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Entrevista com autor

Vera Follain de Figueiredo



Após três anos de pesquisas com o objetivo de colocar cinema e literatura em relação, a professora de Comunicação Social da PUC-Rio, Vera Lúcia Follain de Figueiredo, conclui esse trabalho com o lançamento do livro Narrativas Migrantes: literatura, roteiro e cinema (Editora PUC-Rio e 7 Letras).

Para ela, existe um eterno diálogo entre cinema e literatura, independente do fenômeno de adaptação ou de transposição de obras de um meio de comunicação para outro. Por outro lado, enfatiza que, na atualidade, o cinema tem servido cada vez mais à divulgação da literatura. “Hoje, mal o livro é publicado, já está nas telas”, explica a professora.

Nesta entrevista, Vera Follain discute o futuro dessa relação, contrapondo a história do cinema e da literatura. Para a autora, o deslizamento do texto para outros meios nunca foi tão rápido, o que acaba mudando a recepção e a produção das obras, tanto cinematográficas, quanto literárias.

» Como foi o processo de concepção do livro?

Esse livro é resultado da minha pesquisa no CNPq, que tinha como tema a relação entre cinema e literatura, mas buscando pensar também, a partir desse diálogo entre as duas artes, o lugar da literatura na sociedade midiatizada. Ao longo dos três anos da bolsa do CNPq, fui desenvolvendo o tema. Os capítulos correspondem a diferentes momentos da pesquisa.

» Como chegou a essa ideia apresentada no título, de “narrativas migrantes”?

A circulação de narrativas por diferentes meios e suportes é um fenômeno muito comum na contemporaneidade. Hoje temos narrativas transmidiáticas que já são criadas para serem veiculadas em meios e suportes diversos. Independentemente deste tipo de narrativa, o deslizamento do texto para outros meios nunca foi tão rápido, por isso “Narrativas migrantes”.

» Nesse livro, o foco está na relação entre cinema e literatura. Como articulou esse tema aos seus objetivos de pesquisa?

Eu não queria trabalhar estritamente com a ideia de adaptação ou de transposição, porque acho que a relação entre cinema e literatura vai muito além disso. Existe um eterno diálogo entre cinema e literatura, independente do fenômeno de adaptação. Quando o cinema surge, ele desperta o interesse dos artistas e intelectuais, que tendem a considerá-lo como a arte que melhor expressaria a vida urbana moderna. Ficam fascinados pela linguagem que o cinema inaugura. E isso vai influenciar a literatura, que, em contato com as técnicas da imagem, com a novidade constituída pela narrativa fílmica, tenta simular a simultaneidade da cena cinematográfica, procurando, através de um estilo mais sintético, dar ideia de presentificação. No nouveau roman, por exemplo, os escritores pretendiamcriar configurações literárias cujos efeitos sobre o leitor fossem equivalentes aos provocados pelas imagens. Mas o cinema também aprendeu muitas coisas com a literatura. Serguei Eisenstein (1898-1948) considerava que os grandes romances clássicos ofereciam uma lição no campo da montagem. David W. Griffith (1875-1948) dizia que sua técnica narrativa era tributária dos romances de Charles Dickens (1812-1870). Esse diálogo é muito intenso. Recentemente, Jorge Furtado declarou que decidiu fazer cinema, lendo Erico Veríssimo. Cinema e literatura falam das questões do nosso tempo; o diálogo se dá também porque eles se encontram nessa tematização dos assuntos fundamentais de cada época. Por isso, o que norteou meu livro foi a abordagem dessa relação entre cinema e literatura por diversos ângulos, e não apenas no diapasão da adaptação.

» Quando um livro é adaptado ao cinema, nota-se uma reação negativa por parte de alguns espectadores que leram antes a obra literária, que frequentemente consideram o filme, como produto, de ser “pior” do que o livro. Qual seria o motivo desta reação?

No tempo em que o cinema lançava mão, principalmente, de obras já consagradas, com a proposta de “reproduzi-las”, era comum esta reação de se considerar que a obra literária não tinha sido devidamente honrada pelo cinema. Mas este quadro está mudando, até porque os romances adaptados hoje são, geralmente, contemporâneos: quase que nascem junto com a adaptação. Além disso, a própria hegemonia do audiovisual na nossa sociedade vem alterando as hierarquias culturais. O cinema tem servido cada vez mais à divulgação da literatura. Vai se tornando mais frequente a pessoa ver o filme e depois ler o livro, invertendo-se a relação. Quando Nelson Pereira dos Santos filmou Vidas Secas (1963), adaptação do livro de Graciliano Ramos, o romance tinha sido escrito há quase trinta anos, já estava canonizado. O diretor ia, então, com o máximo cuidado, tentar trazer para o cinema aquela grande obra da literatura. Hoje, mal o livro é publicado, já está nas telas. Às vezes nem terminou de ser escrito e já está sendo encaminhado para o cinema. É o caso de O invasor, de Marçal Aquino. O filme saiu antes de ele terminar o livro. Outras vezes, o livro e o filme são feitos simultaneamente, e o processo de elaboração do filme acaba por influenciar a finalização do livro. Atualmente, não é tão raro ouvir o espectador/leitor dizer “o livro não é tão bom quanto o filme”. Uma prova disso é que os livros que são adaptados para o cinema são depois reeditados com a capa mostrando uma cena do filme ou uma foto dos atores. As editoras aproveitam a adaptação para poder divulgar o livro. Essa opinião de que o filme nunca é melhor que o livro é característica de uma época, mas isso já está mudando, à medida que a literatura vai perdendo a centralidade na sociedade de hegemonia do audiovisual.

