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Entrevista com autor

Susan Haack



Contrária à banalização da filosofia, a autora de Manifesto de uma moderada apaixonada (Editora PUC-Rio/Edições Loyola), a inglesa Susan Haack, acredita que a filosofia deveria ser uma investigação que busca a verdade. O livro, traduzido e apresentado por Rachel Herdy (Direito, PUC-Rio), trata de assuntos como o feminismo, multiculturalismo e ação afirmativa, além de criticar a redução da filosofia a um mero gênero literário.

Conhecida mundialmente por seu trabalho em epistemologia e filosofia da ciência e do direito, Haack se assume uma feminista que é, ao mesmo tempo, uma “purista antiquada” e uma “moderada apaixonada”, o que confere às suas ideias um ar polêmico.

» Temas como relativismo, feminismo, multiculturalismo e neopragmatismo são tendências na filosofia, como a senhora aponta no livro. Por outro lado, a senhora os considera temas falaciosos no campo filosófico. Deveríamos invalidar o trabalho de filósofos que exploram esses temas?

Certamente não! Primeiro de tudo, explorar uma ideia é uma coisa, defender é outra bem diferente. Não há absolutamente nada de errado em examinar o relativismo, o multiculturalismo, o feminismo radical. Na verdade, é exatamente isso o que eu faço quando tento entender exatamente onde e por que eles vão mal. Em “Reflexões sobre o relativismo”, por exemplo, diferencio uma variedade de diferentes tipos de relativismo – dependendo do que é dito ser relativo a que, e o sentido de “é relativo a”; e tento explorar quais formas estão erradas e por qual razão. Minha estratégia no ensaio “Multiculturalismo e objetividade” é parecida.

Além disso, a sugestão de que considero relativismo e multiculturalismo como “temas falaciosos” é exagerada. Eu critico certas formas de relativismo, feminismo, multiculturalismo e neopragmatismo. Mas não digo (e não acredito) que todo tipo de relativismo, por exemplo, é equivocado.

» A senhora se preocupa com a possibilidade da filosofia deixar de ser realizada em nível de investigação para se reduzir a mero gênero literário. Corremos, de fato, esse risco?

Eu acredito que a filosofia é e deveria ser um tipo de investigação, de busca pela verdade; e penso que a ideia geral de assimilar filosofia à literatura é mal concebida – por várias razões. Filosofia e literatura imaginativa são ambos empreendimentos valiosos, mas significativamente diferentes.

No ensaio em que eu critico a tentativa do filósofo americano Richard Rorty de repensar a filosofia como “somente um tipo de escrita”, ressalto que se o conceito de verdade realmente fosse tão impossível como Rorty afirma, seria impossível para os romances, peças, poemas e outras formas de literatura transmitir verdades sobre a condição humana – o que eles certamente fazem.

Assim como algumas obras de filosofia – como os diálogos de Platão – são também, justamente, valorizadas como obras da literatura, algumas produções da literatura – como The Way of All Flesh, obra de Samuel Butler, a melhor representação de hipocrisia e falsa investigação na língua inglesa – são também valorizadas como fontes do pensamento filosófico. Mas isso não quer dizer, e não é verdade, que não há uma diferença real entre filosofia e literatura imaginativa.

Em suma, minha preocupação não é, como sugerido na pergunta, com o fato de que a filosofia possa “deixar de ser uma espécie de investigação e se reduzir a um mero gênero literário”, mas sim em articular como a filosofia difere da literatura imaginativa.

» Qual seria, então, o desafio do filósofo contemporâneo?

Perguntar sobre “o” desafio para “o” filósofo contemporâneo sugere que existe apenas um desafio, e que este é o mesmo para todo filósofo contemporâneo. Isso é equivocado.

Então deixe-me falar sobre o que eu vejo como (alguns) dos mais importantes desafios que enfrento em meu próprio trabalho. Um desafio perene é combinar – como, acredito, um bom trabalho filosófico deveria combinar – rigor, precisão e detalhe com amplitude, profundidade e relevância para as reais preocupações humanas. Outro é ficar alerta a respeito da possibilidade de que as questões que estou abordando estejam de alguma forma mal concebidas. Logo, a melhor coisa a ser feita é não responder a elas diretamente, mas primeiro explorar suas pressuposições e reafirmá-las melhor.

