniam em torno do rádio e das revistas ilustradas e os jornais traziam poucas imagens. Até 1930, quase não havia estradas, e como disse Roger Bastide, em Brasil, terra de contrastes, a distância entre as capitais e o interior do Brasil se media em anos, e não em quilômetros, tal era a dificuldade da informação se espalhar pelo país. As pessoas viam um pouco e imaginavam muito.

Copacabana virou notícia na época em que as pessoas começaram a receber informações. As músicas que as pessoas ouviam no rádio falavam de Copacabana. As revistas mostravam fotos de mulheres quase nuas (para os padrões da época), andando pelas ruas. Quem não queria ver isso de perto? Essa época foi escolhida para a pesquisa exatamente pela riqueza histórica que ela reuniu com a segunda guerra mundial, o início da hegemonia americana sobre o mundo, o avanço que o Brasil fez em termos de modernização e transportes, e o início das transmissões radiofônicas.

» Qual é a relação entre esse mito criado sobre Copacabana e o modo como se vive no bairro?

Acho que não há relação entre o mito e o cotidiano da maioria das pessoas, a não ser pelos muitos turistas e pelas pessoas que trabalham prestando serviço a esses turistas, principalmente nos grandes eventos como a Copa, a visita do Papa, o Ano Novo. Cada vez mais comemorações acontecem em Copacabana, e como atualmente qualquer coisa reúne uma multidão, os moradores e o próprio bairro acabam sofrendo com esse assédio.

» No livro, há uma relação forte da figura feminina com a praia de Copacabana. Que relação é esta e como podemos analisá-la atualmente?

Isso é uma faceta do mito. Copa é a Marylin das praias. Há toda uma produção musical e literária que fundamenta isso: Copacabana é “a princesinha do mar”, a iluminação a beira mar era o seu “colar de pérolas”. As revistas mostravam as mulheres de maiô, os desfiles de moda no Copa ou as “Copacabana Girls”, moças que dançavam nos shows dos cassinos. Copacabana tornou-se o lugar do lazer no Rio, havia uma atmosfera de sexo e desejo permeando a ideia do bairro. Isso ajudou a criar alguns mitos secundários, como a “elegância da mulher carioca”, a crença na tendência a não fazer nada e passar o dia todo na praia do povo carioca, a facilidade para namorar atribuída à mulher carioca, e a ideia de lugar depravado em que as moças não eram “direitas”.

» Copacabana continua hoje possuindo o mesmo valor estético e ideológico para a cultura brasileira?

Copacabana possui um valor mercadológico inestimável, uma vez que é objeto do afeto de muita gente em todo o mundo e o consumo tem forte motivação emocional. Numa cultura que tem o mercado e as aparências como seus maiores valores, como é a nossa cultura Ocidental, ela é o máximo.


Publicado em: 02/09/2015





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