» Mas esse diálogo constante não acaba gerando uma interdependência?

O cinema não depende da literatura; eles conversam. Todas as artes, na verdade, conversam, sem que, necessariamente, uma não possa existir sem a outra. Eu estou falando do cinema e da literatura, porque foi o recorte temático que fiz. Um dos grandes sonhos das vanguardas do início do século XX, as chamadas vanguardas históricas, era a colaboração transartística, ou seja, tentar superar a divisão entre os campos da arte. Foi uma característica da modernidade trabalhar com a compartimentalização. A modernidade iluminista, com seu culto à razão, teve necessidade de catalogar, de separar as atividades culturais em campos diferentes. A autonomia da arte é consequência desse movimento, que institui o campo da arte, buscando separá-lo da religião, da política e dos produtos feitos em série. Ao longo do tempo, essas fronteiras foram sempre tensionadas pelo diálogo entre os diversos campos. A partir do momento em que se acentua a desconfiança na razão, na sua capacidade de dar conta de tudo, que se desconfia que a própria razão poderia ter enlouquecido, as categorizações modernas são fortemente abaladas, e determinadas fronteiras perdem a nitidez. No final do século XX, essa diluição já é bem marcada, inclusive entre a alta cultura e a cultura de massa.

» Essa diluição dos campos é positiva para o desenvolvimento da cultura?

No caso da arte, se um campo se diluir totalmente no outro perdem-se as riquezas de cada linguagem. No caso da cultura de massa e da alta cultura, acho que a produção artística, hoje, vai deixando de dar ênfase à ruptura e aos experimentalismos e tem procurado também seduzir um público mais amplo. A arte – sobretudo a literatura e o cinema que não quer ser apenas entretenimento – já não tem mais essa disposição heroica, de romper com todas as convenções e trabalhar com o experimentalismo radical – o que tornava essa arte admirada por um grupo muito pequeno, muito restrito. A tendência dominante, para mim, é tanto o cinema quanto a literatura procurarem não abrir mão de uma certa inovação, de um certo grau de experimentalismo, e também de seduzir um público mais amplo. O artista fica no fio da navalha, porque ele quer, de um lado, atrair o público e, do outro, se distinguir do clichê e da pura repetição. Se ele cai para um lado, cai num hermetismo que diminui o público; para o outro, ele não mais se distingue da cultura de massa. Essa posição de equilíbrio é muito delicada. Mas acho que é essa a tendência em termos estéticos. O tempo daquele heroísmo radical, de romper totalmente com o padrão de gosto vigente, não importando se haveria ou não público, esse tempo passou. Hoje a tendência é muito mais tentar se equilibrar nesse fio da navalha.

» Como se pode julgar se esse equilíbrio é atingido?

Não é tão fácil, atualmente, separar o que é alta cultura e o que é cultura de massa, até porque a chamada cultura de massa apropria-se com muita rapidez de procedimentos da esfera artística. Assim como se torna difícil dizer que a obra classificada como alta cultura é o que é bom, é o que é bem trabalhado, distinguindo-se claramente de uma cultura de massa sem valor, pura repetição... As coisas não são assim. Esses dois campos se entrelaçam hoje muito frequentemente. Por exemplo, não é verdade que a cultura de massa só repete. Se ela só repetisse, não seduziria. Ela também inova. Pode inovar num grau mínimo, mas também inova. Nesses seriados de televisão, por exemplo, há uma dose grande de repetição, mas se tem sempre uma dose de novidade também. A cultura de massa tem que se equilibrar entre novidade e repetição, com ênfase na repetição. A arte, em vez de tender totalmente para a novidade, também quer se equilibrar entre esses dois polos para atrair um público mais amplo. Esses equilíbrios são muito difíceis, e por isso se tem dificuldade hoje de valorar a partir das categorias estabelecidas pela modernidade estética. Esse livro discute também esse problema da crise do valor, porque, quando as fronteiras são diluídas, os paradigmas de valoração que sempre nos guiaram ficam abalados. Também não se pode esquecer o papel do mercado. Ele é hoje o grande mediador na esfera da cultura e interfere, de maneira decisiva, na própria valoração das obras. Cada vez mais as grandes editoras se tornam as principais instâncias de legitimação das obras em função de seu poder na mídia e da força publicitária. Então, quem valora? Quem tem a legitimidade de dizer o que é bom ou o que é ruim? Antigamente eram os críticos, hoje é cada vez mais o mercado que seleciona e legitima. E isso é complicado.

» Quais são os seus próximos projetos de pesquisa?

Esse livro foi o encerramento de uma pesquisa, mas o meu novo projeto dará continuidade, por outro ângulo, aos estudos realizados nesse período anterior. Queria, agora, focalizar mais o que permanece dos padrões estéticos do modernismo. Por exemplo, Manovich diz que as tecnologias digitais realizaram o sonho estético das vanguardas históricas, viabilizando técnicas de colagem e montagem, tornando corriqueiros tais procedimentos – lógico que sem a utopia de mudar o mundo que caracterizou as propostas das vanguardas. Eu queria pensar, então, não tanto o que mudou, na esfera da arte, mas o que tem resistido a tantas mudanças.

Foto: Bruno Pereti - Projeto Comunicar PUC-Rio


Publicado em: 03/09/2015





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