Todos os verdadeiros filósofos sempre enfrentaram desafios como esses. Mas, no momento, há muitos desafios específicos e distintivos que surgem do ambiente institucional em que a maioria dos trabalhos filosóficos acontece. Um dos maiores desafios, para mim pelo menos, é resistir a uma confusão de distrações inerentes ao atual cenário acadêmico.

A filosofia, pelo menos a da língua inglesa, está cada vez mais dominada por pequenas facções em que todos discutem sobre as mesmas questões vigentes, da moda, e se focam na mesma, às vezes muito limitada, linha com uma literatura excessivamente profissionalizada.

Às vezes tenho que perder tempo mostrando o que há de errado com ideias da moda, porém confusas ou banais, quando preferiria começar com um trabalho mais construtivo. E em epistemologia – uma área na qual trabalhei por muitos anos – muito do que anda acontecendo é tão decepcionante que eu tenho que resistir a afogar-me nos debates medíocres, egoístas, neste campo. Caso contrário, seria impossível pensar seriamente a respeito de quais problemas valeriam mais o meu enfrentamento e a melhor forma de enfrentá-los.

» Em um dos ensaios, a senhora se intitulava uma “purista antiquada”; Rorty classificava assim os pensadores que estão em busca da verdade. No título do livro, entretanto, a senhora se denomina uma “moderada apaixonada”. Há diferenças entre essas personagens? Quais?

Não, nós somos uma e a mesma pessoa! É claro que Richard Rorty estava usando a frase “purista antiquado” pejorativamente para zombar dos filósofos que levam o seu trabalho, segundo ele, muito a sério. Mas eu, de bom grado, adotei a frase como uma autodescrição, pois, diferentemente de Rorty, penso que a filosofia pode e deveria concentrar esforços para encontrar verdadeiras respostas para suas questões.Mas em muitas das questões que eu confronto em Manifesto de uma moderada apaixonada, é essencial reconhecer que a verdadeira resposta se encontra entre os extremos tradicionais, ou da moda; e é o meu compromisso com a invalidação de dicotomias perigosamente falsas e com a busca por um meio-termo que me faz ser uma “moderada apaixonada”.

Em minha introdução ao livro Manifesto, há uma lista de algumas das falsas dicotomias que eu apontei: ou filosofia cientificista, ou filosofia como “apenas um tipo de escrita”; ou a metáfora como um abuso da linguagem, ou a metáfora como ubíqua e a filosofia, até as ciências, como gêneros da literatura; ou o Antigo Deferencialismo, ou o Novo Cinismo; ou o conhecimento científico como uma mera construção social, ou uma negação da importância da organização interna e do contexto externo do trabalho científico; ou a rigidez escolástica da epistemologia analítica, ou a epistemologia feminista desenfreada; ou a contratação preferencial das mulheres etc., ou a Rede dos Velhos Meninos [Old Boys Network].

» Uma moderada apaixonada invariavelmente produzirá “ensaios fora de moda”?

Ao contrário de muitos trabalhos filosóficos contemporâneos, os ensaios em Manifesto não se limitam a questões e disputas técnico-filosóficas, mas também se envolvem em questões politicamente sensíveis sobre o estado da Academia, as consequências da contratação preferencial de mulheres em universidades e o aumento do feminismo acadêmico. Estas são questões em que a opinião é altamente polarizada; e a sondagem engajada, de mente aberta, por parte de uma moderada apaixonada em busca de um meio-termo entre os extremos é bastante fadada a estar fora de moda, e de fato a ofender ambos os lados.

» A senhora também se apresenta como uma feminista. Hoje nosso país é presidido por uma mulher. Qual a importância desse fato para uma feminista?

Não conheço a política brasileira muito bem e nem a nova presidente para dizer mais do que isto: é certamente desejável que as mulheres sejam livres para se engajar na vida política, se quiserem, e que essa liberdade seja real e não meramente nominal. Ao contrário de algumas feministas radicais, no entanto, não acredito que uma maior participação das mulheres iria revolucionar a vida política para melhor. Acredito que os políticos do sexo feminino, assim como os do sexo masculino, podem ser bons, ruins ou indiferentes.

» Outro tema muito atual aqui no Brasil, a ação afirmativa para afrodescendentes na universidade, é explorado pela senhora. Qual é a sua visão sobre as políticas de ação afirmativa em instituições de ensino superior?

Minha discussão em Manifesto se concentra principalmente em políticas de contratação preferencial de docentes mulheres em universidades; políticas que, em minha opinião, embora tenham provavelmente feito algo de bom, também causam uma boa quantidade de danos não intencionais. Mas era também parte da minha argumentação que as desvantagens sofridas por negros nos Estados Unidos são significativamente diferentes das desvantagens sofridas por mulheres, e questões sobre admissão de alunos nas universidades são também diferentes das questões sobre contratação docente.

A meu ver, raça e sexo, como tais, são simplesmente irrelevantes para a qualidade da mente de uma pessoa que, em nível mais profundo, é uma coisa muito individual. E é por isso que lamento o fato de que décadas de ação afirmativa nas universidades dos EUA nos fizeram mais, e não menos, conscientes em relação à raça e ao gênero.

Como eu também disse, melhor do que usar políticas de ação afirmativa nas universidades para tentar recompensar a má educação primária e secundária que vários alunos negros recebem hoje, seria melhor empregar o esforço, a imaginação e o dinheiro para garantir que eles não sejam prejudicados nos primeiros estágios da formação deles, de forma que as medidas compensatórias não sejam necessárias na fase universitária.

É claro que todos os meus argumentos são muito atrelados a situações específicas nos Estados Unidos. E sem saber mais a respeito da posição dos negros no Brasil, e de sua história, eu realmente não posso dizer se os mesmos argumentos também se aplicariam ao que pode ser uma situação significantemente diferente.

» Recentemente houve uma acusação de fraude em 11 estudos científicos de um reconhecido químico da Unicamp, uma das instituições mais importantes de ensino superior do país. Essa acusação poderia ser um indício daquilo que a Sra. chama atenção no livro, de que a produção acadêmica se encaminha para uma falta de compromisso com a verdade, com a investigação genuína, uma vez que as instituições de ensino e os próprios pesquisadores se sentem pressionados a produzir cada vez mais?

Como você mesmo diz, o que temos aqui é uma acusação; e eu certamente não estou em posição de saber se essa acusação é verdadeira. Tampouco estou em qualquer posição de saber de, se realmente houve uma fraude, qual seria a explicação nesse caso. Devo acrescentar que nem sempre é fácil diferenciar a evidente fraude científica de outras formas de desonestidade e de descuido interessado – ou, ainda, saber ao certo o quanto do que parece ser um aumento na incidência de fraudes científicas é real e o quanto é resultado do crescente interesse público na fraude e na sua divulgação.

Mesmo assim eu acredito que o problema da falta de conduta científica é real e os meus argumentos em Manifesto pelo menos explicam parcialmente por quê. A crescente pressão que os cientistas universitários enfrentam hoje para atrair recursos de financiamento, para produzir um trabalho patenteável, para publicar etc., tem produzido uma verdadeira distorção nos mecanismos sociais sobre os quais a comunidade científico-natural fundamenta-se para manter a maioria de seus membros, a maior parte do tempo, mais ou menos honesta; e porque cientistas são tão falíveis e suscetíveis a incentivos perversos como o resto de nós é de se surpreender que, sob tal pressão, alguns sucumbem à tentação de publicar muito rápido ou de encobrir ou enfeitar resultados – ou pior, cometer uma completa fraude.

Isso não é um problema somente no Brasil, obviamente, mas em todo lugar. De acordo com um levantamento realizado com 3.247 cientistas, publicado no periódico britânico Nature em 2005, por exemplo, 10% dos entrevistados admitiram que tinham omitido detalhes de sua metodologia ou de seus resultados em trabalhos ou propostas de pesquisa; mais de 15% admitiram que tinham descartado observações e dados inconvenientes e mais de 27% disseram que mantiveram registros inadequados de seus trabalhos de investigação. E parece que quase toda semana eu leio sobre mais outro caso de fraude ou má conduta científica. Isso parece confirmar que, como argumentei em Manifesto, o ambiente atual do trabalho científico ameaça destruir o ethos (espírito) científico, o que, para aqueles que, como eu, valorizam muito as conquistas das ciências, é muito lamentável.


Publicado em: 02/09/2015





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